domingo, 20 de dezembro de 2015

Araguaia - O desfecho da insensatez


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S Azambuja

Na guerrilha, o conhecimento de seus componentes, dos métodos de suas ações, dos seus objetivos, de suas fontes de recursos, de seus aliados e de seus fatores de fraqueza, permitirá a elaboração de diretivas para o combate em condições mais adequadas e eficientes.

Inicialmente é interessante recordar os motivos que levaram o PC do B à derrota e a guerrilha do Araguaia ao aniquilamento.

Para que o leitor tire suas próprias conclusões, recordando o que já foi escrito anteriormente, escolhemos alguns trechos do relatório escrito por Ângelo Arroio (“
Joaquim”), membro da “Comissão Militar” que dirigiu a guerrilha. Arroio constatou a ausência de dois fatores fundamentais para o êxito de qualquer movimento guerrilheiro: Comunicações e Inteligência.
Conforme seu relatório, observa-se que os informes de Inteligência chegavam a seu destino bastante defasados pelo decorrer do tempo, e também não eram analisados por falta de quem os interpretasse. Os membros da “
Comissão Militar” não demonstravam sensibilidade e nunca foram capazes de fazer um exame de situação anterior à tomada de decisões.

Essa falha concorreu, sem dúvida, para o relativamente rápido desmantelamento da
 experiência do Araguaia.

Recorde-se que “
Joaquim” classificou os erros e debilidades da guerrilha em três tipos: os “de certa importância”; os “erros graves”; e os “muito graves”. Dentre estes últimos, listou os seguintes:

- concentração, pela “
Comissão Militar”, de toda a força numa área pequena e já conhecida pelo Exército como de domínio guerrilheiro;

- a falta de planejamento de um projeto de retirada da área caso a situação se tornasse insustentável;

- a incapacidade da “
Comissão Militar” de fazer uma correta avaliação do inimigo e do conjunto da situação às vésperas do início da terceira fase da ofensiva das forças legais, iniciada em outubro de 1973;

- a ilusão, mantida pelos membros da “
Comissão Militar”, de que as forças legais não entrariam na mata, devido ao tempo chuvoso, pois não possuíam tropa adequada para isso e também devido a problemas de logística, sendo, portanto, improvável o cerco total da área.

Como se observa, a “
Comissão Militar” cometeu erros grosseiros de avaliação do conjunto da situação militar da área conflagrada, pois não existiam problemas de logística e a tropa penetrou na mata disposta a nela permanecer por vários meses, e a cercou estrategicamente. Isso na época das chuvas. 

Ainda mais: na reunião realizada no dia 15 de novembro de 1973, pela “
Comissão Militar” foi adotada a decisão de juntar os três Destacamentos. Todavia, após a reunião, alguém decidiu que a fusão ficaria para mais tarde. Essa fusão jamais foi realizada.

As ações na 3ª Fase foram compartimentadas e as equipes de combate foram conduzidas pela mata por membros das equipes de Inteligência que haviam participado dos levantamentos prévios, basicamente em Xambioá e na Transmazônica. Os agentes de Inteligência, fazendo o papel de mateiros, penetraram na selva à frente das tropas de combate, tendo sido grande a sua contribuição face aos conhecimentos adquiridos sobre os militantes, suas redes de apoio, das trilhas e caminhos que conduziam aos refúgios.

Dessa forma, estariam cobertas as regiões por onde circulavam os membros dos três Destacamentos.

No dia 7 de outubro de 1973 foi efetivamente iniciada a 3ª Fase de combate à guerrilha.
 

É verdade que embora a “
Comissão Militar” tenha errado ao analisar os objetivos das forças legais antes do início da 3ª Fase das operações, fez uma avaliação correta depois que ela foi iniciada. Essa avaliação, porém, foi feita tardiamente pois, como “Joaquim“ escreveu em seu relatório, a própria “Comissão Militar” ficou sem perspectivas, o esquema defensivo ruiu e os combatentes ficaram à mercê do inimigo.

A esse respeito, “
Joaquim” deixou registrado em seu relatório o seguinte apontamento sobre o que considerava plano estratégico e tático das forças legais:

“Bloqueio do apoio externo aos guerrilheiros, com golpes no partido e nas pessoas da periferia que os pudessem ajudar direta ou indiretamente; cerco estratégico da área para impedir a fuga ou desligamento da guerrilha; ocupação dos pontos de apoio dentro da área guerrilheira; isolamento do apoio das massas, com a prisão de moradores; corte das possibilidades de abastecimento dos guerrilheiros, impedindo a entrada de gêneros, mesmo para os comerciantes da área; apoio de helicópteros para penetrar na mata e estabelecer contato com os guerrilheiros, a fim de liquidá-los”.

