sábado, 26 de dezembro de 2015

Que a Força esteja conosco

Darth Vader: vilão de Star Wars

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Pedro Dória

San Francisco, a cidade, fica ao norte, na ponta de uma península que se estende para além da Califórnia na direção do Pacífico. A península já teve muitos nomes. No centro, uma cadeia de montanhas trilha no curso da falha de San Andreas, que tantos terremotos provoca. Abaixo das montanhas há um vale. Nós o chamamos Vale do Silício. Mas, no contexto maior, quem é da Califórnia chama toda a região que circunda a cidade de Bay Area. Em finais dos anos 1970, não foi só a indústria dos computadores pessoais que nasceu na área daquela baía. Foi também uma saga de jedis e sabres de luz. Região que atrai talentos e consolida gênios. Steve Jobs, Mark Zuckerberg, os rapazes do Google. Mas há uma pergunta mais difícil de responder aí: George Lucas, o criador de Guerra nas Estrelas, deveria entrar na lista dos gênios da Bay Area?

Guerra nas Estrelas é parte crucial da cultura popular na região em que tantas cabeças se dedicam a desenvolver a relação entre gente e tecnologia. Havia ficção-científica antes da estreia do primeiro filme. Jamais, porém, ficção-científica tocou em tanta gente em tantos lugares. Não é à toa que tenha ocorrido justamente na época em que o digital começava, lentamente, a fazer parte de nossas vidas. Tampouco há de ser à toa que filmes e indústria nasceram a tão poucos quilômetros de distância. A Nasa já tinha instalações ali perto. O lugar já era sede mundial da criação de microchips. O tema já fazia parte das conversas de bar, de sala de aula, já fora inscrito na cultura local.

O que faz um gênio? Steve Jobs era brilhante em negócios. Entendia o suficiente da cabeça das pessoas para desenvolver produtos que elas iam querer comprar. Jobs sabia vender. Quando negociava com a Fox o contrato do primeiro filme, George Lucas prestou particular atenção em parágrafos sobre bonequinhos, camisetas e canecas. Ninguém ligava para isso em Hollywood. Mas ele, Lucas, intuía que estava criando uma mitologia que fascinaria crianças para muito além dos filmes. Ele via o negócio do cinema de forma inovadora. Os Estúdios Disney tinham alguma experiência com essa vertente, mas era um exemplo isolado. Neste sentido, no do homem capaz de erguer do zero um negócio radicalmente inovador, George Lucas tem o mesmo tamanho de seus conterrâneos.

Artisticamente é mais difícil dizer. Guerra nas Estrelas é uma costura de referências. A estrutura de sua história vem das narrativas míticas que todas as culturas humanas têm. Os detalhes misturam de tudo. Religiões orientais, muito populares nos anos 1960 da Califórnia. Samurais do mestre diretor Akira Kurosawa. Desfiles nazistas documentados por Leni Riefenstahl. E dilemas políticos que mobilizavam sua geração: a Guerra do Vietnã. Se Darth Vader veste uma armadura samurai, o imperador é um misto de Richard Nixon com Ronald Reagan e senta-se numa sala do trono oval. Os ursinhos Ewoks são o vietcongue, com suas armas primitivas contra um império. O vilão em Guerra nas Estrelas pode parecer nazista, mas na verdade é americano.

Lucas criou uma mitologia que cumpre a função de mitos: faz vibrar a imaginação. E, no entanto, é quase incapaz de contar uma boa história. Os melhores filmes da série são aqueles que têm menos de sua mão. Mas a sua é, também, uma história daquele naco transformador do mundo. Hoje é Natal, pois. Prezados leitores, que a Força esteja com vocês. E que 2016 nos seja leve.


Pedro Dória, Jornalista, é Editor-Executivo de O Globo, onde o artigo foi originalmente publicado em 25 de Dezembro de 2015.

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