terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Araguaia - Considerações sobre a área da Guerrilha


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S Azambuja

As leis da guerra revolucionária, eis um problema que quem dirige uma guerra revolucionária deve estudar e solucionar”. (Mao-Tsetung, “Problemas Estratégicos da Guerra Revolucionária da China”, dezembro de 1936)

O grande problema da contra-rebelião origina-se no fato de o perigo real sempre se mostrar à Nação como desproporcional às exigências de uma reação adequada. O perigo potencial é enorme, mas como prová-lo com os fatos disponíveis e as informações, quase sempre sigilosas?

Na guerrilha, o conhecimento de seus componentes, dos métodos de suas ações, dos seus objetivos, de suas fontes de recursos, de seus aliados e de seus fatores de fraqueza, permitirá a elaboração de diretivas para o combate em condições mais adequadas e eficientes.

Trecho extraído do livro “A Política Armada” – Fundamentos da Guerra Revolucionária”, de Hector Luis Saint-Pierre, editora UNESP, 2000, resume a saga da Guerrilha do Araguaia:

“A luta armada, pela sua complexidade, é um meio que não pode ser improvisado (...) Lançar-se à luta armada quando as condições objetivas não estão suficientemente amadurecidas pode significar um salto no escuro. Por outro lado, para os revolucionários, a falta das condições subjetivas (não estar devidamente preparado para o momento em que se anunciar a chegada da hora) poderá significar uma irresponsabilidade histórica imperdoável e a tardia constatação de não haver estado à altura dos acontecimentos”.

Louis Aragon, poeta oficial do Partido Comunista Francês, ao  verificar o desmoronamento do socialismo real, simplesmente constatou: “Perdi meu tempo”.

Vamos ao nosso texto:

No capítulo “Como é a Guerra Revolucionária”, do livro virtual “Araguaia sem Máscara”, de minha autoria, foi dada uma explicação detalhada a respeito de todas as condicionantes necessárias e imprescindíveis ao desencadeamento de umaGuerra Popular Prolongada, podendo, de acordo com a área escolhida e a população lá existente, haver pequenas variações.

Um dos pontos mais importantes, como, aliás, consta no Manual de Capacitação do Partido Comunista do Brasil, é a análise e interpretação dos fatores geográficos do local onde se pretende implantar a área. Considerando que todo movimento guerrilheiro é débil em seu início, a guerrilha, se não souber tirar partido das condições geográficas será logo eliminada.

Se analisarmos a esquerda armada brasileira dos anos 60 e 70 e suas decisões e atividades na busca de condições para a implantação da guerrilha rural, verificaremos que desde o início da década de 60 o antigo Estado de Goiás era o escolhido, por apresentar as melhores condições para essa finalidade.

As condições atmosféricas e do terreno eram excelentes, pois possuía uma região de planalto e, ao Norte, uma área de selva amazônica. Também os rios Tocantins e Araguaia, que definem os limites do Estado até a região do Bico do Papagaio, indo desaguar no rio Amazonas, são favoráveis ao deslocamento de pessoas por via fluvial, tornando possível a ligação entre pequenas localidades ribeirinhas.

A área do rio Araguaia, que limita os Estados de Goiás e Mato Grosso, desde a época em que foi iniciado o desbravamento no Estado de Mato Grosso, criou as condições objetivas para o conflito entre proprietários de terras e os chamados posseiros.

A partir da segunda metade da década de 60, os conflitos pela posse da terra aumentaram e foram acirrados com a atuação daIgreja Progressista, a partir de São Felix, na direção Norte, tendo as localidades de Luciara, Santa Terezinha e Redenção, como palco de sua atuação. As bandeiras de luta eram a posse da terra e a Teologia da Libertação.

Partido Comunista do Brasil, um partido intrinsecamente ateu e dizendo-se portador da teoria científica do marxismo-leninismo-pensamento de Mao-Tsetung, escolheu justamente essa área de conflitos permanentes, objetivando inserir-se nessa luta e tirar partido dela, levantando a bandeira de defesa dos oprimidos.

Diz Ângelo Arroio, um dos dirigentes da guerrilha, em seu Relatório (publicado pela imprensa), que o partido havia selecionado outras duas áreas para a realização de seus objetivos. Todavia, elas tiveram que ser abandonadas por razões de segurança, fixando-se apenas no Bico do Papagaio (*).
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(*) Toda essa armação do palco onde seria deflagrada a guerrilha manteve-se no mais absoluto sigilo de 1966 a abril de 1972.

Ao optar pela implantação da “Área Estratégica” no Bico do Papagaio, os estrategistas do PC do B aplicaram acertadamente a “doutrina de fronteiras”, uma vez que essa área estava localizada onde existiam conflitos de jurisdição entre os Estados do Pará e Goiás, e também Maranhão.

O rebelde, devido a isso, levaria uma vantagem inicial quando da reação das forças legais, reação que sofreria um inevitável retardo até que se definisse qual a área efetiva de sua atuação.

Essa deficiência inicial foi sanada graças à aprovação de uma doutrina de Segurança Interna que conferia a iniciativa das ações de repressão ao Comando mais próximo - independentemente da área fazer parte ou não de sua jurisdição -, até que fosse designado, em definitivo, um Comando responsável pelas ações.