O segundo passo das forças legais foi o de controlar os gêneros alimentícios, sendo imposto um racionamento para os habitantes locais, de forma que a sobrevivência de cada um fosse garantida, sem sobras de comida. Essa ação deu resultados altamente positivos, pois dificultou sobremaneira a sobrevivência dos terroristas, que passaram a ter na mata o seu único meio de sustento, através da caça e da colheita da castanha-do-pará, abundantes na região.

Em muito pouco tempo, as forças legais conseguiram colocar a população a seu favor, o que levou grande insegurança aos terroristas, pois passaram a não mais saber quem era quem. Em conseqüência, passaram a evitar a abordagem das casas dos posseiros, com receio de serem denunciados ou, mesmo, de encontrarem nas posses as forças legais, o que ocorreu não poucas vezes.

Em um balanço das operações realizadas no período de 7 de outubro de 1973 a 31 de janeiro de 1974, num total de 116 dias, o movimento terrorista teria perdido um total de 32 combatentes, inclusive sendo desmantelada a chamada “
Comissão Militar”. Nesse período as forças legais não sofreram qualquer baixa.

Durante essa 3ª Fase, as forças legais realizaram ações psicossociais junto à população, com distribuição de títulos de posse da terra e fornecimento de documentos de identidade.
 

Sentindo, também, a necessidade de uma presença mais efetiva na área por parte dos órgãos federais e estaduais, foram efetivadas providências, junto aos governos federal e estadual, buscando propiciar melhores condições de vida àquela população.

Como já foi escrito, então os terroristas já tinham extrema dificuldade em aproximar-se das posses e da população da área, pois não mais confiavam em ninguém, nem mesmo em seus antigos colaboradores e mesmo porque corriam o risco de deparar-se com as forças legais. Em conseqüência, tornou-se nula a possibilidade de obtenção de alimentos, deixando ainda mais precária a sua sobrevivência.

No início de 1974, com o fim da guerrilha, a 3ª Fase das operações começou a ser desmobilizada.

Da forma acima descrita foi desmantelada a chamada
Guerrilha do Araguaia, que poderia ter tido um final menos traumático caso o Partido Comunista do Brasil, através da “Comissão Militar”, tivesse realizado uma avaliação realmente inteligente de seus fatores de força e de fraqueza, o que teria poupado a vida de dezenas de jovens militantes enganados pelos dirigentes do partido. Como fator decisivo de sua derrota pode ser apontada a subestimação da capacidade das Forças Armadas, em particular do Exército, a pronta decisão política do governo do presidente Médici, bem como a autoconfiança e o baluartismo desmedidos do partido e da “Comissão Militar”.

Entre os militares que combateram no Araguaia em nenhum parece ter ficado a sensação de vitória, e sim a noção do dever cumprido. Embora tenham sido necessários dois anos para desmantelar a
 experiência guerrilheira, deve-se considerar que apenas na 3ª Campanha – como diziam os dirigentes terroristas – foi desenvolvido um combate real e obstinado, pois a 1ª Fase, em abril de 1972, apenas constatou que a guerrilha de fato existia, daí resultando a decisão de realizar um trabalho de Inteligência objetivando conhecer o inimigo, as condições meteorológicas e o terreno. 

E a 2ª Fase foi considerada apenas uma manobra, já anteriormente prevista pelo Estado-Maior do Exército, para adestramento da tropa, aproveitando-se, no caso, um quadro real de guerrilha.

Além das baixas sofridas pela guerrilha, acrescente-se que nessa 3º Fase, Ângelo Arroio, membro da Comissão Executiva Nacional do PC do B – e, como tal, um dos idealizadores e organizadores da aventura guerrilheira – e membro da “
Comissão Militar”, abandonou a área, desertando, provavelmente em janeiro de 1974.

Não custa repetir que a guerrilha é uma forma de
 guerra suja. Não obedece aos princípios definidos para a Guerra Convencional. Para ela, a Convenção de Genebra não existe.

João Amazonas, o
 Grande Timoneiro do Partido Comunista do Brasil, desde sua fundação, e que chegou a integrar a “Comissão Militar” até o inicio das hostilidades, em abril de 1972 – sendo que depois disso também abandonou a área e não mais voltou -, disse, a uma Comissão da Câmara dos Deputados que “os militares atuaram como bárbaros”.

Frei Beto, por sua vez, escreveu em seu livro
 “Nos Bastidores do Socialismo”, página 404, que “justifica a pena de morte em um único caso: na guerra de guerrilhas”. Ou seja, nas guerrilhas rurais e urbanas.

Carlos Marighela no “Minimanual do Guerrilheiro Urbano” foi mais longe, com frases como essas
: “O que importa não é a identidade do cadáver, mas o seu impacto sobre o público”; “Matar com naturalidade, esta é a única razão de ser de um guerrilheiro”.

