quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Araguaia - A implantação da Guerrilha


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S Azambuja

Louis Aragon, poeta oficial do Partido Comunista Francês, ao verificar o desmoronamento do socialismo real, simplesmente constatou: “Perdi meu tempo”.

Segundo Ângelo Arroio (“Joaquim”), um dos membros da“Comissão Militar” que dirigiu a Guerrilha do Araguaia, assinala em seu Relatório à Comissão Executiva Nacional doPartido Comunista do Brasil, que a referida “Comissão Militar”viu-se envolvida em três tipos de fraquezas que contribuíram decisivamente para a derrota.

Lamenta, em partes desse Relatório, essas deficiências, mas, pelo que se sabe, a “Comissão Militar” não tomou nenhuma iniciativa objetivando saná-las ou diminuir os seus impactos negativos. É de se supor que a falta dessa iniciativa tenha sido decorrente do seu envolvimento, e dos Destacamentos, na luta para livrar-se da perseguição que lhes foi movida pelas forças legais.

As três deficiências assinaladas foram: falta de comunicação entre os militantes e entre a guerrilha e o partido; falta de informações sobre as forças legais; e deficiência de armamento, pois o que possuíam era obsoleto e com baixo poder de fogo.

Analisemos essas deficiências.

1 – Comunicações
Nenhuma guerra moderna, seja ela regular ou irregular, pode prescindir de um eficiente serviço de comunicações, pois através dele é que são dinamizadas todas as atividades do comando, bem como a pronta resposta quando do desenvolvimento das operações.

A complexidade de um sistema de comunicações depende da grandeza da luta que está sendo ou virá a ser travada, bem como do efetivo de pessoal empregado nas ações. E sua sofisticação deverá atender ao requintado sistema de armas utilizado. Como exemplo, pode ser citada a ação punitiva dos EUA contra o Iraque, denominada “Tempestade no Deserto”, no início dos anos 90, quando nas operações foi utilizado o mais sofisticado sistema de armas que até então se tinha notícia.

Na guerra irregular, quer seja a guerrilha na selva ou na montanha, o sistema de comunicações das forças legais não necessita, necessariamente, ser sofisticado, mas sim eficiente, e dependerá em muito das condições do terreno para que as intercomunicações sejam realizadas com a eficiência desejada e necessária.

O rebelde, por ter suas forças distribuídas na ampla região do conflito, deve possuir um sistema básico, utilizando equipamentos portáteis de fácil manejo e transporte individual, capazes de permitir as comunicações comando-bases-comando, que possibilitem direcionar as diferentes ações de forma a desgastar as forças legais com um mínimo de prejuízo para si.
No caso do terrorismo urbano, o rebelde montou um sistema de comunicações por demais criativo, fazendo sempre as ligações a partir de telefones públicos não suspeitos de uma possível censura. Foram utilizados, também, anúncios colocados em jornais, em datas previamente combinadas, de forma a estabelecer ou restabelecer ligações, trocar mensagens codificadas e marcar encontros, denominados por eles de“pontos”.

A marcação de “pontos” entre militantes, mormente nas áreas urbanas, envolvia todo um sofisticado sistema de segurança, com alternativas em horários seguintes, caso, por qualquer motivo, um deles não pudesse comparecer ao local à hora aprazada. Nesse caso, a última alternativa era denominada“ponto de polícia”. O militante faltoso, caso houvesse sido preso, pressionado no interrogatório, “confessaria” à polícia esse seu encontro e seria conduzido até ele. O seu contato, observando o local à hora aprazada, normalmente à bordo de um transporte coletivo, ao divisar seu companheiro, saberia que ele havia sido preso e alertaria todos seus demais contatos, bem como a Organização.

Não foi fácil à chamada “repressão” neutralizar esse sistema de comunicações, que dependia em muito dos conhecimentos sobre a Organização e de uma espécie de instinto dos membros da Inteligência. E isso só se tornou possível após meses de prática.

Quando foi iniciada a ação das Forças Armadas no Bico do Papagaio, na Selva Amazônica, contra a guerrilha do Partido Comunista do Brasil, cada uma das forças singulares possuía sistemas de comando e controle independentes, confiáveis e sem nenhuma sofisticação.

