domingo, 27 de dezembro de 2015

Os Documentos do Araguaia, em nome da verdade


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S Azambuja

A revista “ISTO É” publica, em sua edição deste fim de semana (Nº 1830 – 03 Nov. 2004), matéria com o título “Os Documentos do Araguaia”, assinada pelo jornalista Hugo Studart.

No início da matéria, o jornalista afirma que “ISTO É” teve acesso a 37 documentos militares secretos ou confidenciais sobre a Guerrilha do Araguaia o que, segundo ele, contradiz afirmações do ministro da Defesa - José Viegas - e dos comandantes militares de que tais documentos tenham sido destruídos e, por isso, não podem ser abertos ao conhecimento público.

Afirma o jornalista que os papéis obtidos fazem parte de um longo dossiê, preparado pelos próprios militares, todos eles ex-integrantes dos órgãos de Inteligência que, ao longo de quatro anos, copiaram documentos que permanecem nos quartéis e recolheram outros que estavam escondidos nas residências de colegas. E, ainda, que para preencher lacunas, colheram entrevistas e depoimentos formais, gravados ou por escrito, com 27 militares que participaram dos combates, de cabo a general.
E, também, informa que “ISTO É” possui cópia das citadas gravações e de parte dos relatos escritos.
A matéria pode ser julgada excelente e pauta, com oportunidade, o momento adequado em que a mídia, junto com grupos de interesse – nacionais e não - , políticos aproveitadores e pessoas do governo buscam explorar o assunto, cada um tentando auferir suas próprias vantagens.
Porém, o mérito não pode deixar de ser atribuído a quem o tem.
E, tal mérito, não é de um grupo de laboriosos, enquadrados e descrentes militares – revoltados com não sei o quê ou arrependidos de não sei o quê.
É, em várias etapas ao longo dos últimos quatro anos, unicamente, do jornalista Hugo Studart.


Porque o “longo dossiê” não existe nessa forma e nem foi preparado a partir de cópias de documentos “que permanecem nos quartéis” ou “estavam escondidos nas residências dos colegas”.

MÉRITO – O jornalista recebeu, de um único militar, um trabalho escrito, sob o título “Ultrapassando a Guerrilha (a Guerrilha do Araguaia e outras guerrilhas)”, para que o utilizasse em sua tese do curso de Ciência Política da UNB ou o publicasse em livro. Como os radicais integrantes da banca examinadora exigiram a adaptação do trabalho a um enfoque político-ideológico e ao enaltecimento único dos militantes do PCdoB que estiveram no Araguaia, o que transformaria a tese em mais um panfleto similar a tantos já existentes, a imposição não foi aceita.

MÉRITO – Ao longo de quatro anos e sozinho, Hugo Studart – contratado pela “ISTOÉ” há pouco mais de um ano – pesquisou, encontrou, entrevistou e convenceu 27 militares da reserva a falar sobre o assunto, conseguindo gravar doze dos relatos que lhe foram feitos e obtendo cópias de relatórios de informações daquela época.

MÉRITO – Esse jornalista, embora tenha em mãos um documento de destacado valor para o que virá a ser mais uma página da nossa História sócio-política, continua a batalhar – e sozinho – para publicá-lo na forma fidedigna original (muito diferente do conteúdo publicado pela “ISTO É”) que, pela primeira vez, apresentaria os episódios ocorridos no Araguaia sob o enfoque descritivo e analítico dos atores oponentes e sob a visão estratégica militar daquele conflito armado.

Quanto ao texto da matéria publicada, fazem-se necessários alguns reparos a afirmações nele contidas e comentários sobre o que possam ter sido “enriquecimentos” do autor ou da redação.

Dois militares “que participaram da guerrilha” são apontados como os redatores finais do “Dossiê” e identificados por “seus codinomes da repressão”. Ora, aquele que o jornalista trata como “professor” jamais esteve na região do Araguaia, nem para pescar, antes, durante ou depois do período da chamada guerrilha.

Não “coube a ele identificar a maior parte dos mortos” já que, jamais tendo estado na região, não viu cadáveres nem suas fotos. 

Quanto à relação das vítimas, não foi produto de “um trabalhão” e nem do “instigar a memória dos companheiros que estiveram lá”. Ela é cópia da listagem oficial do Ministério da Justiça, da Comissão de Desaparecidos Políticos, e do site da Internet - www.mortosedesaparecidospolíticos.org.br.
Além disso, Carlos Ilich Azambuja nunca foi “codinome da repressão”. Trata-se de pseudônimo - como o de tantos outros jornalistas ou historiadores -, lançado há pouco mais de 15 anos, de um escritor e historiador da atualidade.

Em relação à citação do outro militar como “um dos dois oficiais de maior patente acampados na área”, houve um chamado “cochilo”, pois, se era tenente-coronel à época, como afirmado, certamente era muito moderno perante os generais e coronéis da ativa que lá estiveram nas diferentes fases das operações. 

O “professor Carlos Ilich Azambuja, a partir do início de 2004, em vários artigos publicados pelo sitemidiasemmascara.org, tem escrito sobre o que realmente aconteceu naqueles dois anos de luta armada na selva. Essa publicação, composta por 22 artigos, foi denominada pelo autor de Araguaia sem Máscara”numa evidente homenagem aos que aceitaram publicar os seus escritos. Não há comparação entre a história relatada no “Araguaia sem Máscara” e a versão jornalística da matéria da “ISTO É”. Pelo conteúdo dessa matéria jornalística, pode-se deduzir que esse chamado “Dossiê” em nada se assemelha ao que consta no livro virtual mencionado.

A morte de Dinalva Conceição de Oliveira Teixeira “Dina”, com apelo emocional muito bem colocado na matéria, não se deu da forma nela descrita, embora tal “gancho” pudesse ser oferecido ao seu colega jornalista Ronaldo Duque para melhorar o roteiro do filme sobre o tema. 
A lenda sobre ”Osvaldão”, tanto no papo dos fins de tarde e das biroscas locais quanto nas novidades e boatos veiculados pela “rede cipó”, não era que “virava lobisomem e outros tipos de assombração”, mas sim que se camuflava em fumaça enquanto a “Dina” virava folha.

Desejando que os comentários contribuam para a melhoria do rendimento desse “livro quase acabado”, o RESERVAER parabeniza o jornalista Hugo Studart pela perspicácia, persistência e tenacidade com que vem produzindo o trabalho, até o momento o único capaz de levar aos seus futuros leitores um conjunto de dados realísticos sobre a crítica aos que, àquela época, constitucionalmente, atuaram na pejorativamente denominada “repressão” dos órgãos governamentais à ideologia comunista e sobre a autocrítica dos que hoje persistem em reescrever a História do Brasil, à luz de um marxismo-leninismo tupiniquim já ultrapassado na história do mundo.

Finalmente, como escreveu Carlos Ilich Azambuja em um desses seus artigos, “Deve ser assinalado que o cadáver do comunismo permanece insepulto. Nesse sentido, devemos reconhecer que partidos concebidos para derrubar um sistema político-social e implantar outro, seu antípoda, forçosamente têm exigências distintas daquelas dos partidos tradicionais. O abandono dessas exigências implicaria na renúncia à ditadura do proletariado, ao partido único, à tutela do partido sobre o Estado, ao controle das pessoas, ao planejamento centralizado e à posse dos meios de produção. Para eles, os comunistas, no entanto, embora já passados mais de 10 anos do terremoto, o momento é ainda de depressão e de uma grande ressaca, pois, afinal, eles não abandonaram o comunismo. O comunismo foi quem os abandonou.” 

Carlos Ilich Santos Azambuja é Historiador.

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