A área escolhida pelo PC do B era de selva, rica em castanhais, se bem que os conflitos, já existentes, devido à exploração da rarefeita e miserável população pelos proprietários dos castanhais, fossem ainda embrionários.

Embora aquele estado de coisas pudesse facilitar o trabalho a que o PC do B se propunha, não seria fácil introduzir nos moradores locais a doutrina científica do marxismo-leninismo-pensamento de Mao-Tsetung, como os guerrilheiros, na prática, iriam constatar pela posterior pequena colaboração que lhes foi dada.

É importante assinalar que em 1966, quando os militantes começaram a instalar-se na área, ainda não existia a rodovia Transamazônica, o que dificultava a locomoção na região. A Transamazônica, como estrada de penetração, tornou possível aos migrantes nordestinos instalarem-se em glebas ao longo de suas margens. A cidade de Imperatriz passou a ser um importante centro de movimentação de pessoas, tornando-se o município-alvo e mais atrativo para as organizações guerrilheiras implantarem seus chamados trabalhos de campo.

Conforme já amplamente divulgado, não foi apenas o Partido Comunista do Brasil que buscou estruturar sua área nessa região. Já em 1968, Carlos Marighela, comandante da Ação Libertadora Nacional fizera uma tentativa de fixar militantes de sua organização na região, obediente à tática cubana de implantação do Foco Guerrilheiro. Todavia, com sua morte, em 4 de novembro de 1969, e com o desmantelamento do esquema de apoio que a ALN dispunha dos padres dominicanos, o projeto não foi avante, uma vez que todo o esquema de planejamento estava em mãos dos religiosos.

Joaquim Câmara Ferreira, o “Toledo”, que substituiu Marighela no comando da ALN, tentou, em vão, prosseguir com a tática de instalação do Foco, já então consubstanciado nas Colunas Guerrilheiras - constituídas por militantes que estavam em Cuba recebendo treinamento militar -, que seriam mantidas em constante deslocamento pelo interior do país.

Entretanto, com a cisão ocorrida na ALN após a morte de Marighela, levada a efeito pelos que se encontravam em Cuba recebendo capacitação militar, cisão que ficou conhecida como o ”Racha dos 28”, que logo constituíram o Movimento de Libertação Popular (MOLIPO), esse planejamento também feneceu, pois ao retornarem ao Brasil, a maioria dos 28 morreu em São Paulo e no Brasil Central , ainda no terrorismo urbano, em confrontos de rua, ou na busca dos contatos fornecidos pelo Serviço de Inteligência cubano, contatos esses todos já“queimados”(*) .
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“Queimados” – Jargão que significa locais ou atos já do conhecimento das autoridades


Em 1970, também a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-PALMARES) e o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) - uma cisão radicalizada da Ação Popular (AP) – tentaram, em vão, o mesmo tipo de trabalho, na mesma região. Nesse mesmo ano, a estrutura da VAR existente em Goiás foi desmantelada.

A seguir, em agosto de 1971, o trabalho em função da montagem da “Área Estratégica”, desenvolvido pela VAR-PALMARES e o PRT em torno de Imperatriz e na área do Bico do Papagaio, ao norte de Goiás e oeste do Maranhão, foi também desmantelado, sendo presos, na região, 32 militantes.

Tudo isso já foi exaustivamente publicado e explorado pela imprensa nestes mais de 40 anos.

Observe-se que mesmo com todas essas ações nas imediações de sua área, o trabalho do PC do B não foi detectado e somente veio a ser conhecido em abril de 1972, acidentalmente.

Ângelo Arroio, que integrava a “Comissão Militar” que dirigia a guerrilha, escreveu em seu Relatório sobre a “Área Estratégica” (ou “Área de Guerrilha”):
“A região do Araguaia oferece condições propícias. É zona de mata, e na mata o inimigo não pode usar tanques, artilharia, bombardeio aéreo de precisão, etc. Tem que estar a pé como o guerrilheiro. É uma zona de massa pobre e explorada (frente pioneira de penetração da massa camponesa sem terra), circundada por povoados e cidades pequenas e médias também de grande pobreza. Dispõe de caça abundante, castanha do Pará, babaçu e outros meios de alimentação. Possui vasta área, em extensão e profundidade, que serve de campo de manobra às forças combatentes. Além disso, é fronteiriça de largas regiões pobres dos Estados de Mato Grosso, Goiás e Maranhão. As condições desfavoráveis que apresenta são a densidade da população, pequena na área propriamente dita, embora na periferia seja bem maior, e doenças tropicais, sobretudo a malária e a leishimaniose”.


As observações de Ângelo Arroio sobre a área foram corretas. Mas isso não bastou, como ele próprio, mais tarde, pôde constatar.


Carlos Ilich Santos Azambuja é Historiador.

Um comentário:

glauco disse...

Quando o cara lê:

"O Partido Comunista do Brasil, um partido intrinsecamente ateu e dizendo-se portador da teoria científica do marxismo-leninismo-pensamento de Mao-Tsetung, escolheu justamente essa área de conflitos permanentes, objetivando inserir-se nessa luta e tirar partido dela, levantando a bandeira de defesa dos oprimidos."

E acredita nisso, principalmente Comunista, marxismo-leninismo, Mao-Tsetung e "defesa dos oprimidos" na mesma frase, já não resta mais um pingo de inteligencia na cabeça da pessoa. É 100% imbecil, 100% 100%, não resta mais nada.