sábado, 14 de novembro de 2015

O que houve em Bento Rodrigues não foi acidente. Foi crime!


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Reynaldo Rocha

Minas Gerais. O nome diz tudo. Existem 200 minas espalhadas pelo território.

Décadas atrás, criou-se uma campanha: “Olhe bem as montanhas!” Elas estavam desaparecendo. Mesmo a Serra do Curral – moldura de Belo Horizonte – parece continuar existindo quando vista da cidade. Mas do outro lado, na face invisível da montanha, vales e campos foram tragados por imensas crateras.

Em 2001, uma barragem se rompeu no município de Nova Lima, a 5 quilômetros de Belo Horizonte. É uma área ambiental, com distritos como Macacos e Rio Acima e dezenas de condomínios horizontais cujos moradores lutam para manter o que o poder público ignora.

Foram cinco mortos, mais de um ano de acessos interrompidos e um imenso mar de lama – hoje seco e estéril – que deveria servir de exemplo e advertência.

Em 2014, outra barragem foi rompida em Itabirito. Três trabalhadores morreram em mais um acidente ecológico irreparável. Foram inúmeros os “pequenos” acidentes que devastam a natureza e matam muitos.

Neste novembro. ainda contamos os mortos em meio a poucas certezas. Uma delas: Bento Rodrigues morreu. Outra: não houve um acidente.
Não chovia. Não houve inundação. Mesmo um sismo de 2.9 graus (a desculpa a que se agarram os defensores do indefensável) jamais provocaria o rompimento da barragem. Foi crime. A negligência – para ficar na tipificação mais leve – está comprovada.

Em 2013, o Instituto Pristino – grupo ambientalista sem fins lucrativos, composto por professores da UFMG – produziu a pedido do Ministério Público um  estudo detalhado sobre as barragens de Minas Gerais, especialmente as de Mariana que se mostravam especialmente perigosas.

Segundo a SAMARCO, a empresa nunca recebeu e o estudo que lhe foi entregue em mãos. Uma cópia foi encaminhada ao governo estadual. Em julho deste ano, já na gestão de Fernando Pimentel, uma “auditoria independente” foi contratada. O veredito informou que não havia nada de errado. Tudo normal, tudo estável. Como em 2013, a licença foi renovada.

Entre 2014 e 2015, a produção aumentou 15% e chegou a 25 milhões de toneladas de minério de ferro. O colosso de rejeitos somou 22 milhões de toneladas. Para armazená-los existem as barragens assassinas. A meta da VALE e da BHP era era atingir 35 milhões de toneladas até o fim do ano.
Em vez de construir uma nova barragem de contenção, a Samarco optou por “reforçar” as paredes das existentes. As que se romperam. Fatalidade? É claro que não.

Os governos de Minas se contentam com qualquer lucro resultante da mineração. O governo federal se dispensa de qualquer ação além de arrecadar o que puder. Tira-se de Minas o que não é renovável. As mineradoras são historicamente donas do solo mineiro. A fiscalização é pouca ou nenhuma.

Afinal, o que vale Bento para quem fatura bilhões de dólares por ano? Que força pode ter uma comunidade de pequenos sitiantes que sobrevivem do trabalho e ganham quantias insuficientes para pagar o salário mensal de alguns engenheiros da Samarco ou de burocratas do governo?

As discussões sobre mineração se concentram em royalties e impostos. A vida humana é algo secundário. Os donos do dinheiro não têm tempo a perder com a cultura de vilarejos centenários ou a preservação do meio ambiente.

O governo estadual suspendeu a licença da Samarco. Não era necessário. As correias transportadoras foram afetadas. Não serão recuperadas tão cedo, para retomarem o despejo da lama que inunda Bento e se espalha por Minas e pelo Espírito Santo.

A BHP está revendo previsões de lucros para 2016. E já comunicou aos mercados internacionais que estuda “medidas alternativas” para impedir a queda da produção. Os moradores de Bento não têm nada a rever.

