terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Discurso de posse de Emilio Garrastazu Médici


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S Azambuja

Foi Presidente do Brasil entre 30 de outubro de 1969 e 15 de março de 1974. no auge da luta armada. Aos domingos ia ao Maracanã com seu radinho de pilha e, quando anunciada sua presença pelos alto-falantes do estádio, era aplaudido pela multidão. Muito diferente dos governantes de agora, que têm receio de sair às ruas...

Em seu governo o país viveu o chamado “Milagre Brasileiro” ocasião em que  ocorreu um crescimento econômico recorde, inflação baixa e projetos desenvolvimentistas. Houve também grandes incentivos fiscais a indústrias e a agricultura foi a área econômica mais pujante do período. No seu governo construiu-se a Usina de Itaipu, a Transamazônica, a Ponte Rio-Niterói e outras obras.

Ao fim de seu mandato como Presidente, Médici abandonou a vida pública, sendo sucedido pelo General Ernesto Geisel. Nunca assaltou bancos, nunca trocou dólares roubados ou participou de atos terroristas, e jamais, como a atual presidenta, teve que repetir, para se defender, o bordão: “não tive contas na Suiça”.

Por isso, vale rever o discurso de posse de Médici na Presidência da República:
                                
Homens de meu país. Neste momento eu sou a oferta e a aceitação. Não sou promessa. Quero ser verdade e confiança, ser a coragem, a humildade, a união. Oferta de meu compromisso ao povo, perante o Congresso de seus representantes, quero-a um ato de reverdecimento democrático. 

A aceitação da faixa presidencial, faço-a um ato de justiça e a confissão de minhas crenças. Faço a justiça de proclamar o equilíbrio e serena energia, o patriotismo com que se houveram os três ministros militares no exercício temporário da Presidência da República, que a mim transmitem, no símbolo desta faixa, pelas mãos honradas de Sua Excia, o almirante Rademaker. Faço justiça de dizer, já agora ouvindo a Nação, a cuja frente o destino me trouxe, faço a justiça de assinalar a total dedicação do grande presidente Costa e Silva à causa pública, o empenho tanto, que se fez imolação da própria voz. 
     
Venho como sempre fui. Venho do campo, da fronteira, da família, da caserna; venho da minha terra e de meu tempo. Venho do Minuano. Este vento faz pensar no campo, meus amigos, este vento vem de longe, vem do pampa e do céu. Valho-me, ainda uma vez, do poeta augusto do sul, para ver no vento, o homem do campo de todo o Brasil – o homem que ninguém vê, sem face e sem história – aquela humildade mansa, que a vida vai levando na quietação do caminho abraçado à coxilha. 

Homem do campo, creio no homem e no campo. E creio que o dever desta hora é a integração do homem do interior ao processo de desenvolvimento nacional.

Homem da fronteira, creio em um mundo sem fronteira entre os homens. Sinto por dentro aquele patriotismo aceso dos fronteiriços, que estende ponte aos vizinhos, mas não aceita injúrias nem desdéns e não se dobra na afirmação do interesse nacional. Creio em um mundo sem fronteiras entre países e homens ricos e pobres. E sinto que poderemos ter um mundo sem fronteiras ideológicas, onde cada povo respeite a forma de outros povos viverem, onde os avanços científicos fiquem na mão de todo homem, na mão de todas as nações, abrindo-se à humanidade a opção de uma sociedade aberta. Fronteiriço, não sei, não vejo, nâo sinto, não aceito outra posição do Brasil no mundo que não seja a posição de altivez.

Homem de família, creio no diálogo entre as gerações e as classes, creio na participação. Creio que a grandeza do Brasil depende muito mais da família do que do Estado, pois a consciência nacional é feita da alma do educador que existe em cada lar. E, porque assim o creio, buscarei fortalecer a unidade familiar, pedra angular da sociedade. 

Homem do povo, creio no homem e no povo, como nossa potencialidade maior, e sinto que o desenvolvimento é uma atitude coletiva, que requer a mobilização total da opinião pública. Homem do povo, conheço a sua vocação de liberdade, creio no poder fecundo da liberdade.

