terça-feira, 17 de novembro de 2015

Diário do "Velho Mário" - Comandante militar da guerrilha do Araguaia (parte III e Final)


Maurício Grabois - fundador do PC do B

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

12/4 - Faz hoje um ano a luta guerrilheira na região do Araguaia. Trata-se de importante êxito. Conseguimos realizar o que nenhuma outra força política de esquerda foi capaz de levar a cabo: erguer-se de armas na mão contra a ditadura e manter-se durante 12 meses. Hoje estamos em condições melhores do que há um ano e nossas perspectivas são boas.

13/4 - A Rádio Tirana comemorou o 1º aniversário da resistência armada na região do Araguaia. Comentou as atividades das FFGG do Araguaia e enviou a saudação do povo albanês. Isso nos estimulou bastante. Ficamos emocionados com essa solidariedade e profundamente gratos aos amigos albaneses.

12/5 - O D organizou uma ação punitiva contra o PAULISTA, pequeno fazendeiro localizado na estrada S. Geraldo-Marabá. Este indivíduo, que era nosso conhecido antes do início da guerrilha, se prestou aos mais vergonhosos papéis. Ajudou a prender o GERALDO; ficou com dois burros nossos, vendendo-os e embolsando o dinheiro, serviu de guia às tropas do Exército e andou pelas casas dos camponeses, realizando propaganda contra os guerrilheiros. O objetivo da ação era obter uma indenização pelos prejuízos que ele nos causara. A operação foi levada a cabo no dia 1º de maio à noite, depois de se ter feito minuciosa pesquisa no local. Dois grupos do D, ao todo 12 cc, tomaram a casa de assalto, onde se encontravam o PAULISTA, sua mulher, o POMBO e a empregada. Num galpão dormiam 12 peões. Todos, e mais 3 pessoas que estavam numa barraca próxima, foram reunidos na casa principal. NEMER, este o nome do canalha, estava bastante atemorizado. E não era para menos. Feita minuciosa revista geral, arrecadou-se um revólver Smith and Wesson, uma espingarda 20, quatrocentos e poucos cruzeiros, roupas, remédios (muitos dos quais eram nossos), alimentos e alguma munição. O valor das mercadorias e do dinheiro correspondia ao prejuízo que o sem vergonha nos dera. Em seguida, DINA falou aos peões, explicando os motivos da nossa luta e expondo nosso programa. Expressou-se com ódio e entusiasmo. Depois acusou-se o PAULISTA. Disto se ocuparam PE e DINA. O fazendeiro se defendeu, negando parte da acusação e lançou toda culpa no Exército, que chamou de “exército de cachorros”. O C do D foi magnânimo em relação ao acusado. Advertiu-o para que não incidisse em outros crimes. As contas estavam ajustadas. Foi correta a decisão de não executar o NEMER, se olharmos do ponto de vista político. É muito relacionado em S. Geraldo e Xambioá e seu fuzilamento poderia repercutir mal entra a massa.

4/6 - A Rádio Tirana irradiou pequeno resumo da saudação do CC do PC do Brasil aos guerrilheiros do Araguaia por motivo do 1º aniversário da luta armada no sul do Pará. Ouvi a transmissão bastante emocionado e com intensa alegria. Nossos camaradas da cidade lembram-se de nós. O Partido continua em plena atividade. Dá sua justa e esclarecida orientação a todo o povo brasileiro. Revejo a figura de CID e demais companheiros de direção. Recordo com saudade os camaradas tombados. Na mensagem lembro a presença de nossos mártires. Nela vivem DANIELLI, LINCOLN e GUILHARDINI. Nada pode apagar o fogo da revolução. Espero ansiosamente a irradiação completa da saudação de nosso valoroso Partido, vanguarda política da classe operária.

