quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Anos 60 - o Início da Luta Armada

A luta armada hoje em dia: MST e outros "exércitos" mobilizados...

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S Azambuja

Os povos que não conhecem seu passado estão condenados a repetí-lo”. (Hegel)

Na década de 60, a tática utilizada pelo modelo cubano de revolução em toda a América Latina consistia em utilizar um pequeno grupo de revolucionários dispostos ao sacrifício. Esses revolucionários obtinham armas, montavam um razoável sistema de abastecimento, de propaganda, sabotagem e recrutamento nas cidades e transformavam-se em um “focomilitar e político”, um “foco guerrilheiro”, que deveria catalisar todas as rebeldias e ir crescendo de forma inexorável, até transformar-se em um “exército popular”, “ganhar” a população, derrotar o “inimigo”, empolgar o Poder e implantar a ditadura do proletariado. Essa tática revelou-se uma utopia, onde quer que tenha sido posta em prática.

O esquema soviético de tomada do Poder, por sua vez, consistiaem ter um partido minoritário, porém seleto, com vínculos com a classe operária e, valendo-se de um jornal, greves, atividades parlamentares, pressões “de baixo” e “de cima”, declarações, comícios, manifestações e, assim ir “ganhando”, através de um paciente e tenaz trabalho de doutrinamento, primeiro a classe operária, e depois a população ou parte dela. Num dado momento, julgando reunidas as “condições objetivas e subjetivas”, a direção do partido, através de manifestações e palavras-de-ordem, greve geral e destacamentos armados, aplicaria o golpe final no regime, que – diz a doutrina – cairia facilmente, porque necessariamente, nesse ponto, estaria em seu mais alto grau de decomposição. Segundo Lênin, “com o país parado por uma greve geral, tomar o poder é o mesmo que dar um soco num aleijado”.

O modelo chinês, baseado nos ensinamentos de Mao-Tsetung,consistia no “cerco das cidades pelo campo”, através de uma “guerra popular prolongada”. Foi esse o esquema que o Partido Comunista do Brasil tentou implantar com a Guerrilha do Araguaia, após ter mandado vários de seus militantes receberem treinamento militar na Academia Militar de Pequim, a partir de março de 1964. Ou seja, ainda no governo de Jango.

Apesar de todas essas estratégias e táticas, o terrorismo urbano no Brasil, por sua vez, nos anos 60 e 70, nunca conseguiu ultrapassar a fase de recolhimento de recursos, com assaltos a bancos e, posteriormente, já na fase de seu aniquilamento, a supermercados, residências particulares, e até a trocadores de ônibus. Os seqüestros de quatro diplomatas estrangeiros, nos anos de 1969 e 1970, foram utilizados para a troca por militantes presos, e os seqüestros de vários aviões comerciais, dentro e fora do Brasil, objetivavam a “propaganda armada” das atividades revolucionárias.

Nenhuma das organizações que optaram pelo terrorismo urbano, realizando “expropriações” com o objetivo de conseguir fundos para a montagem da guerrilha rural, conseguiu seu intento. Oterrorismo urbano transformou-se em um sorvedouro de dinheiro, face à necessidade de sobrevivência dos militantes profissionalizados e de inúmeros “aparelhos”, sempre “queimados” devido às prisões. Seus membros foram pouco a pouco dizimados, confirmando a máxima de que “a cidade é o túmulo do guerrilheiro”.

Somente o Partido Comunista do Brasil, crítico da teoria cubana do “Foco Guerrilheiro”, que jamais realizou qualquer ação armada na cidade, conseguiu chegar à guerrilha rural, resolvendo seus problemas logísticos de uma forma que nunca se conseguiu saber, mas que se pode imaginar, face ao apoio que dispunha, primeiro da China, e depois da Albânia.

A ida de brasileiros a Cuba, para receber treinamento militar, foi iniciada tão logo Fidel Castro tomou o poder. Em julho de 1961, ou seja, ainda no governo Jânio Quadros (que concedeu a Che Guevara a Grã-Cruz da Ordem do Cruzeiro do Sul), treze militantes das Ligas Camponesas – um grupo organizado e dirigido por Francisco Julião, cuja existência já havia sido detectada em 1955 no Estado de Pernambuco – foram mandados a Cuba a fim de receber treinamento militar. Historicamente, esse grupo foi o pioneiro da relação político-militar entre a revolução cubana e a esquerda armada brasileira. Desde então, e até 1973, cerca de 250 a 300 brasileiros receberam esse tipo de treinamento em Cuba. Assinale-se que antes disso, em 1957, ainda no governo Juscelino, Julião, então deputado federal, já havia tentado obter armas na URSS (mil metralhadoras, segundo Oleg Ignatiev, ex-Secretário da embaixada da URSS em Buenos Aires, declarou a O Globo, conforme constou do obituário de Francisco Julião, em 12 de julho de 1999).