Por outro lado, as comunicações dos rebeldes eram caóticas. Praticamente só existiam comunicações esporádicas, via estafeta, em contatos pessoais entre os militantes ou da guerrilha para o exterior, com o partido. Com o decorrer das operações e o progressivo cerco das forças legais ao partido, nas cidades, e aos terroristas, na selva, essa situação de caos se agravou e o contato guerrilha/partido/guerrilha, ao que se sabe, cessou.

Essa tática das forças legais isolou a “Comissão Militar” dentro da selva, deixando-a sem saber o que ocorria com o partido e, muitas vezes, com seus próprios Destacamentos. Somente através das transmissões em português da Rádio Tirana, da Albânia, dirigidas ao Brasil, parece ter sido possível captar alguma notícia exterior à área.

“Comissão Militar” teria sido compelida, portanto, após muitas indecisões, a baixar suas próprias orientações aosDestacamentos, deixando de saber, ou tendo extrema dificuldade em saber, como essas orientações estariam sendo cumpridas, bem como o resultado delas. Isso é taticamente mortal para qualquer movimento guerrilheiro.

Como eram realizadas, então, as ligações entre a “Comissão Militar” e seus Destacamentos e, destes, com seus grupos e vice-versa?

Era utilizado o sistema medieval de “pontos” pré-combinados, no meio da selva, para efetuar contatos. Esses contatos levavam dias e até mesmo meses para serem concretizados e, se uma das partes não comparecesse ao local aprazado, mais dias poderiam decorrer até o contato alternativo seguinte. Nesse ínterim, quase sempre, a situação tática, eminentemente dinâmica, já se havia alterado.

Nesse contexto, cabe uma pergunta: pode um movimento guerrilheiro manter-se sem um imprescindível sistema de comunicações que lhe permita um mínimo de flexibilidade e mobilidade com segurança?

Não. O que ocorreu com a tal “Comissão Militar” que, por absoluta falta de condições perdeu os contatos com seus Destacamentos, poderia ter levado à decisão extrema de unificação ou dispersão de suas forças, considerando que a guerrilha estava sendo batida e encurralada pelas forças legais. Essa decisão de unificar ou dispersar ao que se sabe nunca chegou a ser efetivada.

“Joaquim”, membro da dita “Comissão Militar” afirma, em seu relatório à Comissão Executiva Nacional do PC do B – um dos documentos apreendidos em 16 de dezembro de 1976 quando de uma reunião do Comitê Central do partido, em São Paulo -: “A luta do Araguaia ressentiu-se, desde o início, de sérias deficiências; em ausência de canais de comunicação, o que criou muitas dificuldades no desenvolvimento da ação guerrilheira, visto que o sistema de comunicações internas baseava-se, quase sempre, no mensageiro a pé”.


Considerando que a “Comissão Militar” tinha como um dos seus objetivos permanecer na área sem grandes perdas e realizando ações de fustigamento e emboscadas, retirando-se, em seguida a cada uma delas, para seus refúgios, na mata, visando proteger-se das ações das forças legais, um sistema de comunicações via rádio, por mais simples que fosse para orientar suas manobras, tornava-se imprescindível. Teria, certamente, permitido uma sobrevida à guerrilha.

2 – Inteligência

Na guerra de guerrilhas, onde um dos lados é o rebelde e o outro as forças legais, não são válidas as Leis da Guerra. Nesse tipo de guerra irregular, como assinalado anteriormente, a Inteligência e o apoio da população são essenciais.

As Forças Armadas, ao se depararem com o trabalho de campo -“embrião da guerra popular prolongada”, segundo a versão chinesa transmitida ao PC do B -, evidentemente que teriam necessidade de realizar um paciente trabalho de Inteligência, objetivando uma das máximas de Sun-Tzu: conhecer o inimigo, o apoio que dispunha da população local, suas bases e áreas de operação, buscando levantar seus fatores de força e de fraqueza. Isso considerando que os primeiros militantes já se encontravam no local há 6 anos.