14/7 - Outro grupo do D liquidou o Osmar. Na ação só intervieram dois combatentes. Esse indivíduo, velho conhecido de OSV e seu grande admirador, era excelente mariscador e exímio conhecedor da mata. No ano passado, por volta do mês de julho, o DB esteve com ele, sendo recebido com entusiasmo e apoio material. O jovem mateiro prontificou-se a ajudar o mais que pudesse e chegou a dizer que ingressaria nas FFGG. Quando nossos combatentes, depois da campanha do Exército de setembro-outubro de 1972, voltaram à área da Palestina, OSMAR mudara de atitude. Em sua casa acamparam 180 pára-quedistas da Guanabara. Tornara-se amigo do capitão e serviu de guia para os soldados, recebendo 25 cruzeiros por dia, e comida. Vestiu o uniforme de camuflagem (chitão, como o chama a massa), mas não recebeu armas. Andou pela mata durante 12 dias. No entanto, disse ao OSV que fora obrigado a isso e que continuava amigo. Não levara a tropa do Exército a nenhum lugar em que os guerrilheiros pudessem estar. Prestou uma série de informações; indicou um camponês que podia vender farinha e ajudou a carregá-la, uma vez adquirida. Era evidente que estava fazendo jogo duplo, mostrando ser pessoa sem caráter. Mas o C do DB deixou-o em paz depois de explicar-lhe o erro que cometera. Esperava que se corrigisse. Agora, voltando novamente à mesma área, o D soube por informação da massa que ele estivera em Marabá e fora engajado no Exército por 4 anos, talvez como guia. Estava com dinheiro e fazia derrotismo contra a guerrilha. A um camponês, que fornecia aos guerrilheiros, concitou a abandonar a tarefa e ofereceu-lhe dinheiro para abrir um pequeno comércio. O homem representava, assim, um perigo. Conhecia a selva como a palma da mão. O jeito mesmo era acabar com ele.

17/7 - Ontem aviões do inimigo roncaram o dia todo em vasta área, principalmente no Sul. Qual a sua missão? Aguardo notícias. Quando veio do DA, NELSON informou que em Marabá estavam acantonados muitos soldados do Exército. Não sabia precisar o número, mas era um grande contingente. Havia também helicópteros. Estará havendo concentração de tropas inimigas?

22/7 - Surpreendente é o apoio do povo da região à guerrilha. Volto a repetir: ultrapassou as nossas melhores expectativas. Todos nós, antes do início da luta armada, esperávamos que, começada essa luta, as massas ficariam do nosso lado. E não poderia ser de outra maneira. Defendemos uma causa justa, que fala diretamente ao coração dos oprimidos. Mas a tomada de posição dos camponeses, em favor dos guerrilheiros, foi bastante rápida. Por que tivemos tanto êxito em nosso trabalho com as massas camponesas? Primeiro, porque nossa linha política, bastante ampla, de concentrar o fogo na ditadura, é justa. Segundo, porque nossa linha de massas, de não causar nenhum dano aos camponeses e ajudá-los sempre, é correta. Terceiro, porque a nossa linha militar é acertada e conseguimos resistir à poderosa investida do inimigo. Quarto, porque estamos, há bastante tempo, sozinhos em vastas áreas, pois o inimigo quase não aparece e nos transformamos em autoridade.

14/8 - Balanço da Luta Guerrilheira no Araguaia desde Outubro do ano passado: não tivemos perdas humanas (a não ser o GLÊNIO, que se perdeu na mata e depois procurou desertar, sendo preso), nem perdas materiais; recrutamos 5 combatentes entre a população local e temos perspectiva de recrutar muitos outros; reorganizamos nossas forças, em particular o DC. Todos os DD estão sob controle da CM; melhoramos a capacidade militar dos combatentes. Avançamos no reconhecimento do terreno e no domínio da mata; realizamos algumas ações que, embora pequenas, tiveram repercussão entre o povo (contra o barracão do capitão OLINTHO, contra a fazenda do PAULISTA, ocupação de Bom Jesus, etc.); ampliamos nossa área de ação (dos DD); resolvemos, em certa medida, nossos problemas de abastecimento. Temos reserva de alimentos para 6 meses. Solucionou-se a falta de calçados. Mas ainda são grandes nossas deficiências no que se refere ao equipamento; melhoramos nosso armamento, conseguindo 9 rifles 44, 9 espingardas 20, um rifle 36 e 4 revólveres (apoiados na massa e por ação militar). Consertamos quase todas as armas. Não há nenhum combatente desarmado. Mas, comparado com o do inimigo, o nosso armamento é deficientíssimo. Carecemos de balas 44 e de munição. Precisamos de minas, granadas e de algumas armas modernas. Nosso poder de fogo ainda é pequeno. 