Homem da caserna, creio nos milagres da vontade. E, porque creio, convoco a vontade coletiva, a participação de todos que acreditam na compatibilidade da democracia com a luta pelo desenvolvimento, para que ninguém se tenha espectador e todos se sintam agentes do processo. 

Homem do meu tempo, tenho pressa. 

Homem do meu tempo, creio na mocidade e sinto na alma a responsabilidade perante a História. E, porque o sinto e o creio, é que darei de mim o que puder pela melhor formulação da política de ciência e tecnologia, que acelere a nossa escalada para os altos de uma sociedade tecnológica e humanizada.

Homem da Revolução, eu a tenho incontestável, e creio no ímpeto renovador e inovador de seus ideais. E, porque a tenho assim, é que a espero mais atuante e progressista.  É meu propósito libertar o nosso homem de seus tormentos maiores e integrar multidões ao mundo dos homens válidos e, para isso, convoco a universidade, chamo a Igreja, aceno à imprensa e brando ao povo para que me ajude a ajudar o homem a ajudar-se a si mesmo.

Homem da lei e do regulamento, creio no primado do Direito. E, porque homem da lei, pretendo zelar pela ordem jurídica.

Homem de fé, creio nas bênçãos de Deus aos que não têm outros propósitos que não sejam os do trabalho da vida inteira ·, os da justiça e os da compreensão entre os homens. 

Creio nos milagres que os homens fazem com as próprias mãos. E nos milagres da vontade coletiva.

Creio na solidariedade da família brasileira. 

Creio na alma generosa da mocidade. 

Creio na minha terra e no meu povo.

Creio na sustentação que me haverão de dar os soldados como eu. Creio no apressamento do futuro.

Creio da missão de humanidade, de bondade e amor que Deus confiou à minha gente.  E, porque creio, e porque o sinto, nos arrepios de minha sensibilidade, é que, neste momento, sou oferta e aceitação.  E aceito, neste símbolo do Governo da República, a carga imensa de angústias, de preocupações, de vigílias – a missão histórica que me foi dada.

E a ela me dou, por inteiro, em verdade e confiança, em coragem, humildade e união.

E a ela me dou, com a esperança acesa no coração, que o vento de minha terra e de minha infância, que nunca me mentiu no seu augúrio, está dizendo que Deus não me faltará, está trazendo o cheiro de minha terra e de minha gente. 

E com a ajuda de Deus e dos homens, haverei de pôr na mão do povo tudo aquilo em que mais creio.

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Agora, no momento em que o país foi transformado em um esgoto, julgo oportuna a publicação do texto para muita reflexão.

Carlos Ilich Santos Azambuja é Historiador.

13 comentários:

Anônimo disse...

MILAGRE BRASILEIRO FOI ESSES DESGRAÇADOS NÃO TEREM MATADO TODOS DE FOME, MAS ASSASSINOU, TORTUROU E ESCRAVIZOU A METADE DO PAIS... TUDO O QUE AQUI ERA PRODUZIDO ERA MANDADO PRA FORA DEIXANDO DOIS TERÇOS DA POPULAÇÃO DESNUTRIDOS... FICAMOS CONHECIDOS NO EXTERIOR COMO,DESDENTADOS, ANALFABETOS, DESCAMIZADOS, DESNUTRIDOS E OUTROS ADJETIVOS QUE DAVA PRAZER AOS PUXA SACO DOS AMERICANOS, VOCE É DA MESMA LAIA DO NEWTON CRUZ , BORRA BOTAS E BOSTA DE GATO...

Loumari disse...

A LÍBIA QUE EU CONHECI

Estive na Líbia em setembro de 1979, por ocasião do décimo
aniversario da Revolução que levou Kadafi ao poder.

