terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Carlos Lacerda - 101 anos


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S Azambuja

Carlos Frederico Werneck de Lacerda foi o maior brasileiro de seu tempo, seja como administrador, seja como político, conforme escrevi recentemente em outro artigo

Escrever sobre Carlos Frederico Werneck de Lacerda não é uma tarefa fácil. Falar sobre sua vida é um desafio para qualquer pessoa, pois foi o maior brasileiro do seu tempo!

Quem esmiúça, em detalhes, a vida desse grande brasileiro é John W. F. Dulles, no livro “Carlos Lacerda – A Vida de um Lutador”, editado pela Nova Fronteira em 1992. O livro é, praticamente, um diário da política brasileira nos anos 50 e 60.

Se fosse vivo, Carlos Lacerda teria feito, este ano, em 30 de abril, 101 anos e provavelmente não assumiria a postura de mero espectador dos acontecimentos que transformaram o país em um esgoto. Como fez durante toda a sua vida, já teria se sentado à máquina ou ao computador e despejado sua famosa agressividade e seu notável senso crítico que durante décadas mexeram com a sociedade e causaram as mais extremadas reações dos adversários políticos.

Sobre ele, sugiro aos Kamaradas a leitura de “O Caminho da Liberdade”, do próprio Carlos Lacerda. Essa publicação, com 254 páginas e vários anexos, é o discurso, feito por ele, em sua defesa, na Câmara dos Deputados, em 16 de maio de 1957, quando o governo de Juscelino tentou obter permissão da Câmara para entregá-lo à Justiça Militar, por haver divulgado segredos do interesse da Segurança Nacional – segundo a acusação -. Durante 10 horas, Carlos Lacerda fez sua exposição, preparada durante três dias e três noites de trabalho. 

Ao final, o governo não conseguiu os 164 votos que precisava.

Lacerda tinha o poder da convulsão e da comoção. Era arrebatador e emocionante e considerava com absoluta certeza que a palavra, quando colocada com precisão, doía mais do que a reação física. Ele fez da língua e da argumentação instrumentos imbatíveis nos debates de que participou.

Foi Vereador, Deputado Federal e Governador do então Estado da Guanabara. Como Governador tomou posse em 5 de dezembro de 1960 depois de uma campanha memorável, realizando comícios em todo o Estado em cima de um caminhão. Era o chamado Caminhão do Povo.

Sua passagem pelo governo estabeleceu um sistema de administração até então desconhecido, a descentralização do Executivo através das Regiões Administrativas. 

Sua administração esteve à frente de seu tempo. Criou as Secretarias de Justiça, Turismo, Serviços Sociais e Governo, até então inexistentes. Criou a COPEG (agência estadual para o fomento do desenvolvimento industrial), a COCEA (Companhia Central de Abastecimento), os bairros Cidade de Deus, Vila Aliança, Vila Kennedy e Vila Esperança. A educação hoje tem a sua marca: construiu 231 escolas e 1.185 salas de aula, além de criar a Universidade do Estado da Guanabara – atual UERJ -, o Instituto de Belas Artes, o Instituto Villa-Lobos e a Sala Cecília Meireles. Nos transportes criou a Companhia de Transportes Coletivos (CTC) e construiu os viadutos dos Marinheiros, Engenheiro Noronha, Saint-Hilaire, Tunel Santa Bárbara, abertura do Tunel Rebouças, e a maior de todas as suas obras: o Parque do Flamengo, cujo nome oficial é Parque Brigadeiro Eduardo Gomes.
Erradicou, dentre outras, as favelas do Pasmado (em cima de um viaduto, ao lado do campo do Botafogo), a favela da Catacumba, às margens da lagoa Rodrigo de Freitas e a favela do Esqueleto, onde hoje é a UERJ.

Lacerda também pôs fim à irritante falta d’água ao construir as adutoras do Guandu, Paquetá e Jacques-Acari, sem falar na construção de uma das mais completas redes de esgotos do país.

Ao mesmo tempo ia deixando cada vez mais claras suas divergências com o então presidente Jânio Quadros, especialmente quando da condecoração, por Jânio, de Ernesto Che Guevara, então ministro da Indústria e Comércio de Cuba. No mesmo dia da condecoração ao kamarada Che, Lacerda homenageou Manoel Antonio de Verona, dirigente anticastrista que estava no Brasil buscando apoio para sua Frente Democrática.

Na Câmara dos Deputados, num certo dia, quando fazia um inflamado discurso, como era do feitio, um colega pediu um aparte: 

- Vossa Excelência pode falar o quanto quiser, porque o que me entra por um ouvido sai imediatamente pelo outro. 

Ao que lhe respondeu Lacerda:

- Impossível, nobre colega, o som não se propaga no vácuo... 


Carlos Ilich Santos Azambuja é Historiador.

7 comentários:

Anônimo disse...

Justa homenagem ao melhor governador que o Rio de janeiro já teve!

Anônimo disse...

Sensacional !

Anônimo disse...

Ontem no Roda Viva o Jornalista entrevistado falou que o Carlos Lacerda era um canalha, mas era convicto em suas ideias, pra mim quem é contra o bando de ladroes que sempre estiveram no poder são canalhas.
Chico Trevas

Loumari disse...

Hora que Passa

Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!

Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh'alma triste, dolorida, escura,
Minh'alma sem amor é cinza, é pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!

Que tragédia tão funda no meu peito!...
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!

Deus! Como é triste a hora quando morre...
O instante que foge, voa, e passa...
Fiozinho d'água triste... a vida corre...

"Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"
Portugal 8 Dez 1894 // 8 Dez 1930
Poetisa

Loumari disse...

Por que é que havia de me sentir sozinho? Raras vezes na minha vida, desde que me lembro de mim, tive um sentimento de solidão. E não me sinto mal na minha companhia, divertimo-nos muito os dois, eu e eu. Não me aborreço.
(António Lobo Antunes)



Há aquela ideia de que encerrando-nos em nós é que nos encontramos. Não nego - pelo contrário - a importância da solidão. Não se trata, porém, da solidão narcísica e morta, mas daquela solidão habitada, para meditar, de tal modo que o encontro com os outros seja rico e fecundo. De facto, quem se fecha egoisticamente dentro de si estiola e morre - não é verdade que quem caiu em depressão não quer ver ninguém?
(Anselmo Borges)

Loumari disse...

O Amor Encontra-se nas Coisas Simples

É mais fácil programar supercomputadores, gerir grandes empresas, cumprir elevadas metas profissionais, do que construir relações saudáveis regadas com um sublime amor. Houve brilhantes intelectuais que quiseram conquistar o amor com a sua cultura, mas ele disse: «Encontro-me nas coisas simples e anónimas!» Houve milionários que quiseram comprá-lo com dinheiro, mas ele declarou: «Não estou à venda!» Alguns generais quiseram dominá-lo com armas, mas ele afirmou: «Só floresço no terreno da espontaneidade!» Os políticos tentaram seduzi-lo com o seu poder, mas o amor bradou: «O poder asfixia-me.» Houve pessoas célebres que quiseram envolvê-lo com a fama, mas ele sem hesitar comentou: «A fama nunca me poderá seduzir.»

"Augusto Cury, in 'Mulheres Inteligentes, Relações Saudáveis'
Brasil n. 2 Out 1958
Psiquiatra/Escritor

ary disse...

se fosse vivo lula nao se elegeria e o país seria outro.
MAIOR HOMEM PUBLICO DESSE PAIS. Como faz falta...
Obrigado AZAMBUJA POR LEMBRAR deste grande "ESQUECIDO"