Quem conhecia Bento dividia o medo com a gente de lá. Uma imensa lagoa fétida recebia uma carga diária de rejeitos produzidos pelo minério destinado à exportação. Os impostos sempre passaram longe do lugarejo marcado para morrer.

Para quem não conheceu Bento, é difícil avaliar a extensão da tragédia. Vidas, histórias, lembranças, vivências, tudo se foi. Tudo isso jaz sob a lama. Há responsáveis com nome e sobrenome. Não foi fatalidade. Foi crime.

Em nome de Bento, o vilarejo enterrado na lama, há que se ter JUSTIÇA.

A lama de Bento não é somente rejeito criminoso. É a lama do descaso histórico com uma nação. Mesmo que seja com a menor comunidade que insistia em ser digna. Ou até mais por ela.


Reynaldo Rocha é Jornalista. Originalmente publicado no site do Augusto Nunes em 11 de novembro de 2015.

8 comentários:

Loumari disse...

Segundo o vosso génio humano, os responsáveis desta destruição toda da fauna e flora, do meio ambiente e de todo o ecossistema, SÃO OS ÍNDIOS?
E quando o Papa Francisco nos exorta, implorando-nos para pararmos com a destruição do meio ambiente, que todos devemos empenhar-nos na luta para a preservação do nosso bem comum a todos, a fonte qual nossa vida depende, vocês lhe taxam de comunista?

No dia 21-02-2014 eu reagi ao artigo postado no Alerta Total, escrito por Gélio Fregapani, intutulado:
"A América do Sul não se unirá"
Posted: 20 Feb 2014 04:16 AM PST

Onde extrai este parágrafo:
"- É hora de acabar com o indigenismo antes que incendeie o Brasil. As divergências cada vez mais irreconciliáveis, estimuladas por ONGs estrangeiras e pelo próprio Governo e conflitos podem estourar a qualquer momento. Há focos de conflito iminente em pelo menos sete Estados, todos ligados a disputas entre os índios e proprietários rurais. As disputas de terras entre índios e fazendeiros deverão ser algo mais do que dor de cabeça para a Presidente Dilma neste ano eleitoral. O conflito tende a se agravar e a assumir uma proporção de guerra civil. (passagem extraido do artigo escrito por Gélio Fregapani, 20/02/14 postado aqui mesmo neste blog, intitulado: A America do Sul não se unirá)

Eu reagi ao tal artigo e fiz chegar o meu comentário por e'mail ao Alerta Total
Este foi o meu comentário naquele dia de 21-02-14 em reação o sujeito

"O dia que o homem se aperceber que a última árvore foi cortada, e que os rios estão todos contaminados, e que o último peixe morreu, então, naquele dia o homem vai realizar que o dinheiro não lhe é de nenhuma utilidade.
A dias atrás assisti um documentario filmado no Brasil, e se diz que o Brasil se tornou o celeiro do mundo. Mostram áreas vastíssimas onde limparam as florestas fazendo terras rasas para o cultivo de soja Geneticamente Modificado. Estes ditos fazendeiros utilizam fertilizantes químicos, o que faz que o lençol de águas e os rios já estão contaminados, e em todos rios os efeitos da contaminação já se constata porque já há menos peixes, e a qualidade das águas já estão alteradas. Os tais fazendeiros utilizam fertilizantes duas vezes mais o volume do produto para lhes permitir duas recoltas por ano. E sem falar de que usam águas dos rios para a irrigação. Com estas práticas exterminaram todos os insectos, as abelhas, os pássaros, e diversos animais que habitavam nestas florestas, que jogavam o papel no equilíbrio ambiental. Agora perguntem aos brasileiros, para onde vai toda soja que cultivam em massa? Nem toda a produção vai para o consumo humano. A maior parte da produção vai para engordar o gado e o suino, nos USA e na China.
Para os fazendeiros brasileiros, o gado e o suino vale mais que vidas humanas. No futuro os brasileiros vão comer dinheiro, vão respirar dinheiro, e vão beber dinheiro.
Estes não são fazendeiros, são CRIMINOSOS, ASSASSINOS, A VERDADEIRA ENCARNAÇÃO DO DIABO.

