domingo, 15 de novembro de 2015

Diário do "Velho Mário" - Comandante militar da guerrilha do Araguaia (parte I)

Maurício Grabois - fundador do PC do B

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto é o Diário do " Velho Mário", Cmt Militar da Guerrilha do Araguaia. É um documento histórico. Poucas pessoas o conhecem. E os mais jovens seguramente nunca ouviram falar dele e nem sabem que ele existiu. Dividi em três capítulos. Esse é o primeiro. Não corrigi e nem alterei a grafia com que foi escrito. Uma útil leitura em tempos de radicalismos e extremismos violentos.

Uma pequena Introdução

Por causa do famoso discurso secreto de Kruschev no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em fevereiro de 1956, condenando Stalin, o dogmatismo do partido, o culto a personalidades e pregando a coexistência pacífica na política internacional, iniciou-se uma longa discussão no Partido Comunista Brasileiro. Essa discussão foi abruptamente dada por encerrada por Prestes, em novembro de 1956, através de um documento intitulado "Carta Aberta de Luiz Carlos Prestes aos Comunistas". Essa carta, dentro do partido, ficou conhecida como "Carta Rolha".

O posicionamento do Secretário-Geral do PCUS logo se mostrou vitorioso, pois em junho de 1957 Kruschev afastou Kaganovich e Malenkov, componentes da troika que, com ele, dividia o poder desde a morte de Stalin. Prestes não esperou mais e concluiu que o PCB deveria também expurgar os stalinistas, o que aconteceu na reunião do Comitê Central realizada em agosto de 1957, quando os assim chamados stalinistas foram afastados da Comissão Executiva do partido.

A seguir, na reunião do Comitê Central, realizada em março de 1958, foi aprovado um documento que ficou conhecido como "Declaração de Março". Esse documento representou um ponto de inflexão na linha política definida pelo partido no IV Congresso, realizado em novembro de 1954, pois passou a endossar as teses de Kruschev sobre a coexistência pacífica.

Em decorrência da "Declaração de Março" foram constituídos dois grupos dentro do partido: de um lado Prestes comandando (esse é o verbo correto) o Comitê Central e o partido com mão de ferro, de acordo com a nova linha definida pelo Secretário-Geral do PC Soviético; e de outro, diversos dirigentes - João Amazonas, Pedro Pomar, Diógenes de Arruda Câmara, Mauricio Grabois e outros - stalinistas ferrenhos, defendendo as resoluções aprovadas no IV Congresso - que estatutariamente, é bem verdade, só poderiam ter sido alteradas por um outro Congresso e não por uma "Declaração" - e, nas divergências sino-soviéticas, posicionando-se em favor da China.

Em setembro de 1960, o PCB realizou seu V Congresso, cuja Resolução Política teve por base as concepções aprovadas em 1956 no XX Congresso do PCUS. Segundo essa Resolução, no Brasil não existiam mais condições para "transformações socialistas imediatas"; o caráter da revolução brasileira foi definido como "nacional e democrático" - e não socialista; as tendências dogmáticas e sectárias teriam que ser combatidas através do incremento da luta ideológica; e a violência armada deveria ser deslocada para um segundo plano, deixando de ser considerada "um princípio".

O Congresso aprovou também um novo Estatuto e decidiu que deveriam ser adotadas providências jurídicas para legalizar o partido junto à Justiça Eleitoral. Foi eleito também um novo Comitê Central, do qual os principais stalinistas, alguns acima referidos, ficaram de fora. Em vista disso, os stalinistas, sem espaço dentro do partido e após vencidas as incertezas ideológicas individuais, constituíram-se num grupo organizado.

Em março de 1961, uma reunião do Comitê Central (CC) levou à prática as Resoluções do V Congresso que autorizavam o CC a proceder modificações em seus Estatutos, a fim de tornar viável o pedido de legalização do partido. O nome do partido foi então alterado de Partido Comunista do Brasil para Partido Comunista Brasileiro, as expressões "marxismo-leninismo" e "internacionalismo proletário" foram expurgadas do novo Estatuto e foi aprovado um outro programa partidário.

Essas modificações foram publicadas no jornal porta-voz do partido, "Novos Rumos", em 11 de agosto de 1961 - ou seja, ainda durante o governo Jânio Quadros -, fazendo com que as divergências se acirrassem, levando à cisão definitiva e à constituição, em fevereiro de 1962, pelos chamados stalinistas, do Partido Comunista do Brasil.