Desenvolvemos um trabalho de propaganda relativamente bom. Imprimimos material que foi distribuído em S. Domingos, Palestina e S. Geraldo. Destaca-se o romance da Libertação do Povo. Aumentou o número de nossos agitadores e melhorou sua qualidade. No entanto, é pequeno o trabalho de educação política e ideológica com os combatentes.

Enfrentamos com êxito as doenças, apesar da falta que o JUCA nos faz. É bom o estado físico dos combatentes.

Enfim, é bastante alto o moral das FFGG. Melhorou grandemente o aspecto disciplinar. Poucos são os casos de indisciplina (MANÉ, ARI, etc.).

Nossos maiores êxitos estão no trabalho de massas. Desse trabalho depende a maior parte das vitórias da guerrilha. Hoje já é difícil fazer uma estatística do trabalho de massas, tal o seu crescimento entre os camponeses.

Conseguimos dezenas de amigos firmes. Organizamos mais de 100 núcleos da ULDP. Conseguimos ligações em corrutelas. Alimentar os guerrilheiros é para as massas quase uma lei (exemplos de ZC, DINA e MUNDICO). Realizamos trabalho físico juntamente com as massas (broque, colheita de arroz, etc.).
A opinião pública da região está ao lado das FFGG. Apóiam a guerrilha os terecozeiros, os padres e “crentes”; elementos de massa que se apoderaram de nossas coisas devolveram-nas. Bate-paus pedem clemência. Eleva-se o nível de consciência política da população local. Alguns elementos da massa ouvem diariamente a Rádio Tirana. Grande é o número de camponeses que são propagandistas da guerrilha. Em vastas áreas somos reconhecidos como autoridades.

Numa das aulas do “Curso de Preparação Militar” dizíamos que, iniciada a guerrilha, esta passaria por um ponto crítico, a partir do qual não seríamos mais derrotados. Não temos dados suficientes para afirmar que ultrapassamos tal ponto. Mas podemos, desde já, asseverar que atingimos uma situação em que só seremos desbaratados se cometermos erros graves. Por que?

1) porque temos atualmente maior domínio da arte militar, isto é, da guerra de guerrilhas;
2) porque possuímos maior conhecimento da selva;

3) porque aumentou consideravelmente a nossa ligação com as massas da região. Estas, em sua grande maioria, estão conosco;

4) porque garantimos, embora de maneira ainda insuficiente, nosso abastecimento, através das massas e da mata;

5) porque existe uma situação nacional favorável ao desenvolvimento da luta armada.

Nossa perspectiva é de uma guerra prolongada. É preciso ter isso sempre em conta. Daí a importância da orientação da economia de forças. Neste momento tudo devemos fazer para não perder ninguém. Só atacar com certeza de êxito. Não arriscar tudo. Quando necessário recuar, sem temer que possam pensar que fugimos da luta. Devemos ter a maior prudência nas ações punitivas. Não desperdiçar forças e nem jogar com a vida dos combatentes, considerando-se que as atuais FFGG são o núcleo fundamental de uma força armada revolucionária a se criar no futuro.

Se temos a perspectiva de criar uma área liberada, devemos, desde já, ter em vista os embriões do poder local. Devemos desenvolver a propaganda revolucionária, forjar a frente única e isolar a ditadura (no nosso caso as FFAA do governo). Tudo fazer para restabelecer a ligação com o exterior. Devemos sempre nos ater à nossa linha militar, obedecendo escrupulosamente às leis da guerrilha. Armar-se com as armas capturadas do inimigo (as armas geram outras armas) e adquiridas entre a massa e através da massa.

16/8 - Vivo a placidez do acampamento, ontem perturbada por tiro de espingarda 20. O disparo talvez tenha sido feito por um peão do capitão OLINTHO. Pequeno é o movimento de aviões. Um joelho vem me incomodando. Julgo ser uma distensão muscular provocada pela última caminhada.

