terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Petrovale


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Henrique Abrão

A piora do momento econômico do Brasil é uma triste mas constatável realidade que aflige não apenas ao mercado, porém aos investidores, e causa temor nos minoritários, na perspectiva do efeito manada, de uma brusca saída de posições, vez que com 45 mil pontos, a credibilidade da bolsa é nenhuma e o órgão fiscalizador dificilmente conseguirá a ressuscitação das condições de governança corporativa, transparência e lisura dos negócios.

Bem assim, a Petrovale pode ser identificado como o maior prejuízo, de
bilhões, que contaminou toda a regra sistêmica as operações, duas blue chip que foram se pulverizando ao longo dos últimos anos. Hoje o papel da petro vale menos do que dois dólares e aquele da vale menos do que três dólares;

Ninguém, em sã consciência, sequer o melhor economista ou pessimista, como Nouriel Roubini, acertaria uma previsão dessa latitude e magnitude. Enquanto todas as bolsas sociais foram criadas, repaginadas e incentivas, em detrimento do dinheiro e gasto públicos, aquela de valores que
lida com as condições da economia e mantém acesas as esperanças de grandes e médias empresas. Foi literalmente destruída, e serão essenciais, no mínimo, cinco ou mais anos para que a confiança e credibilidade retorme a pleno fôlego.

Privatizar a petro seria o ideal mas há cinco anos atrás, não hoje, pois está literalmente sem liquidez e condições de explorar o próprio pré sal. Estatizar a vale não vale a pena, pois que o Estado mostrou as garras e sua enorme incompetência a qual atinge, em cascata, as empresas privadas de grande porte.

A derrocada de fortes empresas estatais cria um circulo vicioso pois que contagia as expectativas dos lucros de empresas que com ela negociam ou tem a previsão de alguma rentabilidade. Inacreditável, inimaginável,
e incogitável que os dois maiores papéis em 2007 que eram negociados entre 45 a 50 reais hoje fossem ser reduzidos a pó, e num mar de lagrimas e vale de trevas, já que os riscos da indenização da Samarco poderão atingir bilhões de dólares, se as ações coletivas vingarem.

Eis o retrato dramático de uma situação que se desenha no governo atual e que as autoridades não revelam a mínima preocupação.Tudo está normal, a democracia funciona, os empregos igualmente, e o rentismo deve ser asfixiado e morto custe o que custar. Dentro dessa onda vertiginosa de desvalorização dos papéis fundos estrangeiros fazem suas compras na bacia das almas e o capitalismo nacional, a cada dia, dá espaço para o internacional, são bilhões de fundos da Ásia e do Oriente que avançam fronteiras comprando posições e milhões de participações nas empresas brasileiras e direta ou indiretamente assumindo o próprio controle da organização societária.

De um lado um marasmo total no ano de 2015. Somente se falou
e sempre se orientou pelo impedimento Presidencial, e o crescimento com o desenvolvimento ambos foram colocados de lado como se a nossa economia não sentisse os respingos do modelo atual e da banalização de perdas bilionárias experimentadas por corporações.

A preço de banana se negociam hoje os papéis das duas maiores empresas brasileiras, uma estatal que teve seu monopólio quebrado e a outra que além das consequências da baixa dos preços das commodities transita no inferno boreal dos valores das indenizações decorrentes da catástrofe indizível deixando desvios e sulcos profundos na economia local e de outras regiões.

Ambos os fatores se explicam e se incorporam. De um lado a desabrida corrupção que matou a galinha dos ovos de ouro a Petrobras, transformada em maquina dos partidos e com o escopo de um projeto secular de poder, doutro a empresa privatizada há muitos anos atrás que teve um ritmo alucinante, mas entrou num engasgo total e hoje fica numa anestesia sem
grandes saltos de produção ou qualidade,apesar do espaço que ocupa no cenário internacional.

Perdem o mercado local, os investidores, acionistas minoritários que daqui para frente não receberão juros sobre capital ou os prometidos dividendos, aqueles obstinados em guardar poupanças ao longo de uma vida acreditando que as empresas participariam rentabilidade na aposentadoria cometeram um erro não estratégico, impensável e de pouca probabilidade naqueles tempos.

Com a mudança de mentalidade e a utilização da empresa para fins discutíveis ou duvidosas, deixou-se de lado a função social e se oPTou pela consequente necessidade de substituição da meritocracia pela disputa de cargos, propinas e um rombo de bilhões que manterá a estatal no balão
de oxigênio, senão na UTI pelo menos nos próximos cinco anos, e com a consequente imprevidência de diretores e administradores, caudatários da política do controlador de esmagar o minoritário e tudo resolver pelo caminho da arbitragem, como se fosse possível o ato ilícito ser alvo dessa discussão extrajudicial.

Machuca e muito autoestima do País, da sociedade, do mercado, dos investidores e dos acionistas se depararem com um mórbido quadro de morte súbita gerada e não criada de modo natural, mas pelo artificialismo de gorduras e sobrepreços, ou pela leniência e grave omissão em relação ao meio ambiente, corolário lógico da exploração da atividade mineradora de forma predatória.

Contaminam-se rios, lagos, até mares, matam-se toneladas de peixe,
e tudo isso provocado pela falta de fiscalização, atenção do poder público e das autoridades, sob a ótica da licença, da própria autorização e dos prazos de validade. Convivemos com esse ambiente poluído e decepcionante do mercado de capitais, sem volta, mas que deixará profundas consequencias, dentre as quais a inibição da abertura de capital e o maior número de empresas abertas fechando.

Somos um mercado pequeno, no qual temos 12 papeis de ponta, contra uma economia americana de mil papéis, ou européia de igual monta, o desastre que incendeia o mercado de capitais poderá ser o rastro de pólvora a implodir, de uma vez por todas, a debilitada economia do Brasil, se medidas urgentes e inadiáveis não forem implementas ainda no final de 2015.


Carlos Henrique Abrão, Doutor em Direito pela USP com Especialização em Paris, é Desembargador no Tribunal de Justiça de São Paulo.

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