domingo, 3 de janeiro de 2016

"1984", de George Orwell


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Abaixo uma resenha do livro “1984”, escrito por George Orwell, um ex-comunista que viu a VERDADE e denunciou as mazelas do sistema. Isso nos anos 40! Não sei quem foi o autor do texto.
Guerra civil na guerra civil
 
George Orwell estava se recuperando em Barcelona quando assistiu, em junho de 1937, a liquidação, por fuzilamento ou encarceramento, do POUM (uma milícia pró-trotskista que foi colocada na ilegalidade pelos comunistas espanhóis, supervisionados pela GPU de Stalin). As batalhas de rua travadas entre os socialistas e comunistas contra os anarquistas e os integrantes do POUM (Partido Obrero de Unificación Marxista) foram por ele vivamente registradas nas páginas do seu Homage to Catalonia (Lutando na Espanha, pela tradução brasileira feita pela Editora Civilização Brasileira), escrito logo após a sua volta a Londres.

Aquela absurda carnificina entre as esquerdas, que se tiroteavam e se ofendiam em frente a um inimigo comum, foi o resultado da política stalinista. Stalin, o ditador soviético, na época dos processos de Moscou, tinha transferido sua luta contra Trotski e outros oposicionistas, para dentro da guerra civil da Espanha. Como era ele quem abastecia os republicanos espanhóis com as armas e suprimentos com que lutavam contra Franco, ninguém pôde demovê-lo da intenção de exterminar com os dissidentes, ainda que, até aquele momento, lutassem ombro a ombro contra o inimigo comum.

Livros de um desiludido
 
Abalado, Orwell, retornando à Grã-Bretanha, aos poucos arquitetou a vingança contra os comunistas. Primeiro foi a sátira Animal Farm (A Revolução dos Bichos), publicada em 1945, no qual, à moda de La Fontaine, que socorria-se de histórias de bichos para expor os homens, fez uma devastadora crítica ao regime soviético. Livrinho, diga-se, que correu o mundo alimentado pelas paixões acesas pela guerra-fria. Em seguida, em 1949, um ano antes de morrer tuberculoso, editou o Nineteen Eigthy-Four ("1984"), o grande clássico da desilusão de um esquerdista com o comunismo.

A anti-utopia

Inspirado na pequena novela Nós de Eugênio Zamiatin, de 1920/1, escrita em plena União Soviética, Orwell, com recursos literários bem superiores, colocou o regime de Stalin sob execração universal.
 
Enquanto o ex-bolchevique Zamiatin, que foi o verdadeiro profeta da sociedade anti-utópica, chamou de benfeitor o ditador do seu Estado Uno, Orwell batizou-o de Big Brother. Era o Grande Irmão, que tudo via, tudo sabia e tudo previa, o invisível senhor de uma máquina política totalitária que movia guerra ao mundo e aos seus poucos opositores. Também recorreu a outro best-seller da distopia (isto é uma anti-utopia ou contra-utopia, que visualiza o futuro como um pesadelo), o Brave New World, o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, que descrevia o funcionamento de uma sociedade pavloviana inteiramente controlada por recursos biológicos e farmacêuticos, publicado em 1931.

Tendo o controle das comunicações, fazendo da televisão, omnipresente, o seu poderoso olho policial, oGrande Irmão dobrava todos à sua vontade. O lema do regime era Big Brother is Watching You, o Grande Irmão te Vigia. Nada, portanto, lhe escapava. Invertendo a lógica do aparelho televisor, obrigatoriamente ligado, sem outras alternativas de programas, era por meio do tubo que ele controlava os cidadãos rebaixados a servos obedientes.
 
Um idioma próprio
 


A coesão interna do sistema era obtida não só pela opressão. Lá fora, além do perímetro da Oceania, como Orwell designou aquele paraíso da repressão, o regime enfrentava os seus inimigos eternos sustentando uma guerra interminável na Eurásia e na Eastasia, tudo justificado pela invenção de uma nova linguagem: a novilíngua. Este idioma totalitário, obra-prima dos filólogos a serviço do Grande Irmão - parente próximo do politicamente correto dos nossos dias -, tinha o dom de transmudar em outra coisa todas as palavras com significado desagradável ao regime.

Não contente com isso, o Grande Irmão, para extravasar as emoções, promovia sessões de ódio, nas quais, numa tela gigante, aparecia a imagem do principal inimigo dele (Trotski) para que todos descarregassem a fúria sobre aquele satã. Situações estas intercaladas com outras cenas enternecedoras, nas quais os súditos, perfeitamente lubrificados pela eficaz e condicionante engrenagem da propaganda, lançavam loas e agradecimentos mil ao Grande Irmão.