Antes disso, porém, em outubro de 1961, os assim chamados stalinistas foram expulsos do PCB. No ano seguinte, no período de 11 a 18 de fevereiro em São Paulo, reunidos numa Conferência Nacional Extraordinária fundaram o Partido Comunista do Brasil, com a sigla PC do B, e elegeram um Comitê Central do qual faziam parte João Amazonas, Mauricio Grabois, Lincoln Cordeiro Oeste, Calil Chade, Pedro Pomar, Carlos Nicolau Danieli, Ângelo Arroio, José Duarte, Elza Monerat e Walter Martins.

O Manifesto-Programa aprovado nessa Conferência afirmava que as classes dominantes não cederão suas posições "voluntariamente", o que "torna inviável o caminho pacífico da revolução", e defendia um "governo popular revolucionário que instaure um novo regime anti-imperialista, anti-latifundiário e anti-monopolista".

Esse documento era muito semelhante à Resolução Política aprovada no IV Congresso do PCB, realizado em 1954, e continha os mesmos objetivos definidos em 1935 pela Aliança Nacional Libertadora. Descartava, e descartava como burguesa, a palavra-de-ordem de "luta pelas reformas de base", imaginada pelo PCB e encampada pelo governo Jango.

O Manifesto fazia elogios à China Popular mas somente no ano seguinte, em julho de 1963, no documento intitulado "Proposta a Kruschev", o novo PC do Brasil realmente definiu sua posição internacional, repudiando o PCUS e apoiando o Partido Comunista Chinês e o Partido do Trabalho da Albânia.

O Manifesto definiu Stalin como "o quarto clássico" do marxismo, ao lado de Marx, Engels e Lênin.

Pouco tempo depois, o PC do B assumiria o "Pensamento de Mao-Tsetung", de cerco das cidades pelo campo, optando pelo alinhamento ideológico com o Partido Comunista Chinês pois, de conformidade com os dogmas stalinistas, o Partido Comunista da União Soviética não admitia a existência, em um mesmo país, de mais de um partido dirigente da classe operária.

Esses antecedentes, bem como a necessidade de justificar a cisão com o PCB, levaram o PC do B à aventura do Araguaia.

Em julho de 1963, Mauricio Grabois, um dos fundadores e membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil, assinou um artigo definindo o PC Chinês como "destacamento de vanguarda e força dirigente da revolução mundial" e qualificou Mao-Tsetung como "o maior teórico do Movimento Comunista Internacional".
A partir de então, o maoísmo penetrava no Brasil para não mais sair.
A direção do PC do B, em junho de 1964, após mandar o primeiro destacamento do partido receber treinamento militar na China, em uma reunião do Comitê Central estabeleceu a tática revolucionária a ser empreendida. Essa tática centrava-se no deslocamento do trabalho de massa para as áreas rurais, como forma de preparar o início da Guerra Popular Prolongada.

Em agosto de 1964, um documento da Comissão Executiva do PC do B tachou a Revolução de 1964 de "quartelada conduzida por um grupelho de generais fascistas, retrógrados e aproveitadores", e concluiu que "os problemas do país não serão resolvidos pela via pacífica".

Em março de 1966, o Comitê Central aprovou um outro documento, intitulado "O Marxismo-Leninismo Triunfará na América Latina",posicionando-se contrariamente a Fidel Castro e à União Soviética,  e defendendo a China de Mao-Tsetung. Tecia críticas à constituição, na "Conferência Tricontinental", em Havana, do  "Comitê Coordenador das Lutas de Libertação Nacional na América Latina", sob o argumento de que o marxismo-leninismo "é universal e não existe um marxismo-leninismo latino-americano". E concluía afirmando que Mao-Tsetung é "o maior marxista-leninista de nossos dias". Ou seja, aquilo que Kruschev condenara quando do XX Congresso do PCUS, o PC do B praticava às escâncaras: o culto da personalidade.

Em junho de 1966, o Comitê Central do PC do B emitiu mais um documento, que recebeu o pomposo título de "União dos Brasileiros para Livrar o País da Crise, da Ditadura e da Ameaça Neocolonialista", sendo que o principal aspecto nele constante foi o chamamento à "guerra popular revolucionária no campo". Já, então, os primeiros militantes, retornados da China, eram deslocados para o Araguaia.

"Velho Mário" é o nome pelo qual era conhecido o comandante militar da Guerrilha do Araguaia. Trata-se de Maurício Grabois, membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro até 1962, ocasião em que foi um dos fundadores do Partido Comunista do Brasil, passando a integrar seu Comitê Central e Birô Político.