Georges Bourdoukan

Parte 1

Me acompanharam na ocasião o cinegrafista Luis Manse e o operador de
Nagra Nelson Belo, Belo (por onde andarão?).
Estávamos ali pelo Globo Repórter, do qual eu era o diretor em São Paulo.
Primeira surpresa. O hotel, para onde o governo nos enviou, estava
totalmente ocupado por diplomatas.
Perguntei ao embaixador do Brasil a razão dessa concentração.
A resposta me surpreendeu ainda mais.
Na Líbia de Kadafi, os aluguéis estavam proibidos.
Aos líbios que não tivessem casa, era só solicitar que o governo
imediatamente providenciava a construção de uma.
O país era um imenso canteiro de obras.
E mais: Uma lei em vigor, A LEI DO COLCHÃO, determinava que, qualquer
cidadão líbio que soubesse da existência de casa alugada, era só
atirar um colchão no quintal que a casa passava a ser sua.
Inúmeras embaixadas sofreram com essa lei já que foram ocupadas por líbios.
O próprio embaixador me contou na ocasião que a embaixada brasileira
não ficou imune a essa lei.
Um motorista líbio que ali trabalhava informou a um amigo que ainda
não tinha casa, que a embaixada do Brasil era alugada.
Imediatamente esse amigo atirou um colchão e reivindicou a propriedade
(uma mansão que pertencia a um italiano que retornou à Itália apos a
subida ao poder de Kadafi).
O governo líbio precisou intervir para evitar maiores dissabores.
O Brasil acabou ganhando a embaixada e o líbio uma casa nova.
Isto tudo aconteceu na década de 70, quando a Líbia era uma potência
riquíssima, com apenas 3 milhões de habitantes, em quase 1.800.000
quilômetros quadrados.
Os líbios, por lei, eram proibidos de trabalhar como empregados de estrangeiros.
O líbio que não quisesse trabalhar recebia o equivalente, valores de
hoje, a cerca de 7 mil dólares por mês.
E mais: médico, hospital e remédios era tudo de graça.
Ninguém pagava escola e o líbio que quisesse aperfeiçoar seus estudos
fora do país ganhava uma substancial bolsa.
Conheci muitos desses líbios na França, Itália, Espanha e Alemanha, e
outros países onde estive como jornalista.

Loumari disse...

Parte 2

Estamos em Trípoli, ano 1979.
Esta noite quase não consegui pegar no sono.
No hotel onde estava hospedado, alem dos diplomatas e alguns
jornalistas, estavam também delegações de países africanos de língua
portuguesa.
Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, etc.
E foram eles que não me deixaram pegar no sono já que, sabendo que eu
teria um encontro com Kadafi no dia seguinte, queriam que eu lhe
pedisse mais explicações sobre o socialismo Líbio.
Disseram que nunca haviam visto algo igual. Nem mesmo em livros.
Ficaram admirados com a Lei do Colchão (veja post abaixo), com a
assistência médica, remédios e educação, tudo gratuito.
E pelo fato de ninguém ser obrigado a trabalhar na Líbia e mesmo assim
receber uma remuneração “ fantástica” no dizer de um angolano.
Prometi que tentaria obter uma resposta, desde que, de fato, eu
conseguisse falar com Kadafi, por saber que ele era imprevisível e não
poucas vezes deixou jornalistas aguardando ad infinitum.
Antes, preciso esclarecer que as portas dos apartamentos dos hotéis
não possuíam fechaduras.
Por isso todos podiam entrar no apartamento de todos razão pela qual
nossos apartamentos eram sempre “visitados”.
Perguntei ao gerente do hotel a razão da falta de fechaduras.
Respondeu que na Líbia não havia ladrões como na “época da colonização
italiana e por isso as fechaduras eram prescindíveis”.
Mas um diplomata me esclareceu que a falta de fechaduras era para que
os “fiscais” do governo pudessem entrar a qualquer hora do dia ou da
noite para ver se não havia mulheres “convidadas” nos apartamentos.
“Porque, prosseguiu o diplomata, os líbios até hoje falam que durante
a colonização italiana e o reinado de Idris, os hotéis serviam apenas
para orgias”.
No dia seguinte me preparo para o encontro com Kadafi.
Manse, com a sua câmera e Belo com seu gravador Nagra me aguardavam ao
lado do elevador.
Com cara de sono, reclamaram que seus apartamentos foram “penetrados”
umas três vezes de madrugada e foi um susto só.
O carro enviado pelo governo nos esperava na entrada, mas Manse queria
tomar mais um cafezinho.
Entrei no carro e aguardei.
Cinco minutos depois Luis Manse, com sua inseparável câmera, chegava sozinho.
Perguntei pelo Belo, ele disse que o imaginava comigo.
Perguntei ao nosso acompanhante se ele havia visto o nosso companheiro.
Imediatamente ele foi à portaria perguntar.
Um rapaz simpático respondeu que tinha visto Belo acompanhado por dois
policiais uniformizados a caminho da praça que ficava a uns cinqüenta
metros do hotel.
Fiquei preocupado, imaginando o pior.
Jornalista acompanhado por policiais no Brasil nunca era um bom augúrio.