Devemos recordar que uma das primeiras providências implantadas pelos que dirigiam a
 Guerrilha do Araguaiafoi a constituição de Tribunais Revolucionários, destinados a julgar aqueles que eles definissem como inimigos do povo. Não apenas diversos inimigos do povo foram justiçados por esses Tribunais, mas também alguns companheiros guerrilheiros, acusados de vacilação.

Tudo isso significa que os terroristas nunca tiveram em mente fazer prisioneiros. As forças legais, isto é, os integrantes das Forças Armadas, seriam, seguramente, “
julgados” pelos tais Tribunais Revolucionários, considerados inimigos do povo e justiçados.

Ângelo Arroio
 igualmente deixou registrado em seu relatório que considerou “uma deficiência de certa importância o não justiçamento de determinados inimigos”.

O
 justiçamento de alguns moradores e as mortes de militares, sem dúvida criaram um clima de forte sentimento de antagonismo na tropa e também em grande parte da população. O cabo Odílio Cruz, morto em 8 de maio de 1972, e um tenente e um sargento, feridos nesse mesmo dia, historicamente foram as primeiras vítimas da guerrilha. 

Esse sentimento de antagonismo foi agravado, tornado-se irreversível, devido aos ferimentos causados a quatro outros militares – dois tenentes, um sargento e um soldado – nos dias que se seguiram, e com a morte do sargento Mario Ibrahim da Silva, em 26 de setembro de 1972 e o desaparecimento e possível morte do soldado Francisco Valdir de Paula, em outubro de 1973.

Nesse contexto, e considerando que a guerra de guerrilhas é uma
 guerra suja, seria pouco provável que a tropa, dentro da selva, compartimentada em pequenos grupos de combate, com grande descentralização e dispondo de obstinação e autonomia operacional, adotando procedimentos não-convencionais, com seus homens sob tensão permanente, estivesse disposta a facilitar.

Embora todos os historiadores da
 Guerrilha do Araguaia, - a grande maioria dos quais sem esconder sua ideologia de esquerda -, afirmem, ou deixem explícito nas entrelinhas, que uma entidade definida por eles como “o governo” deu ordens às forças legais para não fazerem prisioneiros durante a guerrilha (ordem que, como se sabe, se realmente foi dada, não foi cumprida, como se viu, face à prisão de diversos terroristas), acreditamos que esses historiadores, em seu íntimo, tenham plena consciência de que nenhuma autoridade, militar ou civil, daria uma ordem desse tipo ao segmento composto por oficiais e subalternos do Exército, Marinha e Aeronáutica que combateu e desmantelou a guerrilha. 

O máximo que se conhece nesse sentido, que se aproxima, embora fique longe da versão desses historiadores, é um trecho de uma entrevista concedida pelo ex-presidente Médici à revista Veja no ano de 1984:
“Uma vez, os ministros militares quiseram usar as Forças Armadas para combater o terrorismo, mas eu não deixei: ‘Isso é trabalho para a polícia’, avisei. Mas houve um tiroteio num aparelho e um major morreu ao socorrer um sargento que foi ferido. Então, tive uma conversa com o Ministro do Exército, general Orlando Geisel, e perguntei: ‘Mas só os nossos morrem? Quando invadirem um aparelho, terão de invadir metralhando. Estamos numa guerra e não podemos sacrificar os nossos’. Não há dúvida que era uma guerra, depois da qual foi possível devolver a paz ao Brasil”. 

Em nenhum momento dos dois anos em que a guerrilha foi combatida – 1972/1974, auge da
 Guerra Fria – foi reconhecida pelo governo a existência de qualquer movimento guerrilheiro no Sul do Pará, objetivando, muito possivelmente, evitar que algum país ou algum movimento guerrilheiro estrangeiro fosse tentado a reconhecer uma possível área liberada no interior do país.

Dessa forma, como acertadamente assinalou o historiador Jacob Gorender (ex-companheiro, quando no PCB, dos dirigentes da guerrilha), “
a guerrilha foi abafada” (livro “Combate nas Trevas”) sendo-lhe retirado esse fator de força decorrente de um possível reconhecimento externo.

Finalmente, o trecho abaixo, extraído do livro
 “A Política Armada” – Fundamentos da Guerra Revolucionária”, de Hector Luis Saint-Pierre, editora UNESP, 2000, resume a saga da Guerrilha do Araguaia:

“A luta armada, pela sua complexidade, é um meio que não pode ser improvisado (...) Lançar-se à luta armada quando as condições objetivas não estão suficientemente amadurecidas pode significar um salto no escuro. Por outro lado, para os revolucionários, a falta das condições subjetivas (não estar devidamente preparado para o momento em que se anunciar a chegada da hora) poderá significar uma irresponsabilidade histórica imperdoável e a tardia constatação de não haver estado à altura dos acontecimentos”.

O texto acima conclui a série de artigos sobre a Guerrilha do Araguaia.

Carlos Ilich Santos Azambuja é Historiador.

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