O mestre Sun-Tzu, no ano 500 A.C. escreveu o livro “A Arte da Guerra”, que contém valiosos ensinamentos sobre a Inteligência e a Guerra Psicológica. Esses ensinamentos até hoje são considerados válidos.
No que diz respeito à Inteligência, escreveu Sun-Tzu: “Se conheceres o inimigo como a ti mesmo, não deverás temer o resultado de 100 batalhas; se conheceres a ti mesmo e não conheceres o inimigo, a cada vitória corresponderá uma derrota; e se não conheceres a ti mesmo e nem o inimigo, serás sempre derrotado”.

Se, pelo menos algum dos jurássicos integrantes da Comissão Executiva Nacional do PC do B, tivesse, alguma vez, lido Sun-Tzu, teria aprendido que não se faz uma guerra sem Inteligência, e que insistir nesse erro conduziria ao inevitável fracasso. No entanto, na época, preferiram seguir Mao-Tsetung.

Sabendo-se que, doutrinariamente, nenhum movimento guerrilheiro pode prosperar ou sequer sobreviver sem um mínimo de apoio logístico, as forças legais logo optaram por uma ação repressiva para desmantelar o partido nas cidades – como ocorreu - objetivando isolar a guerrilha do partido e este dela.

Custa a acreditar que um partido, cujo objetivo é a tomada do poder utilizando todas as formas de luta, desconheça os rudimentos da arte da guerra, desencadeando uma tentativa deguerra popular sem Inteligência e sem apoio popular, condenando seus militantes à morte.

É correto acreditar que os militantes que receberam treinamento na Academia Militar de Pequim tenham sido instruídos e capacitados em como realizar a montagem de uma rede de informantes, como obter os informes sobre o inimigo, e como disseminá-los ao órgão de decisão para que este pudesse definir, a cada momento, os elementos essenciais de informação e adotar decisões para ações futuras.

Nos dois anos - 1972/1974 - também o partido, fora da chamadaÁrea Estratégica -, não teria realizado nenhum trabalho de Inteligência em proveito da “Comissão Militar” e da guerrilha, a não ser os informes visivelmente baluartistas remetidos àRádio Tirana, para divulgação.

À Comissão Executiva Nacional do partido, braço político ao qual se subordinava a “Comissão Militar” que dirigia a guerrilha, caberia tratar das informações estratégicas, abordando todos os aspectos do Poder Nacional, a fim de que pudesse avaliar seus fatores de força e de fraqueza. Todavia, pelo que se pode constatar dos relatórios emitidos pelo partido em relação à guerrilha, as análises sempre foram distorcidas, pois os dirigentes máximos possuíam uma visão obtusa da realidade nacional e do próprio partido que dirigiam. Uma visão obtusa das chamadas “condições objetivas e subjetivas”.

Poderia a “Comissão Militar” estruturar uma rede de informantes objetivando produzir informações táticas sobre as forças legais, ainda que rudimentares?

Sim. Caso seus integrantes tivessem clarividência e um mínimo de mentalidade de Inteligência para saber que, na guerrilha, o homem voltado para a Inteligência é mais importante que aquele que empunha uma arma.
Nos seis anos que antecederam a descoberta da área estratégica, houve tempo para fixar militantes descaracterizados junto ao povo, nas localidades e em pontos considerados estratégicos. Isso parece não ter sido feito. A “Comissão Militar” confiou apenas, para isso, “na massa”. Muito pouco. Para que resultados fossem obtidos, “a massa” teria que estar motivada. Realmente, “a massa” às vezes informou, mas sem nenhum critério. Mesmo assim, quando esses informes, de natureza eminentemente tática, chegavam ao conhecimento da“Comissão Militar”, ou mesmo aos comandantes dosDestacamentos, evidentemente que já estavam com sua validade depreciada pelo tempo, por ausência de Comunicações. Não é demais supor que as forças legais tenham utilizado essa rede de informantes para fazer chegar aos rebeldes informes fabricadospela Contra-Inteligência.