Loumari disse...

Parte 3

Belo e os dois policiais estão parados ao lado de um reluzente carro
Mercedes Benz novinho em folha.
Perguntei o que estava acontecendo.
Um dos policiais me disse que o meu companheiro não parava de apontar
a chave do carro na ignição. E que eles não sabiam a razão, pois Belo
não falava o árabe e nem eles o “brasileiro”.
Então era por isso que eles saíram juntos do hotel.
Nada preocupante.
Belo me explicou e eu traduzi para o policial que ele, ao ver a chave
na ignição, ficou preocupado de alguém roubar o carro.
Os dois policiais começaram a rir e disseram tratar-se de um carro abandonado.
Era um costume no país.
Quem não gostasse do carro bastava abandoná-lo com a chave dentro. O
interessado podia levá-lo.
Essa era a Líbia da época.
Muita fartura, nenhuma miséria e a abundância ao alcance de todos.
Alias isso podia se observar nas pessoas.
Os mais velhos, que viveram sob o domínio dos colonialistas e durante
a monarquia, eram pessoas alquebradas, corpo seco.
As crianças e os jovens eram saudáveis e alegres.
Só para se ter uma idéia da Líbia sob Kadafi, tudo custava mais ou
menos o equivalente a 3 dólares.
Havia supermercados gigantescos, mas nada era vendido a varejo.
Quem quisesse arroz, por exemplo, pagava 3 dólares pelo saco de 50 quilos.
Tudo era nessa base.
Fomos visitar o parque industrial de Trípoli e eu pedi para conhecer
uma tecelagem.
Perguntei como era a relação com os clientes e um técnico alemão que
ali se encontrava para montar o maquinário, começou a rir.
“Os líbios são loucos”, me disse. E completou: “eles não vendem nada
aqui por metro, somente a peça inteira. E para qualquer um que entrar
na fábrica e pedir”.
Perguntei o preço da peça: 3 dólares a peça de 50 metros...
Mas se você, por exemplo, quisesse comprar uma gravata, qualquer uma,
o preço mínimo era o equivalente a 200 dólares.
Um cachimbo, 300 dólares.
Ou seja, todo produto que lembrasse os colonizadores e, de acordo com
eles, representasse ou sugerisse consumo supérfluo, era altamente
taxado.
Bebida alcoólica, nem pensar. Dava prisão sumária.
E foi o que aconteceu com dois jornalistas argentinos, cuja
“esperteza” os remeteu ao porto e ali compraram de um cargueiro uma
garrafa de uísque.
Um dos funcionários do hotel sentiu o bafo e os denunciou.
É verdade que eles não foram presos, porque eram convidados do governo.
Mas não puderam entrevistar ninguém, muito menos o Kadafi...
E nós só soubemos disso porque o embaixador do Brasil, uma figura
simpaticíssima, uma noite nos convidou para a Embaixada e, ali, nos
ofereceu um uísque de não sei quantos anos (guardado a sete chaves num
cofre), que Manse e Belo acharam delicioso.
Claro que eu também bebi um gole, apesar de detestar uísque.
Seja de que marca for, de que ano for.
Sempre me lembrou o gosto de iodo.
Evidentemente não faria uma desfeita ao embaixador tão solícito.
Não estalei a língua porque aí seria demais.
Antes de nos despedirmos, o embaixador nos ofereceu um litro de leite
para cada um, pois segundo ele o leite disfarçaria o nosso hálito.
Na porta, perguntei ao embaixador se ele poderia nos dar um depoimento.
“O Kadafi é um Gênio”, respondeu.
Surpreso, perguntei.
O senhor considera o Kadafi um Gênio?
Sim! Um Gênio!

Loumari disse...