20/8 - O INCRA está fazendo demagogia na área do DC. A situação nesta área é diferente da que existe na área dos DA e B. São Geraldo é considerado pelo INCRA como zona fundiária e a Transamazônica zona de colonização. Nesta última quer enquadrar os camponeses nas colônias e na primeira pretende dar alguns títulos de posse da terra (não se trata de títulos de propriedade). Dez posseiros já receberam tais títulos e outros dez foram chamados a Marabá para recebê-los. É preciso desmascarar a demagogia do INCRA.

Um grupo chefiado por MUNDICO realizou interessante trabalho de massas. Esteve numa reza onde havia 120 pessoas. Aquele combatente então fez um comício, falando para aquela pequena multidão. Depois, em outros locais, falou para ajuntamentos de 20 e 30 pessoas.

MUNDICO informa que em sua incursão, encontrou dois jovens esquisitos, que fixaram residência na área. São pessoas da cidade. Parecem milicos e deram informações contraditórias. É preciso estar atento. O inimigo talvez pretenda instalar toda uma infra-estrutura de informações na região. Na área do DA foi visto um tipo estranho num Volks, querendo botar roça; outro, igualmente suspeito, pretende fazer um local, e um jovem de S. Domingos anda investigando os moradores sobre suas ligações com a guerrilha. Na área do DB também apareceram dois “mineiros” querendo formar locais de plantio. Tudo isso nos obriga a reforçar a vigilância e tomar as necessárias providências para resguardar as FFGG de qualquer golpe.
 

26/8 - Um amigo de Marabá não acredita que o Exército entre este ano na mata. Nos alerta contra os agentes do INCRA, FUNAI, SUDAM e da CEM. 
8/9 - Segundo OSV, o Exército soltou 25 agentes na mata, para nos espionar. Os que forem por nós localizados, serão tratados devidamente.

7/10 - ZECA e FOGOIÓ vieram avisar que o inimigo ia entrar na mata no dia seguinte. Era necessário mudar imediatamente de acampamento. Os mensageiros do PE informaram que a massa dava notícia que um grupo do DA realizara uma operação contra o posto militar da Transamazônica, situado no entroncamento que leva a São Domingos. Os guerrilheiros tinham se apoderado de 7 fuzis e 5 revólveres.

8/10 - PE veio ao nosso encontro. Informa que o inimigo já entrou. Um pequeno grupo bivacou perto do Paulista. Outro foi para a Pimenteira, castanhal do Almir Moraes. Mais um outro foi para Pau Preto. Hoje devem chegar mais tropas. A aviação está em atividade. Um “paquera” sobrevoava a área. Levantamos acampamento cedo e paramos depois de 3 horas de marcha. PE está preparando algumas ações militares contra o inimigo.

10/10 - Estamos em outro acampamento. Este não nos agrada. Está cercado por estradas e caminhos de castanhal. Logo mudaremos.

16/10 - Os soldados estão disseminados por algumas bases. Por enquanto andam pelas estradas. Mas estão batendo o rio Gameleira. Muitos camponeses foram presos. Houve também prisões em S. Geraldo. Todos os moradores estão sendo chamados pela Polícia Militar e interrogados.