Na sua condição de comandante militar, chefe da "Comissão Militar", mantinha um diário onde eram registrados todos os fatos relativos ao desenvolvimento da guerrilha. Esse diário começou a ser escrito em 30 de abril de 1972 - a partir do início das hostilidades - e foi abruptamente interrompido em 25 de dezembro de 1973, quando Grabois teria sido morto.

Sem tecer quaisquer considerações, algumas anotações significativas nele constantes merecem ser transcritas, com algumas correções ortográficas.

Carlos Ilich Santos Azambuja

O Diário

"30/4 - Começou a GP a 12/4. O inimigo, possivelmente informado por alguma denúncia, atacou de surpresa o Peazão entre as 15 e as 16 horas daquele dia. Avisado com poucas horas (2) de antecedência, pela massa, o DA retirou-se organizadamente para a mata. O G3 daquele D, que estava sediado no Peazão, dada a superioridade do adversário, não ofereceu combate, mas salvou seus efetivos, seu armamento e diversos materiais. No entanto, muitas coisas foram deixadas no local, principalmente roupa e oficina.

No dia 22, chega o LAND de sua missão. Atrasara-se porque houve desencontro sobre o ponto onde deveria ser recolhido. Fez boa viagem pela mata e pelos caminhos. No local, na Transamazônica, onde tinha de apanhar o CID, estava sediado um posto do Exército. Os ônibus e demais veículos estavam sendo vistoriados. CID e os que deviam vir com ele não apareceram. Dada à vigilância do inimigo, LAND não repetiu o ponto a 1G como estava combinado. Que será feito do CID? Fará imensa falta. Talvez, daqui a algum tempo, consiga entrar na zona. Se não nos puder ajudar aqui, ajudará o P lá fora e coordenará todo apoio político à GP.

O LAND defrontou-se com um bate-pau montado no PT (um dos burros do DA). Passou por elementos da massa. O bate-pau, além de dizer que éramos terroristas, acrescentou que tínhamos fabricado muitas armas, que estávamos armados até os dentes e que o inimigo estava nas "bocainas" para nos pegar quando saíssemos da mata.

1/5 - O inimigo procura nos apresentar como marginais. Em nota fornecida pelas autoridades militares, divulgada pela rádio, diz-se confusamente que, ao sul da cidade de Marabá, foram localizados malfeitores procurados pela Polícia Federal, quando forças militares realizavam investigações sobre contrabando. Em seguida, diz que prosseguem os "exercícios", com a participação do Exército, Marinha, Aeronáutica e Polícia Militar. A reação procura evitar a repercussão da nossa luta falando em contrabando e em bandidos foragidos. Devemos repelir todas as calúnias e dizer claramente porque lutamos. Precisamos dar argumentos políticos de acordo com o nível de compreensão da população. É necessário difundir ao máximo o Manifesto do Movimento de Libertação do Povo (MLP), no qual está incluído o programa de reivindicações locais por nós defendido.

Somos defensores do povo, lutamos contra a opressão e a exploração. O Pará, bem como todo o Brasil, deve ser uma terra livre, sem grileiros e tubarões, onde os pobres possam cuidar suas terras sem nenhuma perseguição e com a ajuda de um governo verdadeiramente do povo. Somos inimigos irreconciliáveis da ditadura. Nossa política é ampla. É preciso se orientar pelo programa do MLP e falar linguagem acessível à massa. Na propaganda revolucionária armada é indispensável ter iniciativa e espírito criador. As massas, se falarmos em linguagem a elas compreensível, virão para o nosso lado. A ditadura, com sua política infame, só pode ser odiada pelo povo. O importante é esclarecê-lo.

3/5 - Reúne-se a CM e troca idéias sobre os seguintes assuntos: a) localização e funcionamento do Comando; b) ligação com o P; c) a tática a seguir pelas forças guerrilheiras; e d) a propaganda revolucionária a ser desenvolvida na região. Algumas medidas práticas são tomadas.

7/5 - Precisamos dar repercussão à nossa luta. Isso é vital para nós. A extensão do nosso movimento, o número de cc que envolve, a bandeira que levantamos, o tamanho da região conflagrada, bem como a selva, junto à Transamazônica, necessariamente chamarão atenção sobre nós. É indispensável romper a barreira da censura ditatorial. A propaganda de nossa zona guerrilheira atrairá milhares de jovens para a luta e aumentará o prestígio do P, que tem, agora, grandes possibilidades de crescer. Temos urgentemente que nos ligar com o P. É o que faremos na primeira oportunidade.

