terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O Monge de Cister e a Anta do Clister


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Maurício Mantiqueira

-“Dona Anta é mister que lhe apliquemos um clister.”

--” E quem mo prescreveu? Teria sido o Zebedeu?”

-” Foi um monge português indignado com tudo o que se fez.”

--” Mas logo agora que o molusco foi embora?”

-” Vai levar o dele também (e isto é um fato); seu intestino será lavado a jato .”

--” E se me recuso o que acontece?”

-” Dona Onça do passado não esquece.”

--” Vejo que não há remédio! Minha vida está mesmo um tédio!”

-” Não adianta fazer careta ou tomar remédio tarja preta.”

--”A grade enxurrada de lama acabou de vez com minha fama.”


Carlos Maurício Mantiqueira é um livre pensador.

2 comentários:

Loumari disse...

Náufragos que Navegam Tempestades

As tempestades são sempre períodos longos. Poucas pessoas gostam de falar destes momentos em que a vida se faz fria e anoitece, preferem histórias de praias divertidas às das profundas tragédias de tantos naufrágios que são, afinal, os verdadeiros pilares da nossa existência.

Gente vazia tende a pensar em quem sofre como fraco... quando fracos são os que evitam a qualquer custo mares revoltos, tempestades em que qualquer um se sente minúsculo, mas só os que não prestam o são verdadeiramente. Para a gente de coração pequeno, qualquer dor é grande. Os homens e mulheres que assumem o seu destino sabem que, mais cedo ou mais tarde, morrerão, mas há ainda uma decisão que lhes cabe: desviver a fugir ou morrer sofrendo para diante.
Da morte saímos, para a morte caminhamos. O que por aqui sofremos pode bem ser a forma que temos de nos aproximarmos do coração da verdade.

Haverá sempre quem seja mestre de conversas e valente piloto de naus alheias, os que sabem sempre tudo, principalmente o que é (d)a vida do outro, e mais especificamente se estiver a passar um mau bocado. Logo se apressam a dizer que depois da tempestade vem a bonança, e que elas são tão fortes quanto passageiras... sem cuidarem de entender, ou se lembrarem sequer, que quem está a sofrer, sente profundamente cada pinga de chuva que lhe molha e estraga o presente e os sonhos... e que depois de um pingo de chuva vem, quase sempre, outro e outro... e só um pingo será o último...

As tragédias tendem a suceder-se mais do que a intercalar-se. Há quem viva uma vida inteira sem grande motivo para sorrir. Sem nunca ser feliz. Mas esse é, precisamente, alguém que merece mais do que os demais a admiração dos seus semelhantes. Admiração, porque heróis não são os que passam a vida a festejar, mas os que, ainda que cheios de frio, em noites escuras de trovoada, podendo até morrer à espera da manhã, acolhem a dor e a tristeza como coisas suas e vivem, apesar de tudo. De tudo. Com uma certeza: tudo tem sentido, mesmo quando não se sabe qual é.

Há homens e mulheres que passam as suas noites em desgraça viva e desperta, e enquanto os outros dormem, veem o nascer do sol e sonham... bastando-lhes por vezes apenas um breve pedaço de vento na face, que sentem como um beijo, para que mais forças apareçam de onde não as havia, e se enfrente ainda mais um dia, sofrendo, doendo, mas vivendo.

A tristeza, que tantas vezes se combate, é um estado de alma mais denso e puro do que se costuma considerar. É mais real. Fugir dele será fugir do duro caminho que nos fará caminhar felizes, ainda que por entre incontáveis sofrimentos, aparentemente sem sentido.

Os antigos acreditavam em deuses que invejavam os homens que, mortais, viviam sem que o medo da morte os fizesse recuar. Acreditavam também que não há vitória sem superação dos obstáculos, não há glória na fuga, nem na desgraça alheia. Hoje as gentes pensam de forma bem diferente. Dizem que basta, que há que reagir, para não nos deixarmos ir abaixo, que os momentos menos bons devem ser apenas oportunidades para o sucesso e outras tontices do mesmo nível. O sofrimento é muitas vezes maior, e mais honroso, precisamente porque quase ninguém quer saber do que sente quem sofre, até porque sendo partilhável é contagioso... Mas dois heróis serão sempre mais do que um e nenhum deles está só.

Se o leitor conhece alguém que sofre, sente-se ou deite-se ao seu lado e, sempre em silêncio, deixe-se ficar.

A dor aproxima-nos da perfeição.

"José Luís Nunes Martins, in 'Filosofias - 79 Reflexões'
Portugal n. 14 Mar 1971
Filósofo

Loumari disse...

Só nos curamos de um sofrimento depois de o haver suportado até ao fim.
(Marcel Proust)



Como é que eu faço por estar bem disposto, encontrando-me na verdade tão triste e miserável como vocês todos? Há várias técnicas. A mais importante é a técnica do «proporcionamento». Consiste em atribuir a um dado problema pessoal a proporção que tem no mundo. Há tanta gente a sofrer de verdade, a morrer, de fome, de doenças, de terramotos, que o nosso sofrimento, quando é publicamente exibido, é pequenino e obsceno.
(Miguel Esteves Cardoso)



O homem não pode fazer-se sem sofrer, pois é ao mesmo tempo o mármore o escultor.
(Alexis Carrel)


O sofrimento ainda pode servir para alguma coisa, desde que o tomemos sobre nós com o espírito de amor que o torna fecundo; mas fazer sofrer deixa na história um rasto de satanismo que dificilmente poderemos apagar.
(Agostinho Silva)