30/10 - Más notícias do DA (para mim particularmente terríveis) deixaram-me em estado de não poder escrever coisa alguma. Hoje, refeito do ataque de impaludismo e, em parte, refeito do choque emocional, disponho-me a relatar o sucedido com um grupo de combatentes daquele Destacamento. No dia 26, chegaram JOCA e ARI, depois de caminharem 12 dias, gastos na ida e na volta até o ponto com os mensageiros do DA. JO relatou que vieram ao lugar do encontro PIAUHI e ANTONIO. O vice-comandante daquela unidade guerrilheira contou o seguinte: no dia 13, um grupo chefiado por ZC, composto por NUNES, JOÃO, ZEBÃO e ALFREDO, dirigiu-se para um depósito para apanhar farinha. No dia anterior, ALFREDO e outros combatentes insistiram junto ao Comandante para se matar 3 porcos do D, que estavam numa capoeira abandonada. ZC repeliu com energia a proposta dizendo que ela afetava a segurança. Por isso só iriam buscar farinha. No entanto, no meio do caminho, sob pressão de alguns combatentes, deixou-se convencer de apanhar os porcos. E o grupo enveredou capoeira a dentro. Então, foram cometidas uma série de facilidades. Os porcos foram mortos a tiros, acendeu-se fogo, não se deu importância ao helicóptero que sobrevoou o local e permaneceu-se demasiado tempo na capoeira. Ainda estavam os guerrilheiros dedicados à tarefa de tratar os porcos quando foram surpreendidos pelo inimigo. JOÃO procurou fugir e ouviu descargas de metralhadora. Mas obteve êxito. Foi ele quem relatou o ocorrido. Em sua opinião, os outros 4 combatentes, que não apareceram no acampamento, foram mortos. Assim, o D foi duramente golpeado. Perdeu seu comandante, homem capaz e um dos mais puros revolucionários. Estava ligado ao P desde os 16 anos. Ainda podia dar muito à revolução. Era excelente comandante. O primeiro erro que, no entanto cometeu, foi-lhe fatal. Tinha 27 anos. Seu verdadeiro nome era ANDRÉ GRABOIS. NUNES era a terceira pessoa do Destacamento. Tinha raras qualidades de combatente e destacava-se por seu espírito combativo. Seu nome era DIVINO FERREIRA DE SOUZA. Tinha 31 anos. ZEBÃO, jovem espirituoso, incorporou-se à guerrilha aos 19 anos. Agora tinha 23. Era um guerrilheiro exemplar. ALFREDO, que não conheci, era elemento recrutado entre a população local. Eficiente, calmo e corajoso, constituía a melhor aquisição das FFGG entre os camponeses.

16/11 - No dia 14 chegaram ao acampamento JOAQ, JO e ARI. O primeiro resolveu vir a fim de prestar informações diretas à CM. As notícias sobre o DA não são boas. A companheira SÔNIA, bula do Destacamento, quando atendia a um ponto com 2 combatentes, foi surpreendida pelo inimigo e metralhada. Isso aconteceu porque ela desobedeceu normas de marcha e as diretrizes que recebeu. Tinha ordens para seguir determinada rota, mas resolve ir por uma “batida”, verdadeiro caminho. Os milicos estavam na área e buscavam rastros dos guerrilheiros. A companheira resolveu tomar banho e deixou suas botinas no trigueiro, a uma distância não muito longe do ponto. Como os dois companheiros não chegaram na hora combinada, ela regressou despreocupada, acompanhada de um jovem que há pouco ingressara na guerrilha. Não encontrou as botinas. O jovem alertou-a sobre o inimigo. Mas ela insistiu em procurá-las. Então se ouviu a intimação dos soldados: “Se correr, morre”. Seu acompanhante fugiu em desabalada carreira. Ouviram-se rajadas de metralhadora e de FAL. Sônia tombou gritando. A morte de SÔNIA é um exemplo da falta de espírito militar que domina ainda muitos de nossos combatentes. SÔNIA viera do Estado da Guanabara. Era de família pobre. Foi educada em um asilo, a União das Operárias de Jesus. Trabalhou numa das fábricas da Coca-Cola e custeou seus estudos com seus próprios recursos. Ingressou na Faculdade de Medicina e cursava o 4º ano quando veio para o Araguaia.

21/11 - As FFGG foram duramente atingidas com os insucessos do DA. Este, que estava com efetivo completo, ficou com apenas 15 combatentes. Alguns desses combatentes são bastante atrasados do ponto de vista militar. O D perdeu 4 fuzis, um rifle 44, uma espingarda 20 e 6 revólveres. Enfrentamos atualmente a situação mais difícil desde que começou a luta guerrilheira.

23/11 - ARI era excelente guerrilheiro (parece que a morte escolhe sempre os melhores combatentes). Ativista estudantil na Guanabara, cursava a Escola de Física daquele estado. Tinha bastante futuro e daria um bom chefe de Destacamento. Nasceu em Cachoeira do Itapemirim, no Espírito Santo. Seu nome: ARILDO VALADÃO, tinha 25 anos.