Anônimo disse...

tEM UM AUDIO ESPALHANDO NAS REDES, DE UMA PESSOA DO LOCAL DIZENDO QUE O GOVERNO ESTA ESCONDENDO OS NUMEROS REAIS DE MORTOS, SEGUNDO ESTE CARA PASSA 100 E MAIS DE 200 DESAPARECIDO, JA QUE A MONTANHA DE LAMA PEGPU UM VILAREJO, CUJA A POPULAÇÃO NÃO TEVE TEMPO DE ESCAPAR. SERA VERDADE MIDIA MALDITA

Anônimo disse...

Em 1988 houve o rompimento de uma barragem de rejeitos (proveniente de minério de ferro)da mineradora FERTECO, em Minas Gerais. À época, estava sendo construída, à jusante da barragem que rompeu, uma nova barragem para receber os contínuos rejeitos da mineração, mas a empresa FERTECO continuava a altear a barragem antiga, acrescentando sempre rejeitos, até que a mesma não aguentou, rompeu e poluiu tudo que estava à jusante. Ou seja, essa história de descaso ambiental é de longo tempo...

Anônimo disse...

Os órgão federais fiscalizadores simplesmente não atuam preventivamente. Apenas fazem média aplicando multas que jamais serão pagas após os desastres acontecerem, até porque a dona da empresa é a Vale do RIO DOCE e o governo federal é dono de metade da Vale. Logo, não multaria a sí mesmo.

Anônimo disse...

Claro que o governo é responsavel quem autoriza é ele, pelo menos alguem devia ter visto e não deixar moradores fazer casas no vale que é onde corre a lama e fazer barreiras de contensão para não ir pro rio

Anônimo disse...

Será verdade que houve sabotagem e explodiram a barragem???

Lidia Slavik disse...

Não houve sabotagem !
O que houve foi negligência por haver sido ignorado o Laudo Técnico de Outubro de 2013, que alertava para a possibilidade de ruptura da barragem e por cima ainda a Samarco fez alteração na estrutura sem haver implementado as medidas recomendadas. Então a possibilidade de ruptura, portanto, estava prevista. A falta de fiscalização do governo é uma prática irresponsável e cumplice na medida em que as multas são simbólicas e irrisórias, e ainda pior pois não são executadas ! Que importa a vida humana diante de tanto dinheiro não é mesmo ? Não ! nada mais importa para este governo que detém a metade do capital desta mineradora ... Mas este é um alerta trágico para o povo brasileiro, cujo país está indo à deriva e sem rumo também para um abismo de lama, que se chama comunismo, cujo alerta está na Declaração de Praga feita à Comunidade Europeia onde se afirma que o comunismo foi o maior desastre do século XX !!! Quem tem olhos de ver que veja ...

Lidia Slavik disse...

Não houve sabotagem !
O que houve foi negligência por haver sido ignorado o Laudo Técnico de Outubro de 2013, que alertava para a possibilidade de ruptura da barragem e por cima ainda a Samarco fez alteração na estrutura sem haver implementado as medidas recomendadas. Então a possibilidade de ruptura, portanto, estava prevista. A falta de fiscalização do governo é uma prática irresponsável e cumplice na medida em que as multas são simbólicas e irrisórias, e ainda pior pois não são executadas ! Que importa a vida humana diante de tanto dinheiro não é mesmo ? Não ! nada mais importa para este governo que detém a metade do capital desta mineradora ... Mas este é um alerta trágico para o povo brasileiro, cujo país está indo à deriva e sem rumo também para um abismo de lama, que se chama comunismo, cujo alerta está na Declaração de Praga feita à Comunidade Europeia onde se afirma que o comunismo foi o maior desastre do século XX !!! Quem tem olhos de ver que veja ...