Parte 4

Então o senhor considera Kadafi um Gênio?
Sim! Respondeu o embaixador. Um Gênio! E amanhã o senhor vai ter uma
prova disso.
Não entendi.
Amanhã vai haver um desfile em comemoração ao décimo aniversario da
Revolução. Assista e veja se não tenho razão.
O dia seguinte amanheceu glorioso. E eu já estava preocupado.
Se o país vai parar para comemorar o décimo aniversário da Revolução,
será que Kadafi vai encontrar tempo para a entrevista?
A população lotava a praça e as ruas onde seriam realizados os desfiles.
Um fato me chamou a atenção.
Havia milhares de meninas adolescentes com uniformes militares prontas
para o desfile.
Sorriam um sorriso que somente as adolescentes possuem.
Impressionante a sua alegria.
Foi assim que Kadafi libertou as mulheres, que antes não podiam
atravessar a porta de casa e nem tirar as vestimentas que cobriam seu
corpo de cima abaixo, me confidenciou o embaixador.
É ou não um gênio?
Essas adolescentes saem de casa bem cedinho usando o uniforme militar
e retornam para suas casas no fim do dia. Elas só não dormem no
quartel.
E têm autorização para não tirar o uniforme.
Depois do serviço militar elas jamais voltam a se vestir como anteriormente.
Então é por isso que as mulheres líbias se vestem como as ocidentais?
Mas vez ou outra deparamos com mulheres com roupas tradicionais.
Terminado o desfile, um membro do governo me diz que Kadafi nos
receberia não mais em Trípoli, mas em Benghazi, a bela cidade
mediterrânea.
E que nos buscariam de madrugada pra viajarmos os 600 quilômetros que
separam as duas cidades.
Fico sabendo nesse dia que a energia elétrica que ilumina o país é de graça.
Ninguém recebe a conta de luz, seja em casa ou no comércio.
E quem tiver aptidão para empresário, pode buscar os recursos
necessários no banco estatal e não paga nenhum centavo de juros.
A divisão da riqueza do país com sua população, em nome do islamismo,
criou um sério problema para os demais países muçulmanos,
principalmente Arábia Saudita.
E desde então, Kadafi nunca poupou os dirigentes sauditas que acusou
de terem se apossado de um país que jamais lhes pertenceu e de serem
“infiéis que conspurcavam o verdadeiro islamismo”.
“Trocaram o Profeta pelo petróleo”.
Pela primeira vez usava-se o Alcorão contra aqueles que se diziam seus
defensores.
Os sauditas, acuados, só conseguiam dizer que ele era “comunista”.
Kadafi respondia que ele apenas seguia o Alcorão ao pé da letra.
Várias revoltas começaram a eclodir na Arábia Saudita e países do Golfo.
Estados Unidos e mídia associada começaram a arregaçar as mangas.
Era preciso defender a vassala Arábia Saudita e transformar Kadafi num pária.
Na volta ao hotel, dou de cara com revolucionários da África do Sul.
Estavam na Líbia em busca de fundos para lutar contra o apartheid.

Loumari disse...