10/12 - No dia 8, FOGOIÓ e LIA foram ao ponto de chegada do pessoal do B e C. Apareceu SIMÃO, que chefiava o segundo grupo que deveria chegar a 10. Ele trouxe notícias más. Sua viagem fora normal até o dia 3. Neste dia, seu grupo acampara em um local muito utilizado por nós. Chegara às 2 e meia da tarde e às 5 foi surpreendido pelo inimigo. CHICO, que saíra, juntamente com TOINHO, para procurar jabotís sob uma Gameleira, foi alvejado, perto do acampamento, por dois tiros. Seguiram-se, então, novos tiros, de 15 a 20. No acampamento encontravam-se Simão, Daniel, Lauro e Áurea. Estavam inteiramente à vontade, consertando armas e costurando roupas. Todos eles saíram em desabalada carreira do local, deixando as mochilas, armas, munição e bornais. JAIME, que no momento saíra para apanhar cocos, e FERREIRA, que estava de guarda, se extraviaram do conjunto do grupo. TOINHO, voltando ao acampamento, não encontrou ninguém. Apanhou seu mocó e correu na direção da guarda. Não encontrou FERREIRA, mas viu o mato mexer. Para lá se dirigiu e tomou contato com SIMÃO. CHICO, segundo informou TOINHO, deve ter morrido. Então, os 5 combatentes saíram em marcha batida em direção do ponto de encontro conosco. Não tinham nada, nem fósforos e nem isqueiros. Chegaram ao local dia 6 e tiveram que esperar até o dia 8. Passaram 5 dias dramáticos; dias de fome. Quando chegaram estavam esquálidos, esfarrapados e com os corpos inteiramente picados por tatuquiras. Dormiram ao relento ou em pequenas barracas improvisadas. A situação do JAIME e do FERREIRA não é boa. O ponto de reencontro não está claro para eles. O segundo não tem fogo e se orienta mal na mata. Se os dois se encontraram na confusão do ataque (estavam na mesma direção) sua situação será bem melhor. O ocorrido com esse grupo é um novo golpe nas FFGG. Estas foram desfalcadas de mais um combatente, o CHICO. Dois guerrilheiros estão extraviados. Perdemos um revólver 38 (do DANIEL), um rifle 22 (do TOINHO), uma espingarda 20 (da ÁUREA) e um rifle 44 (do CHICO). Perdemos também 50 balas de fuzil, 70 balas de 38 e 50 balas de 44; 2 quilos de pólvora, chumbo, uma bússola, 8 mochilas, 4 embornais, 8 redes, 8 cobertores, camisas de uso e 8 camisas novas, calças de uso e duas calças novas, duas quartas de farinha, 4 quilos de sal, 4 panelas, 20 colheres, 5 pratos, 8 lanternas, remédios e vários objetos. O que aconteceu indica claramente que a situação das FFGG vai se tornando difícil. 

21/12 - No dia 10, de manhã, inesperadamente, o TOINHO fugiu. Isto constituiu um transtorno para os DD A e B. Esse desertor se encontrava numa área por ele conhecida e onde fora recrutado. Sabe onde se encontram alguns depósitos de milho, com os quais contávamos. Não foi se entregar ao inimigo (deixou sua arma e o mocó), mas acabará preso e, sem dúvida, falará. É um garoto de cerca de 15 anos, sem pai e nem mãe, bastante ativo e que estava integrado na guerrilha. As dificuldades da luta, a alimentação escassa, a morte do CHICO e o mau tratamento que alguns combatentes lhe dispensavam, devem ter contribuído para a sua fuga. Não tinha ainda consciência sobre os elevados princípios da nossa causa.

No dia 18, JOSIAS, sob o pretexto de fazer suas necessidades fisiológicas, iludiu nossa vigilância e desertou. Na certa foi se entregar às forças da repressão. Trata-se de um elemento inseguro, vacilante, individualista e de nenhuma valia para a guerrilha. Apesar de quintanista de Medicina, nem como bula servia. Pode dar algum serviço de depósitos da área do DC. sua deserção não foi surpresa para ninguém. Alivia a guerrilha de um peso morto.

