segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Diário do "Velho Mário" - Comandante militar da guerrilha do Araguaia (parte II)

Maurício Grabois - fundador do PC do B

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

A nossa inexperiência militar impediu que, no início, que golpeássemos o inimigo, tanto no DA como no DB. Mas os fatos indicam que o desenvolvimento da luta nos é favorável e será, no futuro, cada vez mais favorável. É certo que a cortina de silêncio que a ditadura baixou sobre nossa luta nos é desfavorável. Temos que romper essa cortina, pois se as massas tomam conhecimento da guerrilha, sua repercussão será imensa em todo o país.

Nossa tática deve consistir em: 1) realizar intensa propaganda revolucionária armada; 2) garantir o auto-abastecimento; 3) levar a cabo ações armadas contra o inimigo, de maior ou menor envergadura. Este tipo de ação ou ocupação de pequena cidade ou lugarejo será sempre um meio de propaganda e uma forma de crescer (conseguir armas, equipamentos, recrutar elementos da massa, etc.). Precisamos aproveitar o recuo temporário do inimigo para enviar nossos propagandistas armados a todos os recantos da região, a todas as casas de camponeses.

Ontem, a Rádio Tirana deu excelente notícia sobre a nossa luta. Nota-se que ela foi redigida por quem está por dentro da situação e conhece a nossa preparação. Deve ser o CID, que impedido de aqui chegar, está nos ajudando de fora.

29/6 - A Rádio Tirana voltou a abordar a nossa luta. Divulgou ótima reportagem enviada do Brasil, dando um quadro correto da situação, com informações precisas e encarando - o que é muito importante - o aspecto político das guerrilhas do Araguaia, de maneira acertada. Situou a resistência armada no Sul do Pará dentro da luta geral do povo brasileiro contra a ditadura. 

30/6 - Não apareceu o JOAQ, o que me deixa seriamente preocupado. Que poderia ter acontecido?

4/7 - A Rádio Tirana, dia 2, irradiou artigo do CID, tendo como centro os acontecimentos ocorridos no Sul do Pará. Matéria curta e muito boa. É um chamamento à luta.

12/9 - Balanço político de cinco meses de luta armada na região do Araguaia: sobre as forças guerrilheiras - DA não teve perdas; o DB teve duas perdas, um aprisionado e outro morto; DC teve seis baixas, entre prisioneiros e mortos (um terço dos seus efetivos), o que constituirá um golpe para o D. Uma das principais falhas da CM é não ter contatos com o P, contato que tem primordial importância para o desenvolvimento da luta armada na região do Araguaia.  

Sobre as Forças Armadas da ditadura: o inimigo tem extensa frente a atender, que vai de Marabá até Xambioá. Por isso tem que mobilizar numerosos efetivos, que apesar de seu vulto não atendem à necessidade de golpear seriamente as FFGG. O moral das tropas do inimigo é baixo. Os camponeses informam que os soldados revelam medo. Até hoje os milicos não se encorajaram a penetrar na mata. As patrulhas do Exército andam somente pelas estradas, caminhos e, excepcionalmente, em picadas. As forças repressivas têm espírito defensivo, revelam displicência, afoiteza e completa falta de vigilância. Isso favorece a realização de ações ofensivas de nossa parte (emboscadas, assaltos e fustigamentos).

2/10 - Completo 60 anos. Não é uma idade própria para um guerrilheiro. Mas me esforço para cumprir meu dever de revolucionário. Dois terços de minha vida, precisamente 40 anos, dediquei ao P. Fiz as mais diversas experiências. Ingressei nas fileiras partidárias como soldado e desenvolvi, em 1932 e 1933, intensa atividade nos quartéis. Em seguida, durante alguns anos, fui dirigente da UJC. Posteriormente, integrei o Secretariado Regional do Rio de Janeiro. Ocupei durante longo período o cargo de Secretário Nacional de Agitação e Propaganda do partido. 
Como deputado federal na legenda do Partido Comunista do Brasil, tornei-me líder da bancada comunista na Câmara dos Deputados. Orientei, durante longo tempo, na função de diretor, o órgão central do CC, “A Classe Operária”, principalmente depois da reorganização do partido, em 1962, e do rompimento com o revisionismo.

Agora estou nas matas do Araguaia, ao lado de bravos e jovens lutadores, enfrentando forças militares da ditadura. De todas as tarefas que tive a meu cargo, esta missão é a que mais gosto, apesar de ter a saúde abalada pelo peso dos anos e por longa e febril atividade revolucionária. Orgulho-me do meu partido e por ele estou disposto a dar minha vida. Somente o PC do Brasil pode conduzir nosso povo à vitória na luta pela liberdade, a emancipação nacional e o socialismo. Em contato com os corajosos combatentes que aqui se encontram, rapazes e moças, refaço minhas energias, inspiro-me em seu desprendimento e cada vez mais confio no radioso futuro de nosso glorioso destacamento de vanguarda do proletariado.

20/12 - Situação dos Destacamentos: O DA obteve importantes êxitos. Permanece incólume. Seu poder de fogo melhorou um pouco. Seu comando tem espírito de iniciativa e realizou bom trabalho de massas; O DB também teve êxitos, mas teve baixas relativamente grandes: 7 cc (6 fora de sua área). Levou a cabo razoável trabalho de massas; O DC dispersou-se. Muitos de seus cc morreram, outros foram presos e o restante parece que se deslocou para outra região. 

As FFAA da ditadura realizaram duas grandes campanhas contra as FFGG. Uma em abril e outra em setembro-outubro. Ambas fracassaram porque seus planos foram elaborados sobre os mapas, fora da realidade da selva. Grandes massas de soldados não podem penetrar na selva por inúmeras razões. Elas acabam se concentrando na Transamazônica, nas cidades e vilarejos da periferia. O excesso de homens traz ao inimigo enormes dificuldades, como falta de transporte, precária logística e emprego de tropas sem experiência de luta anti-guerrilha. Além do mais, os guerrilheiros só aparecem quando querem e julgam conveniente. O Exército combate a um inimigo invisível.

24/12 - Sem ser esperado, JOAQ, acompanhado do ZECA, apareceu no acampamento ao escurecer do dia 22. Trazia notícias tristes. Informou que o ZECA foi a um depósito do DB buscar umas peças de roupa em companhia de dois cc, desse D, que vieram apanhá-lo. Ali encontraram a VAL, membro do grupo do JU. Com ela também se achava o RAUL, embora no momento não estivesse no local, pois saíra para caçar. Esta c do DB deu notícias do que acontecera com JU e seu grupo. Dois dias depois de partirem começou a ofensiva do inimigo, desfechada em setembro. Logo que chegaram ao Franco, foram surpreendidos pelos soldados quando tentaram entrar em contato com a família que os ajudara na viagem anterior. Neste choque, FLÁVIO matou um soldado. Durante todo o percurso foram tomando conhecimento da presença de tropas do Exército. Qualquer tentativa de se aproximar de casas de elementos de massas esbarrava com a vigilância dos milicos, que estavam emboscados nas estradas, piques e capoeiras. No dia 30 de setembro, data marcada para o encontro com os cc do DC, JU decidiu procurar um camponês para se informar melhor. Ele e seu grupo não puderam entrar na casa que estava tomada pelos soldados. Resolveram se retirar. Quando iam apanhar as mochilas, que haviam deixado num local um pouco afastado da moradia do lavrador, irrompeu violento tiroteio, verificando-se sucessivas rajadas de FAL ou metralhadora. JU, que conversava com a VAL, caiu a seus pés e depois de pronunciar umas poucas palavras, morreu. VAL olhou em torno de si e notou que FLÁVIO estava estendido sem vida no chão. Neste momento, viu RAUL, que fora baleado levemente no braço, querendo se afastar, tomando o caminho de um pique próximo. Correu para impedir que o fizesse, pois o pique estava tomado de soldados. Ao chegar junto do RAUL observou que GIL, de cócoras, procurava reanimar o JU. Depois de conversar com o RAUL, procurou GIL e não o viu mais. Talvez tivesse sido atingido pela metralha. É quase certo. Diante disso, os dois sobreviventes se retiraram.

Com a morte de JU as FFGG recebem pesado golpe. Perderam seu médico, um membro da CM com grande capacidade política e militar. JOÃO CARLOS HAAS SOBRINHO, este o verdadeiro nome do desaparecido, era um quadro de grandes qualidades.

FLÁVIO, antigo estudante de arquitetura, era um dos mais qualificados combatentes do DB. Viera do Estado da Guanabara. Nesse Estado ajudou a formar o partido entre os estudantes. Também desenvolveu atividades revolucionárias em Minas Gerais. O DB perdeu um grande lutador.
GIL viera de São Paulo e há muitos anos estava na tarefa de preparação da luta armada. Sua morte deixa um grande vazio no DB.

Depois de todas essas baixas, o DC teve outra perda. LENA desertou. Entregou-se ao inimigo. Era uma combatente ideologicamente fraca e pouco entendia da luta em que estava empenhada. Viera ao campo acompanhada do marido, mas há 4 meses estava rompida com ele.

