terça-feira, 10 de novembro de 2015

Contabilidade transparente é um mito


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Mtnos Calil

Prezados contadores: Recebi de um colega cópia desta cartinha que ele enviou para a diretoria de um clube:  

Prezados diretores: Como está para iniciar novo período de administração, na qualidade de humilde participante tomo a liberdade de sugerir:

1-  que a administração seja transparente , onde todos os associados recebam balancetes mensais e tenham afixados nos quadros de avisos.

2- que todos recebam essas informações por e-mail e por simples Xerox distribuído na portaria.

3- não sabemos nem quem são os diretores.

Existe uma total falta de comunicação entre a direção e os associados.

Será que a nova diretoria vai conseguir esse milagre?

Aguardo ansioso uma resposta

===========================

Enquanto ele aguarda a resposta, eu vi aqui uma oportunidade para falar sobre o mito da transparência contábil:

Contabilidade transparente é um mito.

A transparência não é elemento inerente à contabilidade, visto que não é exigida por lei.

Por isso a simples divulgação de balancetes não atende às necessidades da transparência.

Ocorre que estes balancetes são demasiado resumidos e as informações disponibilizadas não permitem ao leitor formar o que eu chamaria de “visão detalhada”.

Como disse um poeta alemão, “Deus está nos detalhes”. Oopss... Que o poeta alemão, de nome complicadíssimo, me permita parodiá-lo e dizer que A TRANSPARÊNCIA ESTÁ NOS DETALHES.

E para agravar este quadro clinico da contabilidade em geral, existe o sigilo também assegurado por lei.

O dinheiro sofre de uma alergia congênita em relação à transparência.
Por exemplo, todo o mundo “esconde” a informação a respeito de seu salário ou renda familiar.

Essa cultura do esconde-esconde atinge todos os setores da sociedade, inclusive os bancos que aceitam depósitos sem ter o mínimo conhecimento da sua procedência.

Por isso, “Contabilidade transparente” é um dos projetos-fantasia dos quais eu desisti.

A diretoria do clube sempre terá este argumento:  “estamos cumprindo as exigências legais”.

Nas empresas existem dois tipos de contabilidade: a exigida por lei e a informal que traduz a realidade como ela é.

Basta o titulo do excelente artigo reproduzido abaixo para comprovar a existência destes dois tipos de contabilidade:

“Sua gestão empresarial tem contabilidade transparente ou é simplesmente existencial?”

O autor, que é um contador e auditor  recorreu  ao termo “existencial” para designar a contabilidade não transparente. É claro que não existe contabilidade “existencial”.

Mas no exercício de sua função, ele não poderia usar outros termos, como por exemplo “simplesmente legal”. Mas já temos aí um contador e auditor vindo a público para dizer que existem dois tipos de contabilidade, sendo um transparente e outro não.

Ele só não disse isso, de forma direta, porque o oficio não lhe permite. Já nós, que não somos contadores podemos dizer: a contabilidade transparente é um mito.

Uma contabilidade só seria transparente se apresentasse uma lista de todas as pessoas físicas e jurídicas que fizeram pagamentos e que receberam por serviços prestados ou produtos vendidos, com os respectivos endereços e telefones. Que eu saiba não existe nenhuma instituição no mundo em cujos balanços apareça  essa informação.
Porque a diretoria do Indiano deveria ser uma exceção mundial?  Teria sentido uma fantasia como essa?

Consultor Organizacional que não entende nada de contabilidade. Só entende alguma coisa de ética e  transparência.  A ética não é exigida por lei e por isso está acima do direito, ficando restrita aos códigos de ética privados, os quais por sua vez,  só são cumpridos parcialmente, muito parcialmente. A ética não foi inserida por Deus no DNA humano, como revelou o “pecado original”

Ps. Os humanos deram à ética e à transparência conceitos diferentes evitando assim que a transparência fosse pré-requisito da ética. E foram mais longe ainda: criaram várias éticas legitimadas pelos “culturalistas”. Assim cada povo pode ter a sua própria “cultura ética”, mesmo que ela desrespeite os princípios mais elementares da lógica. Chega de filosofia? Ok: chega!!! (por hoje, né...? rsrsrs).

Mtnos Calil , Psicanalista, é Coordenador do grupo Mãos Limpas Brasil.

Nenhum comentário: