domingo, 15 de novembro de 2015

Terceira Guerra Mundial


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Henrique Abrão

Decorridos precisamente 70 anos do fim da segunda grande guerra, com diversos países em escombros, muitos alertam para o terrorismo e seu combate como uma nova jornada própria da terceira guerra mundial. Essa abominável violência que contamina inúmeros países do planeta deve ser analisada e está enraizada com centena de problemas ligados à globalização, extermínio de vidas inocentes e forças de combate em regiões trucidadas pela ausência do Estado.

Instaurada a primavera árabe com gritos e rebeliões, o culminar de tudo isso sucedeu no regime Sírio, cujo ditador mor permanece longa jornada num verdadeiro braço de ferros entre aliado Rússia e os demais que fazem de tudo para tirá-lo do poder. O fato mais auspicioso é que agora o mundo europeu unificado luta para debelar uma das maiores chagas do século XXI, e vejam que o atentado acontecido no começo desse ano não foi suficiente para que as forças de segurança vigiassem e contivessem esse abominável ataque que vitimou tantos e mutilou mais pessoas ainda.

Podem dizer que a influência dos refugiados ainda pesa, mas eles saíram de seus países justamente para evitar as mortes e a luta de guerra. Os americanos que atiraram a primeira pedra devem chamar para si a responsabilidade e unir tropas que decidam, de uma vez por todas, a sorte daquela região.

A presença da violência é a mais completa ausência de valor atribuído à própria vida. Essas fábricas de armamentos, sem exceção, deveriam ser lacradas e fechadas para que o mundo silenciasse e convivesse com a respectiva paz. Nada,absolutamente nada, como disse o Papa Francisco, pode justificar essa atrocidade nem sob o perfil religioso ou humano.

A falha estratégica do conselho de segurança da ONU também foi ponto relevante. A diáspora tem seus dias contados. Fuga em direção à Europa, todos os países quererão fechar suas fronteiras e abater qualquer tentativa de entrada de estrangeiros.

Os mercenários combatentes também fazem lavagem cerebral e contam com simpatizantes mundo afora, notadamente na Europa. O alerta máximo de segurança deverá permanecer por muito tempo nos países europeus e aqueles que pretendem viajar não mais o farão, tamanho o clima de consternação e de segurança de guerra.

Não foram os EUA e os países europeus suficientemente unidos e articulados para debelar essa chacina, e agora todos se manifestam que o combate sem trégua dará inicio à terceira guerra mundial. Mas o que precisamos é antes de mais nada mudar o coração e a cabeça do ser humano.

Um capitalismo menos concentrado de riqueza, um respeito para com a coisa pública, no aniversário da republica, menor interferência do estado nos negócios. E a vigilância se une ao estado de torpor, angustia e depressão das pessoas, já que a maldição do terrorismo é, sem duvida alguma, a pior doença da humanidade.

Ninguém se sentirá seguro em qualquer parte do planeta. Convivemos com o estado de insegurança, da maldade, violência e da opressão do capitalismo e desmandos do Estado. Sem uma reforma geral dessa estrutura não teremos equação suficiente para a mudança do cenário.

Quem pretender o estado de paz que se prepare para a guerra, frase famosa, e ela está espalhada mundo afora. O homem de há muito perdeu a essência do divino e se projetou na destruição do planeta e seu semelhante, o que nos conduz à reflexão em tempo de preparação para o Natal.

Com ou sem a terceira guerra, que os habitantes do planeta se lancem em prol da solidariedade, visão da transitoriedade das coisas e do mundo e do bem supremo: a vida.


Carlos Henrique Abrão, Doutor em Direito pela USP com Especialização em Paris, é Desembargador no Tribunal de Justiça de São Paulo.

3 comentários:

Loumari disse...

Tudo o que Somos é Ficção

Há que entender que tudo o que somos é ficção.
Pessoas atrás de pessoas pedem-me conselhos. Acreditam que o que escrevo me torna em alguém especial, capaz de lhes entender o que fazem, o que sentem, até o que escrevem. Fico perdido, sem saber o que fazer, sem saber o que dizer. E é por isso que escrevo. Escrever é estar perdido e procurar, a cada frase, um caminho. Ou um simples sinal de que pode haver um caminho, de que pode haver uma esperança. Escrever é procurar a esperança, todos os dias, no que não existe, no que se escreve para ver se existe. Não sou escritor, nunca fui escritor, não quero ser escritor. Sou apenas o gajo que escreve porque tem de escrever, porque os dias exigem que escreva, porque uma urgência qualquer o obriga a escrever. Escrevo como necessidade biológica, e às vezes custa tanto ter de escrever. Não dói mas custa, é uma dor de fora para dentro, como se as letras saíssem da pele, do por dentro dos ossos. E a literatura. O que raios é a literatura? Estou-me nas tintas para a literatura. Não quero escrever literatura, não quero os intelectuais do meu lado. Quando tiver a crítica do meu lado é porque cheguei a lado nenhum. Toda a gente quer venerar o intocável, apreciar o que é fácil apreciar, o que toda a gente aprecia, ler o que todos lêem porque alguém definiu que se deve ler. Ou se inventa tudo outra vez ou todos os livros serão iguais. Quem está quer continuar: é assim que se pára o sonho. Não quero fazer como os clássicos, não quero replicar o que tantos já fizeram. Quero partir de mim e chegar a mim. Só isso: partir de mim e chegar a mim, a mais longe em mim. Quero fazer o que bem me apetecer com as palavras que bem me apetecer, afrontar os críticos e espetar-lhes nas fuças que escrevo e hei-de continuar sempre a escrever. Nem que seja uma bosta, nem que seja uma sucessão de merdas que eles, coitados, não querem que seja literatura. Deus me livre de um dia ser escritor e dizer que tenho um dom em mim. (...) O meu único dom é viver, incansavelmente, e fazer dessa vida uma corrida até sabe-se lá onde. Uma corrida até sabe-se lá onde: de repente percebo que é isso o que a vida me é. Hei-de morrer a correr, com a meta à vista, malvada, sempre à vista e sempre tão longe. E os artistas. Antes gatuno do que artista. E há lá ladrão maior do que um artista? Que corja são os artistas. Essa raça purulenta a quem Deus ofereceu o céu e o inferno de criarem o que mexe com os outros. Nunca serei um artista. Nunca acreditarei que algo em mim é mais do que medo. Tenho medo de estar parado, medo de não abalar quem me ama, medo de não questionar o que me ocupa, medo de não rir diante da morte. Tenho tanto medo de morrer e é por isso que vivo. Escrever é também isso: ter medo de morrer. Escrevo para evitar a morte e é também escrever que me mata. Sou um pobre coitado que não tem onde cair morto mas que faz questão de desesperadamente encontrar onde se mexer vivo.
O que interessa é a vida, nunca as letras.

"Pedro Chagas Freitas, in 'Prometo Falhar'
Portugal n. 25 Set 1979
Escritor

Loumari disse...

O Abraço

O abraço. O abraço que parece estar a acabar. O abraço raro, o abraço verdadeiro. Da mãe que recebe o filho, da mulher que recebe o marido, do amigo que recebe o amigo. O abraço que não se pensa, que não se imagina. O abraço que não é; o abraço que tem de ser. O abraço que serve para viver. O abraço que acontece – e que não se esquece. Um dia hei-de passar todo o dia a ensinar o abraço. A visitar as escolas e a explicar que abraçar não é dois corpos unidos e apertados pelos braços. Abraçar é dois instantes que se fundem por dentro do que une dois corpos. Abraçar é um orgasmo de vida, um clímax de partilha – uma orgia de gente. Abraçar é fechar os olhos e abrir a alma, apertar os músculos e libertar o sonho. Abraçar é fazer de conta que se é herói – e sê-lo mesmo. Porque nada é mais heróico do que um abraço que se deixa ser. Porque nada é mais heróico do que ter a coragem de abraçar, em frente do mundo, em frente da dor, em frente do fim, em frente da derrota. Abraçar é a vitória do homem sobre o homem, da pessoa sobre a pessoa. Abraçar é celebrar a humanidade. Abraçar vale mais do que amar. Abraçar é o amor que se ultrapassa. O amor que se transmuta. O amor que se apaixona por se ser amor. Abraçar é mais do que o amor, mais do que a paixão, mais do que o tesão, a excitação ou a pulsão. Abraçar é para além do que abraça, para além do que é abraçado, para além do que sente ou que é sentido. Abraçar não se sente nem se sente muito. Abraçar é. E pode ser tudo aquilo que não é – mas que não deixa de ser. Pode ser o abraço que é “vem, ama-me”, pode ser o abraço que é “adoro-te, meu filho”, pode ser o abraço que é “obrigado por estares aí, meu amigo”. O abraço pode ser todos os abraços do mundo. E cada abraço é todos os abraços do mundo. E cada abraço é todos os mundos num abraço, em dois pares de braços que se tocam, que se fundem, que se encontram e que se elevam. Para lá do que sentem, para lá do que entendem. Um abraço verdadeiro é mentira, alucinação – e não é isso que o inibe de ser a mais verosímil das verdades, a mais palpável das realidades. Um dia, hei-de passar todo o dia a ensinar o abraço. Nas escolas, nas estradas, nos becos de urina e de lágrimas. O abraço. A unir o menino traquina e o menino traquinado, a criança que humilha e o desgraçado humilhado. O abraço. A unir. A prostituta que se rende e o gestor que se vende. O empregado que resiste e o cabrão que insiste. Todos. Num abraço. O abraço resolveria todos os problemas do mundo. E no entanto não deixaria de não resolver problema algum. E é sempre assim, no mundo, na vida, no sonho, na dor. É sempre assim e nunca deixará de ser assim: é aquilo que nada resolve que tem de resolver tudo o que há para resolver. Não tem nada que saber apesar de ninguém o saber: é aquilo que não serve para nada que serve para tudo.

"Pedro Chagas Freitas, in 'Eu Sou Deus'
Portugal n. 25 Set 1979
Escritor

Loumari disse...

A Grande Vantagem da Vida

- A grande vantagem da vida é ensinar-nos outra vez a chorar. A vida infantiliza. Fica-se maior no que nos faz ser mais pequenos. Cresce-se fora o que se vai perdendo por dentro. Passamos a infância a querer crescer, a adolescência a querer crescer. E depois percebemos que só quer crescer quem ainda se sente pequeno. Um adulto sente-se pequeno mas pensa ao contrário. Sente-se pequeno e quer ficar mais pequeno. Voltar ao tempo em que havia sonhos.
– Onde se perdem os sonhos?
– Todos os sonhos se perdem. Mesmo aqueles que vais ganhar, e vais ganhar muitos, se vão perder. Porque já deixaram de ser sonhos. Sonhaste aquilo, tiveste aquilo. E acabou. Lá se foi o sonho. O segredo é conseguir gerar novos sonhos. Sonhos que consigam ocupar o espaço em branco deixado pelo sonho perdido.
– Mesmo que tenha sido ganho.
– Mesmo que tenha sido ganho.
– Queria ser como tu.
– E eu queria ser como tu. Queria olhar para a frente e ver que o caminho não acaba, o caminho a perder de vista.
– O teu não se perde de vista?
– O meu faz-me perder a vista. Todos os dias vejo menos. E todos os dias vejo melhor para trás. Crescer é a cada dia que passa ver melhor para trás e começar a perder a vista para a frente. Crescer é uma doença dos olhos. Vais ficando menos e menos capaz de ver o que está diante de ti. E mais e mais capaz de ver o que está atrás de ti. Como se andasses de costas.
– Envelhecer é andar de costas?
– Sim. Caminhas na direcção contrária à daquilo que olhas. Andas para a frente e só sonhas para trás.
– Sonhar para trás é perigoso?
– Sonhar para trás mata. Há que ser criança. Há que olhar para uma ruga como se olha para um Action Man ou para uma Barbie. Tirá-la da caixa, ficar fascinada com ela, explorá-la, perceber que é apenas pele dobrada: fascinante pele dobrada. Aprender a envelhecer é aprender a brincar. Ser velho é aprender tudo outra vez. O mundo mudou quando tu mudaste. O mundo envelheceu quando tu envelheceste. O que antes era uma banalidade é agora uma impossibilidade. Queres jogar futebol e não consegues, queres dançar toda a noite e não consegues. E a tua vida é muitas horas do teu dia isso: queres e não consegues. O mundo mudou para ti. Tens de aprender tudo de novo. O que fazer, como fazer. Tens de te inventar para não seres dizimado. Não há momento mais triste do que aquele em que desejas algo e o corpo te impede de teres algo. O corpo é um cabrão. Tapa agora os ouvidos, por favor.
– Já tapei.
– Então ouve com atenção: o corpo é um filho da puta. Nunca lhe ligues. Se o corpo te der ordens, manda-o bugiar. O corpo só serve para te oferecer falsas ilusões. Faz-te crer que podes tudo, alimenta-te de sensações. E depois vai-tas tirando. Uma a uma, devagar, para doer mais. Só tens de ser capaz de descobrir novas sensações.
– Como uma criança?
– Como uma criança. Uma criança que por menos brinquedos que tenha vai sempre ter todos os brinquedos do mundo. Uma criança que faz de um par de meias um avião, de um osso de frango a Torre Eiffel, de uma camisola rasgada um equipamento de futebol. Envelhecer é fazer de um corpo incapaz de ter as sensações esperadas um parque de diversões por explorar.
– Tenho de ir. A minha professora já chamou.
– Vai. Aprende. Mas não demasiado. Saber demais dá para o torto. Limita-te às ilusões.
– Gosto de ti.
– E eu de ti. Isso é o que nunca podes perder. A capacidade de te gostares.
– Um dia vou ser grande.
– Um dia vais ser pequeno outra vez. Prometo.

"Pedro Chagas Freitas, in 'Prometo Falhar'
Portugal n. 25 Set 1979
Escritor