quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Bons Ares


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Renato Sant'Ana

Será possível ser cordial no embate político? Caberá elegância entre adversários? São perguntas retóricas: qualquer pessoa sensata dirá que sim, mesmo sabendo ser raro entre nós. Entretanto, a indagação é oportuna: o tom das discussões políticas no Brasil, no momento atual, passa a ideia de não haver lugar para elegância e cordialidade. Mas, agora vem, lá da Argentina, os sinais de um jeito renovado de fazer política.

O candidato "derrotado" nas eleições para a presidência daquela nação admirável, Daniel Scioli, antes mesmo que se concluísse o escrutínio, mas já definida a eleição, telefonou para Mauricio Macri, o adversário que venceu o pleito. "Sos un justo ganador" ("És o justo vencedor", em tradução livre). A linguagem é informal, familiar, o encaixe preciso para a cordialidade, para a amizade, para a benquerença.

À parte de serem adversários, Mauricio e Daniel são velhos amigos. Porém o mais significativo, pelo que é informado, é ter havido um acordo de convivência cavalheiresca estabelecido ao início da campanha. É verdade que Maurício Macri acabou tendo certa decepção com o velho amigo: Daniel Scioli (do partido da presidente Cristina Kirchner) durante o segundo turno esqueceu o acordo de cavalheiros e, na tentativa de reverter a derrota iminente, apelou para a demagogia rasteira. "Ele me decepcionou. Acabou sendo o mais kirchnerista. Ele mente, mente, mente para ver se alguma coisa cola", declarou Macri no encerramento da campanha, na província de Jujuy.

Contudo, o que mais importa agora é o gesto nobre de Scioli ao ver-se vencido, a atitude cortês, a elegância de reconhecer o mérito do outro, o que traduz inclusive respeito pela escolha do eleitorado. Belo exemplo!

Os dois são educados e elegantes. Tomemos a má conduta de Scioli, da qual Magri se ressentiu, por mero escorregão, - quem sabe por causa das más companhias. Convenhamos, não há de ser muito edificante andar metido com a família Kirchner e associados.

À distância - não apenas pelo belo exemplo aqui descrito, mas também por um provável debate em alto nível durante toda a campanha -, tem-se a impressão de que Macri e Scioli enxergam a política como algo muito além da simples e grosseira busca do poder. Sustentando propostas diferentes, parecem ambos estadistas. É nesse ponto que Scioli se diferencia dos seus pares. Kirchner, vale dizer, encarna o populismo latino-americano, o que é intrinsecamente mau. Numa definição simplificada, o que é sempre um risco, o líder populista faz política para buscar o poder, enquanto o estadista busca o poder para fazer política. Para o primeiro, o poder é um fim; para o segundo, um meio. Cristina Kirchner, assim como o marido (que a precedeu na presidência) e o mais de seu partido, é um modelito populista - embora sem carisma. É alvissareiro, pois, que ela não haja conseguido fazer o seu sucessor - ainda que ele se haja revelado bem melhor do que ela.

Sim, o sopro renovador que se percebe na Argentina espalha esperança pelo continente: o populismo é devastador, degradando a política e atrasando a economia. Revigora-se a esperança de que, nos demais países do continente, a democracia vença a demagogia; de que o desenvolvimento econômico ganhe concretude e deixe de ser mero discurso com estatísticas manipuladas; de que se fortaleça uma espécie de "cultura da iniciativa" e passemos a usar nossa energia e criatividade para inovar e construir, em vez de culpar inimigos externos por nossos fracassos. Grato, argentinos!

Renato Sant'Ana é Psicólogo e Bacharel em Direito.

2 comentários:

Loumari disse...

NÃO SE ILUDAM DEMAIS!
Bastará o Raul Castro lhe apertar a mão para este Macri ficar hipnotizado. Raul Castro é como aquela cobra Ka que hipnotiza a Mogli. Fait moi confiance! Fait moi confiance! Et voilà.
Estamos vendo como Santos presidente de Colômbia já está no ciclo hipnótico depois dele ter recebido e apertado a mão de Raul Castro.

rolusanro disse...

Há uma luz no fim do túnel da estrada política dos argentinos. Creio que a mudança será muito benéfica.
Já, por aqui, a boa notícia é a prisão do líder do governo, o senador Delcídio do Amaral, o que cria um precedente e mexe com a certeza de impunidade dos nossos políticos.
A esperança para o Brasil é o povo seguir o exemplo dos argentinos, e na próxima eleição fazer a mudança necessária.