quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Nelson Falando do Céu


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arnaldo Jabor

Quando me bate a confusão mental, eu ligo para o Nelson Rodrigues. Ele me atende lá do céu de papelão azul, com estrelas de purpurina e nuvens de algodão, como um cenário de teatro de revista.

— Rapaz... você me ligando como um telefonista de si mesmo? Achei que você tinha me esquecido.

— Você está sempre presente... Nelson. Mas é que entrei em parafuso com a história humana...

— Para com isso, rapaz; a História não existe, ela não flui... A História esta sempre recomeçando. Há um momento de esperança... depois tudo se degrada em dramas e chega então a tragédia... Depois nos acostumamos à desgraça e aí vem nova esperança... Esse é o ciclo.. Não existe vida sem tragédia.

A História com H maiúsculo nunca existiu. Ela foi uma invenção daquele alemão... o tal do Hegel... que achava que o mundo marchava para uma grande realização do espírito e, de repente, descobre que meia dúzia de malucos cheirando a banha de camelo estão transformando a vida humana num sinistro pesadelo humorístico. Aliás, ele está sentado numa nuvem aqui perto, chorando lágrimas de esguicho, exalando uma cava depressão.

— Mas, Nelson, alguma lógica deve haver...

— Você também achava que a vida era movida pelas “relações de produção” e coisa e tal... mas a única coisa que existe mesmo é a loucura humana. O homem não é superior aos outros animais. Ele é inferior, ele veio com defeito de fábrica. O Nietzsche, aquele cara esquisito que também anda por aqui, bigodudo, muito sério, falando sozinho, escreveu que na Terra os animais inteligentes inventaram o Conhecimento. Foi o instante mais arrogante e mentiroso do universo...

Aliás, ele me disse que aquele papo do Hegel tem de se inverter e ficar assim: “Tudo o que a gente acha que é real é irracional, tudo o que achamos irracional é real”. O Nietzsche é um craque... sempre que eu posso, tomo um cafezinho com ele.

— Mas, a loucura humana não pode vencer... e a razão?

— A razão é um luxo dos franceses...

— Você está culto, hein, Nelson?

— Aqui tenho tempo para ler, mas a eternidade é chata...

— Nunca vimos tanta crueldade...

— Rapaz, o problema é seguinte: o sujeito vive no deserto, passando fome, analfabeto, vê Paris, Londres, Nova York e enlouquece de inveja e parte para o terror...

O mundo nunca foi feliz; esse negócio de paz e felicidade global é invenção do comércio americano... Os terroristas jogaram a gente de volta para dentro da tal “história”. Isso tinha de acontecer... Como eles iam suportar aquela “paz americana”, com tudo arrumadinho como um supermercado?

A loucura é a revolta do animal domesticado. Esse papo da Humanidade dando milho para os pombos é lero-lero. Deus não quer isso. Deus é violento. Vai olhar a Bíblia, o Torá; é tudo no “olho por olho”. Lembra da Inquisição? (Estou falando baixo porque Ele está aqui perto consolando o Hegel.)

— Mas como chegamos a isso?

— Ao contrário, como isso chegou a nós? Os esquerdofrênicos esculhambaram aquele livro “Choque de civilizações” e querem sempre botar a culpa no Ocidente. “Ah... fomos cruéis no passado, imperialistas, etc.”. Mas não é só isso. Há um choque sim. Grande parte do Islã apoia sim os assassinos. Na Turquia, num jogo de futebol, vaiaram até o minuto de silêncio em homenagem aos mortos...

— Mas precisamos fazer alguma coisa...

— Esse negócio de “precisamos”... é outra ilusão. Não há quem faça o que “precisamos”. O Ocidente achava que estava tudo certinho, confortável, tudo resolvido. E surgiram os homens-bomba... Como evitar terremotos? Temos de aceitar o “insolúvel”... É isso.

— Mas é a barbárie total!

— Rapaz, nunca saímos da barbárie: duas guerras mundiais num século, holocausto, sem contar Vietnã e coisa e tal... Se os alemães fizeram aquilo tudo, se os americanos derreteram cento e cinquenta mil em 30 segundos em Hiroshima, imagine aqueles cretinos... Ficamos chocados porque eles descobriram o “individuo”, o nosso orgulho renascentista. O Stálin, lá do inferno, disse: “A morte de milhões é uma estatística. A morte de um individuo é uma tragédia”. Aí, a gente fica com medo. Reparou que os islamitas parecem um homem só? Todos calmos, com a certeza da verdade lhes iluminando a fisionomia. A loucura é calma, o louco não tem dúvidas. Por isso, eles vão ganhar sempre.

— Como assim? — pergunto, como nos filmes de mau diálogo.

— O negócio é que eles estão gozando de um prazer incrível. Eles não estão se vingando mais de ninguém... Eles têm a paixão do mal, de fazer o inominável. Eles querem conhecer o mal absoluto. É um desejo de horror, é a volúpia do crime. A delicia da impiedade. O Himmler gostava de olhar por um buraco a câmara de gás matando os judeus. É o mal sublime... isso. Esses caras querem desmoralizar o demônio que, me disseram, está humilhadíssimo lá embaixo.

— Eles acham que o martírio leva ao paraíso. Aliás, você viu algum por aí?

— Olha, a gente vai para o céu em que acredita. Os árabes não vêm para cá; se bem que o paraíso deles não é longe. Outro dia, eu resolvi dar uma espiadinha... Parecia o baile do Bola Preta, rapaz.

Vi os terroristas dando autógrafos, cheios de macacas de auditório em volta.

O Muhammed Atta, aquele chefe do 11 de Setembro, estava deitado numa cama de ouro, com odaliscas do Catumbi rebolando a dança do ventre — tudo o que eles não tinham no deserto, têm aqui em cima...

Pois agora, rapaz, vou te dizer uma coisa politica séria: os reis da Arábia Saudita, Qatar, estão dando grana para eles e ficam felicíssimos que os inimigos sejam a Europa e América, porque vivem em seus palácios com cascatinhas artificiais e filhotes de jacaré nadando dentro, enquanto os miseráveis batem cabeça para Alá. São os otários de Maomé. Isso é que é o haxixe do povo!

— Nelson, você ficou marxista aí no céu?

— O Marx me chama de reacionário mas me ouve muito. E ele anda chateadíssimo com as bobagens que escrevem sobre ele na Academia. Aí, eu disse para ele: “Olha, Marx, a burrice é uma força da natureza, feito o maremoto”. Ele vive repetindo isso. Achou uma graça infinita... bom sujeito, o Marx.

Arnaldo Jabor é Cineasta e Jornalista. Originalmente publicado em O Globo em 24 de novembro de 2015.

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