Em uma área conflagrada, como era o caso da “Área Estratégica” escolhida pelo PC do B, totalmente dominada pela selva, sem que a guerrilha dispusesse de transceptores móveis e vendo-se forçada à utilização de estafetas para realizar a transmissão de informes, estes trariam pouco ou quase nenhum efeito benéfico à “Comissão Militar”, pois, doutrinariamente, um informe tático, numa situação de combate, sofre uma depreciação de 10% ao dia. Basta recordar que os contatos da“Comissão Militar” com o Destacamento C – ao qual pertencia José Genoino, preso em abril de 1972 – teriam sido precariamente reatados por ele à “Comissão Militar” em janeiro de 1973. Cerca de 240 dias depois!

O camarada Ângelo Arroio (“Joaquim”), em seu relatório, referiu que a guerrilha possuía apenas uma débil rede de informações, que provinham unicamente “da massa”. E quem era “a massa” para sequer imaginar o que interessava ou não à guerrilha saber? Uma população pobre, despolitizada e em sua maioria não alfabetizada.

O camarada “Joaquim” como membro da alta direção do partido e da “Comissão Militar” que dirigia a guerrilha, não teve, como se constata de seu relatório, qualquer tipo de iniciativa para corrigir esse erro de total ausência de Inteligência. Mesmo depois de abril de 1972, essa falha poderia ter sido corrigida, uma vez que a guerrilha sempre propalou que“a massa” a apoiava.

Ao tecer críticas candentes às iniciativas e às faltas de iniciativas da ”Comissão Militar”, à qual ele pertencia, Arroio criticou a si próprio. É assombroso que ele, em seu relatório, tenha se reportado como se nada tivesse a ver com a direção da Guerrilha do Araguaia. Como se fosse um simples espectador dos fatos.

3 – Armamento

Seria intenção da “Comissão Militar” obter armamento de melhor qualidade realizando ações de fustigamento e emboscadas às forças legais. Todavia, as pouquíssimas emboscadas realizadas nesse sentido, surtiram quase nenhum efeito, pois os militares estavam preparados para retaliar esse tipo de ação, e o poder de fogo de seu armamento era superior ao da guerrilha.

Uma única vez os terroristas conseguiram êxito na obtenção de armas das forças legais. Foi em uma ação realizada contra um posto da Polícia Militar do Pará na rodovia Transamazônica.

Ângelo Arroio diz no final de seu relatório: “É preciso armar-se à custa do inimigo. Os guerrilheiros precisam dispor de boas armas e estas só se conseguirão, em número suficiente, tomando do inimigo. As ações com esse objetivo têm caráter prioritário. Exigem planificação de golpes de surpresa, próximos ou distantes, que assegurem o botim indispensável. Mas é preciso também dar o máximo de atenção à fabricação caseira de minas e granadas e estudar as mais diferentes modalidades de armadilhas contra o inimigo”.

A guerrilheira “Lena” (Regilena da Silva Carvalho) que desertou em julho de 1972, demonstrou possuir uma visão mais clara sobre o assunto, ao observar que com o armamento que possuía, a guerrilha não teria a mínima condição de enfrentar a tropa do Exército. E sobre o apoio da população local à guerrilha, “Lena” foi mais enfática: “O nosso isolamento já era claro (em julho de 1972). Sem apoio do povo você não faz porra nenhuma” (página 474 do livro “Mulheres que Foram à Luta Armada”).
A Ângelo Arroio, à Comissão Executiva Nacional do PC do B - pois pelo modelo ortodoxo a guerrilha está subordinada ao aparelho partidário - e à “Comissão Militar”, faltaram conhecimentos históricos sobre os inúmeros movimentos guerrilheiros de esquerda surgidos após a 2ª Guerra Mundial.

Por mais débeis que tenham sido esses movimentos os seus membros sempre estiveram bem armados e com grande poder de fogo, como era o armamento de procedência soviética. Sempre dispuseram, assim, de meios para realizar com êxito as tais emboscadas e fustigamentos a que Arroio enfaticamente se referiu em seu Relatório.

Resta uma última pergunta: o que fizeram a direção do partido e a “Comissão Militar” nos seis anos (1966-1972) de preparação da Guerrilha do Araguaia? Essa é a pergunta que os militantes e os familiares dos que morreram no Araguaia não obtiveram resposta nestes 51 anos (1974/2015).

Carlos Ilich Santos Azambuja é Historiador.

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