15/5 - FLA informa que fizera junto com outro c, uma pesquisa entre a massa. Esta o recebeu muito bem. Aceitou com satisfação as idéias expostas no programa do MLP. O elemento de massa comunica-lhe que desceram de um helicóptero em Santa Cruz 25 soldados. Estes eram todos "caraus" e nunca tinham visto mata. Vieram a pé e não tiveram disposição de atravessar o "Gamegia", que naquele dia estava cheio. Só na manhã seguinte se atreveram a fazê-lo. Limitavam-se a queimar as casas do PA e voltaram fagueiros. Estavam acompanhados do delegado do vilarejo. A massa também dá uma notícia bem triste para nós: fora visto amarrado num jipe um jovem de chapéu de couro quebrado, que estava armado de 38 e duas caixas de balas, faca e facão. Só pode ser o GER, do DB, que a 17 do mês passado saíra para avisar o DC sobre o ataque do Exército ao DA.

16/5 - O OS informa que ao se dirigir à casa de um elemento de massa, foi parar inadvertidamente no caminho e deparou-se com um grupo de cinco elementos armados, tendo uma metralhadora. Pareciam ser da Polícia Federal. Tinham subido o Gameleira de motor e se apresentavam como geólogos para enganar os camponeses. O OS e o COMPRIDO, que o acompanhava, travaram tiroteio com eles. O da metralhadora foi morto e um policial ferido. O tropeiro que estava com eles e mais um inimigo saíram em desabalada carreira. Outro ficou de tocaia num "muguiço" com a metralhadora e o revólver do morto. Foi o primeiro choque do DB com o inimigo.

Nos últimos dias nota-se febril atividade da aviação. Aviões a jato cortam os ares duas, três e até quatro vezes por dia. Também voam aparelhos a pistão. Os helicópteros movimentam-se sem cessar. O que prepara o inimigo? Julgamos que está transportando tropas para esta área. Será que pretendem entrar na mata? Pior para eles. O G do DB que, está por aqui, vai sair da área e nós iremos logo levantar acampamento.

O JU, desde que chegou está na rede. A malária não o larga. Está quase sempre com 39º de febre. Assim permanece há cinco dias. Emagreceu muito e está debilitado. Seu ânimo, no entanto, é elevado.

17/5 - Os helicópteros continuam a voar e o JU ainda está nas garras da malária.

20/5 - Finalmente, o JU ficou sem febre e somente ontem é que pudemos transferir o acampamento. Ontem à noite, a Rádio Tirana deu uma breve notícia da nossa luta. Rompeu-se a cortina de silêncio que se estendia sobre nossos combatentes. Temos a impressão de que a notícia não foi enviada pelo P, mas que se filtrou através de uma agência telegráfica estrangeira. A notícia tem importância, pois muitos brasileiros ficam sabendo que no Brasil existe um movimento guerrilheiro de certa envergadura e que se subsiste há quase 40 dias. É necessário destacar o fato de que a guerrilha desperta grande simpatia entre as massas e há grande mobilização de tropas na Transamazônica e no Araguaia. Isto a Rádio Tirana assinalou.
É urgente o contato com o exterior. Estamos somente aguardando a volta do PE, para decidirmos o que fazer a respeito.

21/5 - A Rádio Tirana ontem voltou a abordar a nossa luta. Difundiu uma nota sobre a ação das Forças Armadas no norte do país. Deu destaque merecido ao assunto e o tratou de maneir
a política. Nota-se, agora, que os dados foram fornecidos por quem conhece os problemas daqui. Isto nos faz crer que o CID conseguiu se safar, colheu informações e pôde transmiti-las aos amigos da Albânia. Para nós, o CID em liberdade é um alívio. Aqui, temos que intensificar a propaganda revolucionária, recrutar novos cc para as Forças Guerrilheiras e amigos para nossa causa. E isso não é difícil de realizar. As condições parecem favoráveis.

22/5 - A Rádio Tirana voltou a repetir a notícia da nossa luta. Precisamos enviar-lhe informações para alimentar o noticiário sobre a guerra de guerrilhas no Araguaia. Logo que tivermos portador assim o faremos.

24/5 - A mata nos abriga e o povo nos ajuda. Com as informações do PIAUÍ elevou-se a moral do D. A massa também revelou que o Exército se retirara da área e se concentrara nas corrutelas. Deixou de policiar a Transamazônica, estabelecendo somente um posto de controle próximo de S. Domingos e outros à frente da estrada de S. Felix. Em seu lugar ficaram alguns grupos da Polícia Militar. O Exército também bateu em nossa "beira" e lá prendeu um elemento da massa, que tomava conta da quitanda, levando-o para Brasília.