Parte 5

Vamos falar francamente.
Eu estava me esforçando para realizar um programa que dificilmente
seria exibido.
Naquela época o Globo Repórter registrava uma audiência enorme, entre
50 e 65, com pico de 72.
Alem do mais, vivíamos sob o tacão da ditadura.
Mas já que estávamos lá, vamos tocar o barco e ver no que vai dar.
À noite, no hotel, alguém abre a porta e me pergunta se posso
conversar um pouco.
Era o chefe da delegação de Guiné-Bissau e estava empolgado. Nunca
imaginara conhecer um país como a Líbia.
Perguntou como foi o meu encontro com Kadafi.
Respondi que o encontro seria no dia seguinte em Benghazi.
Enquanto conversávamos, um “fiscal” do governo, entra no quarto e nos
cumprimenta sorridente.
Dá uma olhada rápida e com aquele sorriso de comissária de bordo, nos
agradece e vai embora.
Mal passaram 10 minutos e a porta novamente é aberta. Um jornalista do
Rio de Janeiro, meu vizinho de quarto entra desesperado.
- Uma coca cola pelo amor de Deus. Meu reino por uma coca-cola. Vou
descer até saguão, alguém precisa me informar onde consigo comprar
coca cola nesse país de birutas.
E nem esperou o elevador. Desceu pela escada mesmo.
- Maluco esse seu vizinho, me confidenciou o guine-bissauense( é assim
mesmo que se diz?). E alem do mais ainda ofendeu Shakespeare.
Em seguida ele me revela que conheceu muitos revolucionários de países
diferentes que se encontravam na Líbia em busca de recursos.
Inclusive sul-africanos.
- Entregaram uma carta de Nelson Mandela para o Kadafi pedindo para
ele não esquecer seus irmãos africanos, respondeu feliz, dando a
entender que eles foram atendidos.
Novamente o “fiscal” com sorriso de comissária de bordo entra. Desta
vez para nos convidar a assistir no salão do hotel a um filme sobre os
“horrores” da herança colonialista.
Na verdade não era um filme, mas um documentário de 15 minutos e se a
idéia era para que a platéia se indignasse, o efeito foi o contrário.
O documentário mostrava a noite em Trípoli. Garotas seminuas andando
nas ruas em busca de clientes, “inferninhos”, cabarés, bebidas
alcoólicas, muitas bebidas, e por aí vai.
E o pior, terminada a exibição vários aplausos da platéia,
principalmente de jornalistas, pedindo a volta dos colonizadores...
Isso sim é que era época boa, exclamou o jornalista carioca, agora ao
lado de um colega mineiro que completou: “eta paizinho que nem
coca-cola tem”.
Quatro da manhã somos acordados. Do aeroporto de Trípoli seguimos para
Benghazi, onde finalmente vamos entrevistar Kadafi.

Loumari disse...

Parte 6

Quando desembarcamos em Benghazi, a belíssima Benghazi, tamareiras
enfeitavam suas praias.
Estavam ali como os coqueiros nas praias do nordeste.
Era colher e comer tâmaras dulcíssimas.
Um jornalista suíço que chegara a Benghazi uma semana antes, me
confidenciou que não deveria perder um casamento. Qualquer um, disse.
Estava realmente deslumbrado com a festa e o que o deixou mais
impressionado, é que os noivos, depois da cerimônia, recebem um
envelope do governo com o equivalente a 50 mil dólares de presente.
Bem, essa era a Líbia que pouca gente conhecia e a mídia ocidental não
fazia nenhuma questão de mostrá-la.
E não poderia, pois como explicar a seus leitores que havia ascendido
ao poder um jovem coronel que não utilizou a riqueza em benefício
próprio?
Pelo contrário.
Havia dividido a riqueza com a população do país.
Que não queria ver ninguém sem teto, sem fome, sem educação e sem
muitas outras coisas mais.
Eu, naturalmente, iria sem dúvida nortear a minha entrevista a partir
desses pontos.
Mas antes da entrevista, fomos a três festas com músicos árabes de
diversos países.
E haja doce.
E haja suco.
E nem um “uisquinho”, lamentavam alguns jornalistas que, sinceramente,
acho que estavam no país sem saber porque e para que.
As festas corriam em tendas beduínas, algo que Kadafi sempre prezou.
Finalmente cara a cara com Kadafi.
Em sua tenda.
Aparentava cansaço.
Alguns dos assuntos discutidos:
1-Socialismo líbio;
2-Educação;
3-Reforma agrária;
4-Moradia
5-Alinhamento
6-Arabismo
7-Socialismo chinês, soviético, cubano;
8-Apoio aos movimentos revolucionários;
9-Che Guevara;
10-Estados Unidos;
11-Brasil;
12-liberação feminina
13-Reencarnação de Omar Moukhtar.
A entrevista, que seria de 40 minutos, durou mais de duas horas e
creio que passaríamos a noite conversando se ele não fosse a toda hora
solicitado.
Naturalmente a Globo achou melhor não colocar o programa no ar, pois
poderia melindrar a ditadura.
Foi feita uma proposta para que um programa de 15 minutos fosse ao ar
no Fantástico.
Foi realizada a reedição, mas o programa teria sido proibido pelos
censores oficiais da ditadura (civil-militar-midiática).
Tudo culpa da ditadura.
Será?
Oh, céus! Oh, terra! Quando nos livraremos desse sistema putrefato?