As intenções gerais de Orwell

Além de ser uma espécie de acerto de contas com o regime comunista, Orwell pretendeu com o livro 1984tecer certas considerações sobre a experiência socialista até então conhecida. Basicamente ele assegurou que:

- a guerra, movida perpetuamente pelo regime, era importante para consumir os produtos do trabalho humano, pois se tal tipo de trabalho for usado para incrementar o padrão de vida, o controle do partido sobre o povo decai, pois a guerra é a base de uma sociedade hierárquica. Logo, a paranóia do regime stalinista tinha uma função clara de mobilizar os recursos nacionais permanentes em função da interminável guerra contra o capitalismo, servindo isto de pretexto para a continuidade da ditadura partidária e do domínio absoluto do chefe sobre o todo.

- havia uma necessidade emocional em acreditar na vitória final do Grande Irmão. Para poder suportar o clima opressivo, as mentes deveriam estar concentradas numa perspectiva psicológica otimista.

- a guerra contínua tinha a função de garantir a ordem interna do regime. Desta forma Guerra significava Paz.

- havia sempre três grandes graus na sociedade, o alto, o do meio e o de baixo, e nenhuma mudança afetou um milímetro sequer a desigualdade humana.

- coletivismo não significa socialismo. Agora a riqueza pertence a uma nova "classe alta", formada pela burocracia e pelos administradores . O coletivismo assegurou a permanente desigualdade.

- a riqueza não é transmitida de pessoa a pessoa, mas controlada pelo grupo dominante.

- as massas, (os ditos "proles" do livro de Orwell) ganharam liberdade de pensamento porque elas não pensam! O membro do partido não está autorizado a qualquer desvio de pensamento, havendo um treinamento mental para assegurar que isso não ocorra, um treinamento que pode ser sintetizado na concepção do duplo pensar, que faz com que a realidade sempre seja moldada de acordo com a teoria ou com as decisões programáticas do partido. 


O fim do totalitarismo
 
Orwell, como todos os demais escritores da distopia, era um pessimista que viu o futuro desesperançado. O Estado moderno, particularmente os de regime socialista, o do impessoal Grande Irmão, havia desenvolvido tamanha capacitação de controle sobre o coração e a mente dos indivíduos que era impossível pô-lo abaixo.

É de se supor que Orwell jamais imaginou, quarenta anos depois do seu livro, como os acontecimentos de 1989 demonstraram, que aquele Estado terminasse, no final das contas, por ser demolido pelas massas trabalhadoras. Foram eles, os filhos diletos do Grande Irmão, que saíram às ruas de Gdansk, de Varsóvia, de Berlim, de Praga e, por fim, de Moscou mesmo, para pôr um basta naquilo tudo.

Orwell foi, de fato, socialista, a vida toda. Um socialista idealista, não "patife" como muitos que conhecemos.  O que não o impediu de criticar Stálin e os crimes cometidos pelo comunismo. E denunciar a falácia das revoluções e do totalitarismo.
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Para não perder tempo com minhas palavras, sugiro que os kamaradas releiam no livro "A Verdade das Mentiras" de Vargas LLosa, o ensaio sobre a obra "Animal Farm", com "1984" também sendo referido. Isso em português. 

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Loumari disse...

O Amor Encontra-se nas Coisas Simples

É mais fácil programar supercomputadores, gerir grandes empresas, cumprir elevadas metas profissionais, do que construir relações saudáveis regadas com um sublime amor. Houve brilhantes intelectuais que quiseram conquistar o amor com a sua cultura, mas ele disse: «Encontro-me nas coisas simples e anónimas!» Houve milionários que quiseram comprá-lo com dinheiro, mas ele declarou: «Não estou à venda!» Alguns generais quiseram dominá-lo com armas, mas ele afirmou: «Só floresço no terreno da espontaneidade!» Os políticos tentaram seduzi-lo com o seu poder, mas o amor bradou: «O poder asfixia-me.» Houve pessoas célebres que quiseram envolvê-lo com a fama, mas ele sem hesitar comentou: «A fama nunca me poderá seduzir.»

"Augusto Cury, in 'Mulheres Inteligentes, Relações Saudáveis'
Brasil n. 2 Out 1958
Psiquiatra/Escritor