Hoje, a Rádio Tirana tratou novamente da nossa luta. Deu-lhe importância, mas não forneceu novos dados. Temos que enviar ao P informações, a fim de dar maior repercussão à luta na região do Araguaia.

É urgente fazer um balanço da situação. Analisar nossa atividade política e militar, o comportamento da massa e a tática do inimigo. Precisamos delinear com clareza as perspectivas da luta e elaborar um plano de trabalho. Na próxima reunião da CM nos orientaremos nesse sentido.

26/5 - Ontem reunimos a CM para dar um balanço da situação e traçar algumas tarefas concretas. Nessa reunião examinou-se a tática até agora empregada pelo inimigo, a atitude da massa diante da nossa luta, a política que devemos aplicar na região e a tática que devemos pôr em prática. Constatamos que o Exército embora tivesse ocupado algumas cidades e estabelecido postos na Transamazônica, não enviou grandes contingentes contra os nossos PPAA. Suas tropas de ataque variaram entre 20 e 25 homens (a informação de que contra o Peazão foram mandados 70 soldados não era correta). Acresce que vinham cansados (foram obrigados a caminhar longas distâncias a pé) e mesmo temerosos. Tivéssemos nós um melhor serviço de informações e experiência militar, poderíamos assestar no inimigo rudes golpes nas áreas de todos os DD. Os soldados queimaram todos os nossos PPAA e, após pequena permanência naqueles locais, retiraram-se. Pelo visto, a tática das Forças Armadas tem em vista dar a menor repercussão política à nossa luta. Dizem que somos criminosos e estabeleceram férrea censura sobre tudo o que se refere à Guerrilha do Araguaia. Também retiraram o aparato militar para evitar comentários do povo e impedir ao máximo que diferentes regiões do país se apercebam do que se passa aqui. No entanto, a retirada do inimigo parece ser momentânea. Este deve estar se preparando melhor (parece que não tinham idéia do vulto da luta).

Sobre a atitude da massa, podemos afirmar que é de profunda simpatia em relação à nossa luta e de condenação às forças de repressão. O comportamento das massas superou as nossas expectativas.
Quanto à política a aplicar na região, ela deve ser a mais ampla possível.

Nossa orientação está expressa no Manifesto do Movimento de Libertação do Povo. Não devemos aparecer unicamente como vítimas da ditadura, mas como defensores do povo explorado e oprimido, como inimigos irreconciliáveis dos poderosos e da ditadura. Concitar as massas à união e à luta. Atacar somente as propriedades dos que ativamente nos combaterem. Dizer que somos contra este governo que defende os "grileiros", esfomeia o povo e deixa as populações abandonadas, sem escolas e assistência médica, sem qualquer ajuda.

No que diz respeito à tática militar e política a seguir, devemos ser bem flexíveis. A vida confirmou a justeza de nossas concepções de luta armada e comprovou que fomos capazes de estabelecer uma justa relação entre o valor topografia do terreno e a importância das massas. As selvas nos abrigam das investidas do inimigo e as massas camponesas nos ajudaram a sobreviver e a crescer. Tivéssemos começado a luta em região sem matas, com terreno desfavorável, já teríamos sido liquidados, mesmo contando com a simpatia das massas. Agora, para nós, fica patente a diferença radical entre a nossa teoria de GP e a concepção "foquista". O fato de o inimigo ter tomado a iniciativa, quando ainda não tínhamos ultimado nossos preparativos, determinou que sofrêssemos um golpe com a prisão de alguns cc quando em missão em cidades ou estradas. Mas resguardamos o grosso de nossas forças, o que constitui um êxito.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Paolo Hemmerich disse...

O que impressiona nesses relatos do "Velho Mário" é sua ingenuidade!!! Parece que não tinha a mínima noção do que era aquilo!!! Deu no que deu!!!

Anônimo disse...

No Brasil as origens do contragolpe militar de 1964 deveriam ser estudadas nas escolas , o que ainda não acontece. Nós, brasileiros permanecemos ignorantes de como se formaram os dois partidos comunistas no Brasil - o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e o Partido Comunista do Brasil( PC do B) - suas origens e divergências e participação na guerrilha, dentre outros grupos. Isso é importante para desmistificar uma história muito mal contada, de que estes grupos lutaram pela democracia. Não, eles lutaram pela implantação do comunismo, como estão fazendo novamente agora . Só que, hoje, embora não conhecemos totalmente a história, sabemos o que não queremos ( graças à internet) e, definitivamente não queremos nos transformar em cuba nem na venezuela, pobres países que se afundaram nesta ideologia.