Tão logo os militantes das Ligas após concluírem o treinamento em Cuba retornaram, o jornal O Estado de São Paulo noticiava a existência de áreas de guerrilha no Brasil. Na edição de 4 de dezembro de 1962, esse jornal anunciou a prisão de diversos membros das Ligas Camponesas, numa área de guerrilha, em Dianópolis, Goiás. Ou seja, ainda no governo Jango.

A violência armada não foi, portanto, como tentam fazer crer alguns sociólogos, intelectuais, escritores e parte da mídia, uma reação ao Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, que “endureceu” o regime. Ela já existia nos governos Juscelino e Jânio Quadros e no governo “progressista” de João Goulart. Antes, portanto, muito antes, da Revolução de Março de 1964 e da edição do Ato Institucional nº 5.

Logo após a Revolução de 1964, Leonel Brizola, exilado no Uruguai, com uma doutrina política baseada num amontoado de idéias trabalhistas, socialistas e populistas, por ele defendidas e propaladas sem qualquer método, mandaria do Uruguai para Havana, um grupo de ex-militares, também exilados, para receber treinamento militar de guerrilha rural.

Tanto as Ligas Camponesas de Francisco Julião, quanto o “nacionalismo-revolucionário” de Brizola, pretendiam um modelo alternativo à luta pacífica do Partido Comunista Brasileiro pelas chamadas “reformas de base”. Para eles, a revolução não tinha o caráter “democrático-nacional” (que admitia uma aliança com a burguesia nacional para combater o inimigo: o imperialismo) apregoado pelos comunistas do PCB, e julgavam ser possível queimar etapas e saltar diretamente para o socialismo, ou seja, “um torpedo político de pura manufatura cubana, na ortodoxia comunista”, como escreveu o historiador José Luis Mir em “A Revolução Impossível”.

Deve ser recordado que na década de 60, uma crise sem precedentes foi desencadeada dentro das estruturas dos tradicionais partidos comunistas latino-americanos pelo “frentismo revolucionário” cubano. Crise maior do que a resultante do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), desencadeada em fevereiro de 1956, quando Kruschev condenou o stalinismo. O PC Cubano estimulava os revolucionários a pegar em armas, passando sobre os monopólios dos partidos comunistas tradicionais, tidos, pelo comunismo ortodoxo, como guias únicos e geniais dos povos.

Nesse contexto, os dirigentes dos partidos comunistas viram-se compelidos a “esquerdizar” seus discursos a fim de adaptar-se à nova onda. Buscando evitar a sangria de militantes e, simultaneamente, adaptar seus programas políticos às teses “castristas”, “maoístas” e tudo o mais que fosse tido como esquerda da esquerda.

Fiéis a Moscou, de quem sempre foram serviçais e vassalos e de onde sempre receberam orientação político-ideológica e, principalmente, dinheiro, os partidos comunistas da América Latina não reconheciam em Cuba a estrela-guia revolucionária do continente, pois isso acarretaria condenar à condição de coadjuvantes partidos comunistas detentores de mais de 40 anos de lutas, abrir mão das pesadas estruturas partidárias burocratizadas e, o principal, da condição de dirigentes do processo revolucionário. Prova disso foi a negativa de Alberto Monge, Secretário-Geral do Partido Comunista Boliviano, de entregar, em 1967, a direção do processo, na Bolívia, a Che Guevara.

Surgiria ainda um complicador: em junho de 1963, o Partido Comunista Chinês, através de um documento que ficou conhecido como a “Declaração dos 25 Pontos”, deu a conhecer oficialmente ao Movimento Comunista Internacional o seu rompimento com Moscou. Com esse documento, irrompeu o cisma, dando surgimento às chamadas “linha chinesa” e “linhasoviética” de revolução, em todo o mundo.

Em janeiro de 1966, quando da “Conferência Tricontinental”, em Havana, o representante do Partido Socialista Chileno, deputado Salvador Allende, apresentou uma proposta aprovada pela unanimidade das 27 delegações presentes: a criação da “OLAS-Organização Latino-Americana de Solidariedade”, ou seja, uma espécie de via continental ao conflito sino-soviético. A “OLAS” nada mais era que uma cópia latino-americanizada do “Komintern”. Um organismo que deveria amalgamar um pacto político-militar entre a classe operária, partidos comunistas, partidos socialistas e movimentos revolucionários.