22/12 - Ontem OSV e AMAURI regressaram sem o JOAQ e os outros companheiros que deviam apanhar. Não encontraram o local combinado. Hoje, partiram o NELSON e a LIA para trazer os combatentes que OSV não conseguiu localizar. PE, que comanda os DD B e C, informa que só tem ração de alimentos para um dia. Acabou-se o milho e restam 7 litros de farinha. O que vem salvando a situação é a castanha e o jaboti. Na última etapa da viagem catamos duas latas de amêndoa e durante o deslocamento da área do DC para a área do DA, onde nos encontramos, nos custou 24 dias, e apanhamos cerca de 150 jabotís. Também, hoje, partiram para se encontrar com o JOÃO, MARIA e mais os três combatentes extraviados no choque com o inimigo, os companheiros AMAURI e VALQUÍRIA. No acampamento só se encontram 12 combatentes. Cinco estão atacados de malária, OSV, DINA, ÁUREA, LUIZ e PERI. Não melhorei nada dos olhos. 

A diminuição da visão incomoda bastante. Espero a vinda do JOAQ para discutirmos melhor a situação. Devemos reexaminar nossa tática militar, reorganizar nossas forças e definir as nossas perspectivas. O moral dos combatentes é alto, apesar de todas as nossas vicissitudes. Mas, num ou outro elemento surgem sintomas de derrotismo. Ontem à noite fiz rápida palestra, exaltando o comportamento dos combatentes e combatendo todo derrotismo. Mostrei que é possível enfrentar com êxito a nova investida do Exército. Nossas perdas resultam, fundamentalmente, do desrespeito às leis da guerrilha, de nossa linha militar.
 

23/12 - JO não apareceu no ponto. Que teria acontecido? NELSON foi hoje repetir o ponto. Talvez tenha havido confusão de data. Caso JO não apareça novamente teremos dificuldade para nos ligar ao DA. 

Acabou-se a nossa “bóia”. PE está providenciando recolhimento de coco (para se comer a massa) e de castanhas. Até agora, parou a atividade aérea do inimigo.

25/12 - NELSON encontrou o JO. Este regressou com a CHICA, MANOEL, FOGOIÓ e RAUL. Os três extraviados, dirigidos pelo Zezinho, foram ao ponto com o JOAQ. Lá reataram o contato. Eles relataram que o inimigo viera no nosso “batido”. No acampamento que acabara de ser camuflado estava só o RAUL, pois o ZEZINHO fora à grota apanhar o FOGOIÓ, que estava de guarda. Três milicos vinham na vanguarda procurando nossos rastros. A patrulha devia ter uns 15 homens. Fizeram grande alarde e marchavam no batido que levava ao morro onde estava o grosso dos nossos combatentes. Quando os soldados viram o RAUL, que corria em direção de seus dois companheiros, dispararam um tiro. Então aquele combatente abrigou-se. Passados dois minutos, correu de novo. Contra ele e os outros fizeram 6 ou 7 disparos. Mas todos saíram incólumes. Ainda bem.

JOAQ e ZEZINHO não vieram porque foram buscar duas latas de farinha para nos entregar. Quanto ao ARI, o nosso armeiro, desapareceu quando ia apanhar farinha numa barraca. Não sabemos se teve um ataque epiléptico ou se desertou. As duas possibilidades são viáveis. Ultimamente, com a presença do inimigo e com o aumento das dificuldades, mostrava certo descontentamento. É muito personalista e também muito assustado. A morte de ZEBÃO, que era seu primo e a falta de “bóia” podem ter contribuído para que fugisse. Se ele não aparecer, trará para nós dificuldades. Ficamos sem um dos armeiros. Ele conhece todos os depósitos da CM e a oficina onde há 14 armas para consertar. Agravou-se a moléstia de meus olhos. Estou enxergando com dificuldade. Há possibilidade de sobrevir um colapso em minha visão. Não posso facilitar. Penso em sair da região, pois, se não o fizer, posso criar, com minha doença, uma situação difícil para os companheiros.Discutirei o assunto na próxima reunião da CM que se realizará logo que o JOAQ chegue. Para mim, é bastante doloroso deixar as FFGG”.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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