sábado, 28 de novembro de 2015

Antanáusea ou Antanásia


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Maurício Mantiqueira

No planalto, devido ao mau cheiro, urubú voa de costas de nariz tapado.

Na teoria, a coisa esfriaria. Na prática, a crise é intergalática.
Até Papai Noel vai pro beleléu.

Botou as renantas de aviso-breve; afastou-se de veadinhos; sente falta até de neves.

“Ah! é cio de onça! Já, já isso passa, há o barba e o barbaça.”

Depois vem os folguedos: Bum-ba-lai meu boi.

É do árduo trabalho do rei da pupunha, o vultoso saldo (maior que se supunha) na conta do enchedor de linguiça, no país da rima.

Um tumor cheio de pus; cada um tem sua cruz.

O chuchu cara de “bonzinho” vai ter que explicar direitinho o negócio do trenzinho que causa tanto medinho no engaiolado vizinho. Aos tontos leva no bico; o tucano vai pedir penico.

Por temer afastar a Anta, que está indo pra Ásia, o efegagácê se encagaça de náusea.

A onça pode estar naqueles dias; enfurecida com a antiga ferida. Não é mistério (mais quase) da defesa que criou, e agora volta-se contra o finório bilontra.

O boca de caçapa, desta vez não escapa.


Carlos Maurício Mantiqueira é um livre pensador.

2 comentários:

Loumari disse...

Controlar a Vida a 360 Graus

Vivemos numa sociedade dominada cada vez mais pelo mito do controlo. E o seu postulado dogmático é este: a receita para uma vida realizada é a capacidade de controlá-la a 360 graus. Não percebemos até que ponto uma mentalidade assim representa a negação do princípio de realidade. Isto para dizer como somos pouco ajudados a lidar com a irrupção do inesperado que hoje o sofrimento representa. Sentimos a dor como uma tempestade estranha que se abate sobre nós, tirânica e inexplicável. Quando ela chega, só conseguimos sentir-nos capturados por ela, e os nossos sentidos tornam-se como persianas que, mesmo inconscientemente, baixamos. A luz já não nos é tão grata, as cores deixam de levar-nos consigo na sua ligeireza, os odores atormentam-nos, ignoramos o prazer, evitamos a melodia das coisas. Damos por nós ausentes nessa combustão silenciosa e fechada onde parece que o interesse sensorial pela vida arde. «A dor é tão grande, a dor sufoca, já não tem ar. A dor precisa de espaço», escreve Marguerite Duras nas páginas autobiográficas do volume a que chamou «A Dor». E descobrimo-nos mais sós do que pensávamos no meio desse incêndio íntimo que cresce. Nas etapas de sofrimento a impotência parece aprisionar enigmaticamente todas as nossas possibilidades. E colocamos em dúvida que este limitado corpo que somos seja o lugar para viver a nossa aventura total ou um fragmento dela que seja significativo. Precisaríamos de recursos que nos capacitassem a vivenciar a incapacidade, provocada pela dor, com outro ânimo e outro olhar.

"José Tolentino Mendonça, in 'A Mística do Instante'
Portugal n. 15 Dez 1965
Padre/Teólogo/Poeta

Loumari disse...

Viver em Estado de Amor

Respirar, viver não é apenas agarrar e libertar o ar, mecanicamente: é existir com, é viver em estado de amor. E, do mesmo modo, aderir ao mistério é entrar no singular, no afetivo. Deus é cúmplice da afetividade: omnipotente e frágil; impassível e passível; transcendente e amoroso; sobrenatural e sensível. A mais louca pretensão cristã não está do lado das afirmações metafísicas: ela é simplesmente a fé na ressurreição do corpo.

O amor é o verdadeiro despertador dos sentidos. As diversas patologias dos sentidos que anteriormente revisitámos mostram como, quando o amor está ausente, a nossa vitalidade hiberna. Uma das crises mais graves da nossa época é a separação entre conhecimento e amor. A mística dos sentidos, porém, busca aquela ciência que só se obtém amando. Amar significa abrir-se, romper o círculo do isolamento, habitar esse milagre que é conseguirmos estar plenamente connosco e com o outro. O amor é o degelo. Constrói-se como forma de hospitalidade (o poeta brasileiro Mário Quintana escreve que «o amor é quando a gente mora um no outro»), mas pede dos que o seguem uma desarmada exposição. Os que amam são, de certa maneira, mais vulneráveis. Não podem fazer de conta. Se apetece cantar na rua, cantam. Se lhes der para correr e rir debaixo de uma chuvada, fazem-no. Se tiverem subitamente de dançar em plena rua, iniciam um lento rodopio, sem qualquer embaraço, escutando uma música aos outros inaudí vel. E o amor expõe-nos também com maior intensidade aos sofrimentos. Na renovação do interesse e da entrega à vida que o amor em nós gera tocamos mais frequentemente a sua enigmática dialética: a sua estupenda vitalidade e a sua letalidade terrível. Mas, como dizia o romancista António Lobo Antunes, «há só uma maneira de não sofrer: é não amar». Mas não é o sofrimento inevitável a todo o amor que impede a vida. O obstáculo é, antes, o seu contrário: a apatia, a distração, o egoísmo, o cinismo.

"José Tolentino Mendonça, in 'A Mística do Instante'
Portugal n. 15 Dez 1965
Padre/Teólogo/Poeta