Em março de 1966, terminada a “Conferência Tricontinental” e conhecidas suas Resoluções, Pequim expôs Fidel Castro e o “modelo cubano” de revolução à execração política e ideológica: “(...) Essa doutrina, segundo seus autores, seria uma espécie de marxismo-leninismo para essa parte do hemisfério. Seus seguidores chamam-na de Fidelismo. Mas ela está muito longe, em questões essenciais, de corresponder à verdade científica da grande doutrina do proletariado. Toda tentativa de aplicar, dogmaticamente, em outros países, o que há de específico nessa Resolução, só poderá redundar em fracasso”.

Em muito pouco tempo essa previsão do Partido Comunista Chinês tornar-se-ia uma profecia.

Ainda em Havana, o deputado comunista chileno José Montes, ao final da Conferência, emitiu um parecer dos partidos comunistas ortodoxos do continente: “As decisões aqui adotadas são anti-soviéticas, anti-leninistas e anti-revolucionárias. A União Soviética nunca se enganou e a História demonstra isso”.

A doutrina do “projeto cubano” – o “foquismo”-, segundo alguns historiadores, teria sido ditada pessoalmente por Fidel Castro, em longas gravações de dias e noites inteiras, ao jovem sociólogo francês Regis Debray, que viria a editá-la em forma de livro, intitulado “Revolução na Revolução”. Posteriormente, em 1974, já como assessor do presidente Mitterrand, quando Regis Debray, numa profunda autocrítica, escreveu o livro “A Crítica das Armas”, buscando justificar a teoria do “focoguerrilheiro”, uma montanha de mortos era o que havia restado do “projeto cubano” de revolucionar a América Latina.

Em abril de 1967, na Conferência Municipal do PCB/São Paulo – preparatória para o 6º Congresso do partido, realizado em dezembro desse ano -, após o encerramento, em Havana, da “Conferência Tricontinental”, Carlos Marighela, ainda no PCB, saiu vencedor do embate político com a direção nacional do partido e arrastou a maioria do Comitê Municipal de São Paulo para o apoio às teses de violência armada. A reação do Comitê Central foi imediata e, como sempre, administrativa: a Conferência do Comitê Municipal de São Paulo havia sido irregular, pois não respeitara “os trâmites regimentais”. Essa decisão provocou uma resposta bem humorada de Marighela: “Buscam firulas jurídicas para questionar uma eleição num partido clandestino”.

Em julho de 1967, Marighela partiu para Havana a fim de participar da 1ª Conferência da “OLAS”. Pretendia retornar ao Brasil em no máximo 15 dias. Nessa época já se encontrava em Cuba um grupo de 7 militantes, enviados por ele, recebendo treinamento militar. Na agenda da “OLAS”, o fundamental era, na verdade, fazer com que o cerco à revolução cubana fosse rompido, instalando “focos” de violência armada no continente, onde quer que fosse possível. A “OLAS” revelava-se, assim, nada mais nada menos que um instrumento do Partido Comunista Cubano.

Encerrada a Conferência da “OLAS”, Carlos Marighela, após uma série de reuniões com Manuel Piñero Losada, chefe da Inteligência cubana e coordenador das guerrilhas no continente (falecido em Havana no início de 1998 em um estranho acidente de automóvel), foi elevado ao firmamento revolucionário como uma estrela de primeira grandeza.
Entrementes, no Brasil, a direção do PCB decidiu que ele, tão logo regressasse, seria expulso do partido.

Paralelamente a tudo isso, em setembro de 1967, dois meses antes da realização do 6º Congresso do PCB, em uma reunião realizada na serra da Mantiqueira, Rio de Janeiro, um grupo do Comitê Central, descontente com a linha pacifista definida por Prestes e também com os contatos e a virtual subordinação de Marighela aos cubanos, decidiu pelo “racha no racha”, pela“dissidência na dissidência”, constituindo o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, como veremos adiante. Após essa, ocorreram diversas outras cisões, dando origem a outras organizações voltadas para a violência armada.

Prestes ainda tentou minar a sedução dos militantes indecisos entre o caminho pacífico e o armado, determinando a estruturação, no PCB, do “braço armado da classe operária”, organismo denominado no código partidário de “Seção de Trabalho Especial”, uma seção vinculada ao Comitê Central que chegou a adestrar militarmente diversos militantes em uma fazenda no interior de Minas Gerais e na “Escola de Quadros” do Partido Comunista da União Soviética, em Moscou.

Essa “Seção de Trabalho Especial” foi chefiada por Salomão Malina (posteriormente Secretário-Geral do PCB e, depois, membro do Diretório Nacional do Partido Popular Socialista), então integrante do Comitê Central do PCB, “responsável por tudo o que havia de mais clandestino na clandestinidade: ensino da técnica de guerrilha, segurança dos quadros de direção e retirada em segurança dos que precisavam se exilar”,segundo definição do médico Irun Santana, integrante do Comitê Central, que foi um dos que receberam, no Brasil, esse tipo de treinamento.