Loumari disse...

A Líbia que eu conheci – Final

Qual foi o grande erro de Kadafi?
Eu não tenho a menor dúvida.
Foi acreditar nos euro-estadunidenses e desistir de sua bomba atômica.
Os pacifistas que me perdoem.
Aqui não se trata de incentivar a produção de ogivas nucleares, mas de
persuasão.
O Brasil que tome jeito e comece a produzir a sua.
Caso contrário, a própria mídia brasileira, associada ao Império, fará
de tudo para que o país seja invadido e ocupado.
Kadafi não ficou rico, como os produtores de petróleo do Golfo.
Dividiu a riqueza do país com a população.
Apoiou todos os movimentos revolucionários de esquerda do mundo.
Inclusive os brasileiros.
Em nenhum momento esqueceu a população negra da África.
E da África do Sul, onde, em agradecimento, um neto de Nelson Mandela
chama-se Kadafi.
Quando Nelson Mandela tornou-se o primeiro presidente da África do Sul
em 1994, o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, fez de
tudo para que Mandela parasse com os agradecimentos quase diários a
Kadafi pelo seu apoio à luta dos revolucionários africanos.
"Os que se irritam com nossa amizade com o presidente Kadafi podem
pular na piscina", respondeu Mandela.
O presidente de Uganda Yoweri Museveni afirmou que "quaisquer que
sejam as falhas de Kadafi, ele é um verdadeiro nacionalista. Prefiro
nacionalistas do que marionetes de interesses estrangeiros".
E disse mais:
" Kadafi deu contribuições importantes para a Líbia, para a África e
para o Terceiro Mundo. Devemos lembrar ainda que, como parte desta
forma independente de pensar, ele expulsou bases militares britânicas
e americanas da Líbia após tomar o poder".
Alem disso, o ex-líder líbio também teve papel importante na formação
da União Africana (UA).
A principal coordenadora da guerra contra a Líbia, Hillary Clinton,
andou pela África pregando abertamente o assassinato de Muammar
Kadafi.
Como não teve sucesso, começou a recrutar mercenários.
Alias foram esses mercenários, inclusive os esquadrões da morte
colombianos, que lutaram na Líbia. E eles não foram dizimados graças à
Organização Terrorista do Atlântico Norte (OTAN) e EUA.
Quem puder pesquisar, quando Kadafi nacionalizou as empresas
petrolíferas e os bancos, a mídia Ocidental referia-se a ele como Che
Guevara Árabe.
Antes de ser deposto e linchado pelos mercenários a mando dos
terroristas OTAN e EUA, a Líbia possuía o maior índice de
desenvolvimento humano da África, e até hoje maior que o do Brasil.
E o que pouca gente sabe, em 2007 inaugurou o maior sistema de
irrigação do mundo.
Transformou o deserto (95% da Líbia) em fazendas produtoras de alimentos.
Alias, assim que subiu ao poder os líbios que quiseram produzir
alimentos receberam terra, equipamentos, sementes e 50 mil dólares
para sobreviver até a safra.
Foi uma Reforma Agrária total e irrestrita.
Ele também pressionou pela criação dos Estados Unidos da África (EUA)
para rivalizar com os EUA e união européia.
Ele lutou por uma África una: “Queremos militares africanos para
defender a África. Queremos uma moeda única. Queremos um só passaporte
africano".
Lamentavelmente esqueceu a Bomba Atômica. E pagou por isso.
As nações que querem se emancipar que pensem nisso.

E abaixo você ouve os presidentes Hugo Chaves, Evo Morales, Rafael
Correa e Fernando Lugo... cantando Hasta Siempre, em homenagem a Che
Guevara. Eles também que se cuidem.

Georges Bourdoukan é jornalista e escritor.

Anônimo disse...

A esquerda demonizou os militares , mas para o Brasil os governos militares foram essenciais para consolidação do desenvolvimento econômico, científico , tecnológico e de infraestrutura. Muito comovente e até poético esse discurso. O Presidente Médici , militar, foi um homem honrado, enérgico, mas sensível e sabia dar valor às coisas importantes na vida - família, patriotismo, união nacional e defesa do homem trabalhador do campo . Belo discurso.