No mês de setembro, por ocasião da grande campanha das Forças Armadas contra o movimento guerrilheiro, o DC teve mais 4 baixas fatais. Todas elas por infração das leis da guerrilha e por inexperiência militar de seu VC: CAZUZA, VITOR, ZÉ FRANCISCO e ANTONIO. DINA conseguiu escapar.
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Assim, o DC ficou desfalcado de 11 combatentes, sendo 7 mortos e 4 presos. Restavam apenas 9.

O rádio nos deu notícias inquietantes da cidade. A Bandeirantes informou que a polícia da GB atacou uma casa em Jacarepaguá, tendo morto LINCOLN e outro camarada. Por sua vez, a Rádio Tirana fala em despacho da Associated Press em que se divulga nota do governo informando que a polícia de São Paulo matara CARLOS DANIELLI e prendera um casal com duas crianças. Tais notícias nos preocupam muito. Se verdadeiras, e parecem ser, a direção do P foi seriamente golpeada, o que não deixará de ter reflexos na ajuda política e material à luta guerrilheira do Araguaia.

26/1/73 - Estive meditando sobre as perdas do DC. Elas são bastante sérias. Morreram ótimos companheiros e combatentes de valor. Além do JORGE, MARIA e possivelmente CARLITO, caíram lutadores firmes como VITOR, ANTONIO, CAZUZA e JOSÉ FRANCISCO.

JORGE, cujo verdadeiro nome era BERGSON GURJÃO DE FARIAS, era ex-estudante do último ano de Química da Universidade do Ceará.

MARIA, era uma jovem professora do interior de São Paulo.

CARLITO veio do Estado da Guanabara, aí formara-se em Ciências Sociais. Seu verdadeiro nome: KLEBER.

Outro morto do DC foi seu vice-comandante, o companheiro VITOR. Antigo militante do partido, pertenceu ao Secretariado do CR da Guanabara. Seu nome era VITÓRIO. Nascera em Minas, no Triângulo Mineiro (Uberlândia).
ANTONIO, cujo verdadeiro nome não sei, viera da Bahia. Geólogo capaz, conhecia bem topografia.

JOSÉ FRANCISCO, antigo marinheiro, ingressou no P em 1931. CHAVES, era seu sobrenome. 

CAZUZA, um dos mais antigos na tarefa de preparação da luta armada. Atuou, nesse sentido, em Goiás, Maranhão e Pará. Ex-estudante, conhecia bastante Medicina, ocupando o posto de chefe do serviço de saúde do seu D. Natural de São Paulo. 

12/2 - Nossa resistência armada contra a ditadura faz 300 dias.

11/3 - O grupo que saiu para liquidar o bate-pau não o executou.Depois de tomar a sua casa de assalto, prendeu-o e interrogou-o. Ele deu uma série de explicações e, de joelhos, pediu perdão.Disse que foi iludido e não mais serviria aos soldados. Comprometeu-se a pagar o porco e o rifle de PEDRO CARRETEL. O bate-pau a ser justiçado não causara danos de importância às FFGG. Não é dos mais raivosos. Por isso, a solução política, dada ao caso, talvez tenha sido a melhor. Acresce que a casa do canalha, na ocasião, estava cheia de camponeses. 

26/3 - Uma boa notícia sobre as atividades do DB. Esta unidade das FFGG tinha realizado operação militar contra a casa em que estavam morando alguns pistoleiros do capitão OLINTHO, que realizou extensa grilagem na região. O chefe dos jagunços era um bandido famoso, PEDRO MINEIRO, homem de confiança daquele capitão que representa a “Capingo”.

A ação se verificou às 6 horas da manhã do dia 12. Ela foi precedida de uma exploração no dia 10 e por outra no dia 11. O Comando do D, que estava acampado a um quilômetro e meio da casa, com as informações trazidas ficou senhor da situação. O D saiu do acampamento às 3:30 horas e, próximo ao local do assalto, dividiu-se em dois grupos. Um destes, chefiado por OSV entrou pelos fundos e outro, dirigido pelo COMPRIDO, arrombou uma janela e a porta da frente. Na casa só se encontravam dois pistoleiros: o PEDRO MINEIRO e um piauiense jovem. Tomados de surpresa não ofereceram qualquer resistência. Presos e amarrados foram alvo de cerrado interrogatório.

O piauiense era um elemento novo no bando do capitão OLINTHO, mas o PEDRO MINEIRO era o chefe dos pistoleiros e tinha sobre as costas a responsabilidade de vários crimes de morte, perpetrados contra peões e camponeses. Submetido a julgamento pelo Tribunal Revolucionário do Destacamento, foi condenado à morte e imediatamente fuzilado.No local os combatentes do DB arrecadaram oito armas em excelentes condições, suprimentos, remédios e alimentos.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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