A morte de Che, em outubro de 1967, na Bolívia, atrasou o retorno de Marighela ao Brasil, que só aconteceu em dezembro desse ano, época em que se realizou o 6º Congresso do PCB, ao qual ele não compareceu, pois fora expulso do partido.

Logo depois, em março de 1968, Marighela definiu o nome da sua organização, até então apenas uma dissidência do PCB, que se tornara conhecida por “Agrupamento Comunista de SãoPaulo” ou “Ala Marighela”: ALN-Ação Libertadora Nacional, que iria transformar-se na maior, mais atuante e mais sanguinária organização em atividade no terrorismo urbano no Brasil.

A morte de Marighela, em São Paulo, em 4 de novembro de 1969, provocou uma lacuna insuperável, uma vez que Joaquim Câmara Ferreira (“Toledo”), seu substituto natural, não possuía os requisitos necessários a um comandante e sua liderança não foi aceita por muitos, fundamentalmente por um grupo de militantes que se encontrava em Cuba, recebendo treinamento militar, entre os quais o ex-Ministro Chefe da Casa Civil da presidência da República, José Dirceu, um corrupto, hoje condenado e  “hóspede” de um presídio.

Essa atitude ocasionou uma cisão que ficou conhecida como o “Racha dos 28”: 28 militantes que, em Cuba, abandonaram a ALN e decidiram constituir o “MOLIPO-Movimento de Libertação Popular”, também chamado “Movimento Primavera”.

Um ano após a morte de Marighela, ocorria a morte de “Toledo”, em dezembro de 1970, em São Paulo, e o “MOLIPO”, pouco depois, era totalmente dizimado quando do regresso clandestino de seus membros ao Brasil: 18 militantes do “MOLIPO” perderam a vida, a maioria deles nas ruas de São Paulo e 5 foram considerados desaparecidos. Alguns desertores – como José Dirceu - sobreviveram.

Paralelamente, um pequeno contingente que permaneceu em Havana, engrossado com os banidos e exilados recém-chegados do Chile, onde o presidente Allende havia sido deposto, concluiu, no início de 1974, que era chegado o momento de um balanço político. Após um longo e penoso debate, que durou cerca de 10 meses, os contornos de um retrato inquietante para todos começou a tomar forma: a perspectiva de uma vitória nunca existiu e a luz vislumbrada no fim do túnel inquietava: o caminho justo era o retorno ao ponto de partida. A volta ao PCB.

Ao final dessa autocrítica, foram duas as decisões mais traumáticas adotadas por consenso: suspensão do treinamento militar e reingresso no PCB. Essa foi a derradeira pá de cal na Ação Libertadora Nacional, nascida em 1968 e sepultada em 1974 por seus próprios militantes.

O saldo final da tentativa de Marighela, instrumentalizada pela “OLAS”, nome fantasia do aparelho de Inteligência de Cuba, foi, conforme se sabe, uma montanha de mortos, presos, exilados, desaparecidos, banidos, refugiados e companheiros “justiçados”. A média de sobrevivência do guerrilheiro urbano foi estimada em 6 meses.

Em toda a América Latina, de 1961 a 1970, na esteira das ondas (“olas”, em espanhol) revolucionárias cubanas, morreram em torno de 600 mil pessoas e cerca de 50 grupos terroristas foram dizimados.

Mas somente em 3 de julho de 1998, Fidel Castro viria a reconhecer publicamente, em Havana, em discurso pronunciado durante a sessão de encerramento de um seminário convocado pela Associação dos Economistas da América Latina e Caribe, o seu papel de promotor da guerrilha em toda a América Latina.

Carlos Ilich Santos Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Anônimo disse...

Não bulo com governo, com policia nem censura é tudo gente fina meu advogado jura... Nunca se vence uma guerra lutando sozinho, o xaropeta que não tiver as costas quentes, não dura cinco minutos sem ser molestado... Se o PT não fosse cria da maçonaria com o judiciário teria sido trucidado no primeiro piquete...

Loumari disse...

Conseguir o amor de alguém que te despreza, ou a quem és indiferente, é uma tarefa bastante mais difícil do que atirá-la ao chão com um murro. Os homens batem por impotência. Julgam conseguir por meio da força aquilo que não alcançam por meio da ternura e da inteligência.
(Rafael Chirbes)


"O homem violento seduz o seu próximo e guia-o pelo mau caminho."
(Provérbios 16,29)


A terra está cheia de violência por causa dos homens.
(Gênesis 6,13)