Loumari disse...

COMENTARIOS COMENTADOS POR GUILHERMINA C.

.. “O país era um imenso canteiro de obras”. ...” Isto tudo aconteceu na década de 70, quando a Líbia era uma potência
riquíssima, com apenas 3 milhões de habitantes, em quase 1.800.000 quilômetros quadrados. Os líbios, por lei, eram proibidos de trabalhar como empregados de estrangeiros.
O líbio que não quisesse trabalhar recebia o equivalente, valores de hoje, a cerca de 7 mil dólares por mês. E mais: médico, hospital e remédios era tudo de graça. Ninguém pagava escola e o líbio que quisesse aperfeiçoar seus estudos fora do país ganhava uma substancial bolsa.” ... “Isto tudo aconteceu na década de 70, quando a Líbia era uma potência
riquíssima, com apenas 3 milhões de habitantes, em quase 1.800.000 quilômetros quadrados. Os líbios, por lei, eram proibidos de trabalhar como empregados de estrangeiros.
O líbio que não quisesse trabalhar recebia o equivalente, valores de hoje, a cerca de 7 mil dólares por mês”.


COMENTÁRIO:

Mão-de-obra desqualificada totalmente empregada.

Estava no aeroporto de Roma, a caminho de Madri, quando as TVs do aeroporto, ao vivo, mostraram o atentado/assassinato de Anuar Sadat (Egito) e imediatamente Kadafi/Líbia apareceu nas telas dizendo que havia morrido o maior inimigo da causa árabe.

...” Qual foi o grande erro de Kadafi? Eu não tenho a menor dúvida. Foi acreditar nos euro-estadunidenses e desistir de sua bomba atômica. Os pacifistas que me perdoem. Aqui não se trata de incentivar a produção de ogivas nucleares, mas de persuasão. O Brasil que tome jeito e comece a produzir a sua. Caso contrário, a própria mídia brasileira, associada ao Império, fará de tudo para que o país seja invadido e ocupado.”...

COMENTÁRIO:

O Brasil desarmado é a Líbia, a Síria, o Líbano, o Oriente Médio e outros da vez.
E muitos ainda não entenderam e trabalham ignorante, ou, descaradamente, pelos interessados em se apossarem do Brasil desarmado.
Vai ver, esperam que migalhas de poder caiam sobre suas cabeças descerebradas na melhor das hipóteses – sem a menor noção de que cooperadores e cooperativistas são os alvos das chacotas dos cooperados, que riem muito, ridicularizam sim, mas, aceitam perplexos, as “ajudas”, as “cooperações” oferecidas.


waldecy oliveira disse...

Excelente discurso do Presidente Médici, olha que na época eu tinha nove anos quando ele assumiu, quem dera que hoje tivessemos pelo menos um presidente com todo esse patriotismo, dedicação, amor pelo Brasil, preocupação com os homens dessa grande nação, sabemos que hoje nossos representantes são hipócritas, são mau-carater, sem qualquer compromisso com a Nação, buscam somente seus próprios interesses. Podem criticar os Militares mais saibam que os militares não ficaram ricos quando estavam no poder, bem diferente dessa cambada de civis (políticos), quem roubam sem cessar.

Me desculpe se ofendi alguém;
Me desculpe se ofendi alguém que compactua com esses Políticos; e
Me desculpe se ofendi algum guerrilheiro de merda ou guerrilheira.

Obrigado....

Anônimo disse...

Meu caro os militares só corriam atrás de pessoas que queriam implantar o comunismo no pais o meu pai nessa época tinha emprego e uma bela renda trabalhava e não nos faltava nada.
Agora pra vagabundo igual vc era bala na cabeça mesmo,eles deveriam ter matada + mataram pouco.
Ta achando ruim vai pra Cuba pq lá é bom pra comunista la vc vai ter sua ração e uma cocha de franco por mês ou coreia do norte,seu bosta...

Geraldo Rezende disse...

COMO É FÁCIL CRITICAR E SE ESCONDER ATRAS DA PALAVRA ANÔNIMO !!!!!!!!!!!!!!!!!1