sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Dois Pesos


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Renato Sant'Ana

O noticiário da TV exibia matéria com um jogador de futebol que, por decoro, não nomearei. Mostrava a vida privada do rapaz, aquilo que a crônica esportiva costuma chamar de "extra-campo", excessos, festas, orgias, esbanjamento de dinheiro com frivolidades, a total falta de regras. Nem tudo era dito. Mas a imaginação sacava os detalhes... Ali estava um jovem nascido na favela; que, por um grande talento como jogador, ganhou uma fortuna; e que, tão precocemente, era o retrato da decadência.

Foi então que um camarada meu, quebrando o silêncio, fez um comentário: "Esse rapaz vai acabar na favela. E é bem feito!" Surpreso com aquele juízo inquisitório, perguntei "por quê?". A resposta veio de bate-pronto: "Ele teve todas as oportunidades na vida! Um cara que já jogou na seleção, que ficou rico, famoso e virou celebridade, agora faz essa palhaçada... Tem mais é que se ralar!"

Faz tempos que isso aconteceu. Mas a memória - que às vezes atua por conta própria e junta o que foi dito ontem com o que se fala hoje -, havendo registrado aquele momento, permitiu uma comparação. Aquele mesmo sujeito agora se manifesta sobre um vídeo em que Chico Buarque conta, sem qualquer cerimônia nem um pingo de autocrítica, que foi um delinquente na juventude quando, por diversão, costumava roubar carros ou simplesmente depredar os carros dos outros.

Achei estranho. É que o meu amigo inquisidor logo soube de que lado
ficar: acha muito natural tanto os desvios da juventude quanto, frise-se, as atitudes atuais do nosso menestrel das ditaduras. Para ele, a delinquência do Chico Buarque é mera garotice, algo como tocar a campainha do vizinho e se esconder.

O paralelo é inevitável. De um ex-favelado, de um pobre-diabo - que ganhou dinheiro e fama, mas que nunca deixou de ser pobre-diabo -, de um espírito que não teve qualquer polimento ele cobra. Ou mais que isso, quase lhe roga uma praga, parecendo animado ao prever a ruína do infeliz.

Já de um Chico Buarque, bem-nascido, que teve um pai culto e biblioteca em casa, aluno das melhores escolas, que estudou na Europa, que jamais (jamais!) soube o que é passar qualquer privação, dessa celebridade ideológica ele nada cobra, nada censura. Pelo contrário, é para com ele muito condescendente. Tudo perdoa. Ao ponto de justificar a conduta antissocial do burguesinho inconsequente.

Não se trata aqui, absolutamente, de superdimensionar as transgressões do adolescente filho de Sérgio Buarque. Mas é de notar-se que o incensado autor de músicas militantes contou tudo como se fosse a coisa mais natural do mundo. Até porque, embora setentão, em matéria de política e de crítica social, Chico segue com as mesmas crenças juvenis dos seus 20 anos. Não cresceu.

Terá o meu camarada consciência de sua contradição? Não sei. Mas sei bem, isto sim, por que é que ele mede Chico Buarque com a régua da exceção. Estão ambos irmanados numa ideologia que contempla, entre outras indignidades, dois lamentáveis fundamentos em se tratando de apreciar condutas abusivas: por um lado, o que é gravíssimo, considera existirem abusos do bem e abusos do mal; por outro, igualmente execrável, admite julgar o autor em vez de julgar o fato. E na lógica do "ele é dos nossos", o que quer que faça Chico Buarque merece absolvição sumária.

É nisso que dá ter uma bandeirinha, seja ela clubística, ideológica ou corporativa: o equilíbrio vai pelo ralo.


Renato Sant'Ana é Psicólogo e Bacharel em Direito.

3 comentários:

Maria Klyw disse...

Chico Buarque? O "vovô" das esquerdas já era, mas a velhice cai-lhe mal... defende a corja que rouba o Brasil. Vai, Chico, já deu! Só que "Apesar de você, amanhã será um novo dia... "

Martim Berto Fuchs disse...

Chico Buate da Iolanda roubava carros na juventude e está com o PT e não abre ? Pelo menos ele é coerente. Continua onde se dá melhor.

O Libertário disse...

Beleza de texto> Coisas que precisam ser ditas em alta voz.