segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Assustada, a Oligarquia precisa da crise


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Elio Gaspari

Impeachment, Dilma Rousseff, Michel Temer e Eduardo Cunha são ingredientes secundários de um momento muito maior. Vice-presidente de olho na cadeira do titular é coisa comum. Oposição querendo derrubar o governo também é coisa que acontece. O que há de novo e saudável no Brasil de hoje é que pela primeira vez desde o desembarque de Tomé de Souza, em 1549, o braço do Estado está investigando, encarcerando e punindo personagens da oligarquia política e econômica da terra de Santa Cruz, hoje Brasil. Diante dessa novidade, Dilma, Temer e Eduardo Cunha são explosivos asteriscos. Em graus variáveis, estão mais próximos do problema do que de sua solução.

O Supremo Tribunal Federal investiga os presidentes da Câmara e do Senado. Estão na cadeia o dono da maior empreiteira do país, um poderoso banqueiro e o líder do governo no Senado. Dois ex-diretores da Petrobras colaboram com as investigações. Cinquenta e sete pessoas já foram condenadas a penas que somam 680 anos de prisão.

Neste momento inédito, foram para a prisão pessoas que se comportavam como se estivessem acima das leis. Empreiteiros que desqualificavam a Operação Lava-Jato deram-se conta de que a festa acabou e passaram a colaborar com o Ministério Público. Superestimando sua invulnerabilidade, o senador Delcídio do Amaral articulava a fuga de Nestor Cerveró com direito a mesada de R$ 50 mil. Está preso.

Uma parte do Ministério Público e do Judiciário dissociou-se da secular tradição que protegia os maus costumes das oligarquias política e econômica. A briga do Planalto com Eduardo Cunha é apenas um momento explosivo no curso dessa grande mudança. De um lado está a doutora Dilma (“não respeito delator”) eleita por um partido que teve dois presidentes e dois tesoureiros encarcerados. Do outro, o comandante de uma poderosa bancada pluripartidária, apanhado com uma fortuna escondida no banco Julius Baer.

Os petistas dizem-se perseguidos, mas, entre os 68 políticos investigados, seu partido está empatado com o PMDB (ambos com 12 notáveis). A taça ficou com o Partido Progressista, com 31 acusados. O PP tem uma peculiaridade: abriga um plantel de doutores cujas raízes remontam ao tempo da ditadura. Nunca se afastaram do poder. Símbolo dessa grei é Paulo Maluf. Olhando-se para as empreiteiras que tiveram executivos encarcerados chega-se a empresas poderosas desde a metade do século passado.

Ferida, a oligarquia está atemorizada. É comum ouvir-se a pergunta: “Onde é que isso vai parar?” Em geral, ela significa outra coisa: “Será que vai chegar a mim?” Também é frequente a advertência: na Itália, a Operação Mãos Limpas desaguou em nove anos de poder de Silvio Berlusconi com suas bandalheiras. Novamente, a frase tem outro significado: “É melhor deixar tudo como está.” A Mãos Limpas italiana obrigou a oligarquia italiana a mudar de modos. Berlusconi perdeu os direitos políticos e a batalha para não pagar na cadeia os 11 anos a que está condenado. Matteo Renzi, o atual primeiro-ministro da Itália, não tem as ligações perigosas dos cardeais da extinta democracia cristã, nem as traficâncias da última geração de políticos socialistas. A “Mani Pulite” não transformou a Itália numa Nova Zelândia, mas tornou mais arriscado o ofício de roubar.

O Brasil teve muitos sacolejos, mas nunca a oligarquia se viu ameaçada nos seus métodos. Passou por sustos, mas no conjunto sempre saiu invicta. A ameaça da Lava-Jato não é ideológica, muito menos política, é apenas a afirmação de um braço do Estado para que as leis sejam cumpridas. Corrupção passou a dar cadeia, o medo da cadeia gerou a colaboração, e a cada colaborador ampliou e fortaleceu as investigações.

Dilma pode ou não continuar na Presidência. Para a oligarquia ameaçada, isso não tem importância. O que se precisa é quebrar os ossos de parte do Ministério Público e de parte do Judiciário. Está cada vez mais difícil.


Elio Gaspari é Jornalista. Originalmente publicado em O Globo em 13 de dezembro de 2015.

2 comentários:

lgn disse...

Ainda que seja um grito, apenas um grito, é a primeira vez que o brasileiro se dá conta de que o grande problema que enfrenta não é tão somente o PT e seus asseclas, mas o vício estabelecido entre o Estado e o empresariado que em parte o sustenta. Essa simbiose impede que o Brasil seja administrado como nação legítima, substantiva, real. Não se conseguiu eliminar da cabeça do político, dos membros das três instâncias, as capitanias hereditárias. De geração para geração tudo é entregue com o mesmo conselho para não implodir o sistema. O Estado que vive para si e para alguns escolhidos. Não dá mais para segurar e manter sobre as costas esse velho vagabundo, caduco, aproveitador, perdulário, desonesto, velhaco. Sua força está se esvaindo por conta da pressão externa que nos chega através de livros, imagens, narrações de brasileiros que percebem a distância que está se materializando entre o mundo e o Brasil. Os cupins estão comendo por dentro a madeira com que o Estado se construiu. Não se sabe sobre os desdobramentos que virão. O que se pode contar é com um rearranjo feito por essa elite carcomida que tentará fazer muita confusão para que tudo continue como está. Mas é uma missão difícil que terá tempo curto de sobrevivência. Forças muito maiores estão a se coordenar para que haja transformações que cheguem mais perto dos anseios populares. Para que o Estado seja finalmente colocado sob a condição inequívoca de sua existência. Servir.

Anônimo disse...

Não podemos esquecer que empreiteiros que paga propina, também existe nas prefeituras e estados, mas devemos perguntar porque todos estão afirmando que este tipo de crime existe apenas em Brasilia...