quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Gramsci e o Presidente Militar inocente útil do Brasil


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo foi escrito, há tempos, por um prezado Kamarada,
companheiro no combate à guerra suja nos chamados anos de chumbo. Ele preferiu manter-se incógnito e o assina com o expressivo codinome de Charles Louis de Secondat – Barão de la Bréde e de Montesquieu II. Eu apenas o estou repassando, enquanto é tempo, por concordar com tudo o que ali está escrito.

"O presidente-militar de então (durante os anos da guerra suja) e o outro que o sucedeu não retiveram alguma reserva dissuasória, entregaram os destinos da nação aos inimigos da democracia sem exigir recibo e garantia de devolução se saíssem dos trilhos, contrariando, sem mais nem porquê, as aspirações dos revolucionários de 1964. Julgavam-se senhores da verdade e da sapiência e agiram como tal."

Faço coro com as palavras acima, do texto ‘Promessa cumprida’, do ilustre escritor e filósofo Olavo de Carvalho, porém com ressalvas.

O mestre engana-se quando diz que “os luminares dos serviços de “inteligência militares só enxergavam um adversário inofensivo, cansado de guerra, ansioso de paz e democracia, quase um amigo, enfim.”

Errou. Os analistas dos serviços militares de Inteligência, assim como os seus chefes, cansaram-se de advertir, através dos Ministros Militares, os Presidentes da República quanto à execução de um processo gramsciano de tomada do Poder.

Falaram às pedras, porque esses clientes preferenciais dos Serviços de Inteligência não tinham capacidade de absorver as advertências que lhes chegavam às mãos.

Todos tinham sido militares de escol e alguns ostentavam, com justo orgulho, a condição de tríceps coroados, isto é, haviam sido os primeiros alunos das suas turmas nos Cursos de Formação, Aperfeiçoamento e Estado-Maior do Exército.

Não se pode atribuir-lhes culpa pelo excesso de ignorância no que se refere a matérias, por assim dizer, de natureza ideológica-política-cultural. Eles não tiveram aulas dessas coisas.

Haviam estudado cálculo, mecânica, termodinâmica, administração, contabilidade, línguas, balística, operações militares, e mais dezenas de matérias, mas para eles o italiano Antônio Gramsci não passava, talvez, de um ex-jogador do Roma ou de um compositor de óperas, algum contemporâneo de Puccini, ou seria de Verdi, quem sabe um ator que ganhou um Oscar de coadjuvante quando contracenou com Luciano Pavarotti em Rigoletto? Os sons de La Donna e Mobile lhes eram familiares...

Olavo de Carvalho, em seu artigo, tem meia razão quando diz que “Os militares, que em matéria de guerra cultural eram menos que amadores, nada perceberam.”

Por que só meia razão?

Porque Olavo generalizou quando colocou todos os militares na mesma escola.

Explico.

Decorridos menos de três anos do início das atividades guerrilheiras, os órgãos de Inteligência das Forças Armadas, além de já disporem do pleno conhecimento de como agiam e de como estavam estruturadas as organizações terroristas, haviam feito o que podemos chamar de cursos de graduação, pós-graduação e mestrado em Movimento Comunista Internacional, com especialização no Brasil.

Quatro anos mais tarde, haviam concluído o Doutorado, ‘summa cum laude’.

Esse aprendizado não se deu à custa de porrada e de tortura como, de antemão, a © Omissão da Verdade concluiu desde hoje aquilo que oficialmente só concluirá, falsamente, daqui a dois anos (copyright by Olavo). Acerca desse fenômeno, Olavo está certo. Mas acrescento que o Brasil, fazendo pouco caso do filósofo alemão Edmund Husserl, acaba de registrar patente fenomenológica internacional. 

O Doutorado foi obtido porque os Órgãos de Inteligência se dedicaram a conhecer o inimigo ao extremo, estudando e analisando a vasta documentação que era apreendida com os terroristas na ocasião das prisões e nos seus redutos clandestinos.

Não raras vezes, e nisso Olavo de Carvalho acertou, os presos tornaram-se “quase amigos” dos militares de Inteligência. Era preciso conhecer cada vez mais o inimigo, esclarecer dúvidas e muitas vezes deslindar, filosoficamente, o âmago das resoluções dos comitês centrais das dezenas de organizações subversivas que foram sendo criadas e ramificadas. Para isso, os Analistas de Inteligência procurava estabelecer laços afetivos com os presos. Quem assistisse as demoradas conversas travadas entre eles até poderia acreditar que se tratava de uma troca de conhecimentos entre estudantes visando prepararem-se para exame vestibular.

Nota: essas demoradas conversas não ocorriam com presos pé-de-chinelo, a exemplo da companheira Dilma, uma moça ‘desletrada’, incapaz de discutir profundamente a doutrina e a praxis comunistas. Guardadas as devidas proporções e intenções, ela não passava de uma pivete soldado do tráfico, como hoje conhecemos.

Note-se que logo após as prisões, os guerrilheiros, já tendo delatado os seus companheiros, o que fizeram com inacreditável despudor, nada mais tinham, sobre princípios e doutrinas, a esconder das forças de segurança. Haviam, conforme o jargão da época, desbundado. A partir desses momentos, mostravam-se ávidos em justificar os motivos que os levaram à tentativa de fazer eclodir uma revolução destinada à implantação de uma república comunista. E assim, de conversa em conversa, da vã filosofia ao exame de questões realmente relevantes, afloraram revelações que permitiram entender como se daria, ao longo do tempo, curso ao processo gramscista de tomada do poder.

Porém os Analistas de Inteligência não gozavam de alguma prerrogativa que lhes facultasse sugerir aos velhos comandantes, que, como Olavo de Carvalho acentua, lessem os Cadernos do Cárcere de um certo Antônio Gramsci, que não tinha sido jogador do Roma ou tenor consagrado.

Havia entre eles, quase todos jovens tenentes, capitães e majores, e os velhos generais-presidentes, um abismo político-cultural muito grande. Por mais que os serviços de Inteligência divulgassem boletins mensais de Inteligência, às vezes volumosos, analisando, depurando e resumindo as atividades do inimigo e os seus planos de dominação de mentes e corações visando a implantação, a longo prazo, de um regime comunista, nunca foram convocados  para descrever e explicar-lhes, didaticamente, o cenário que se avizinhava. Aos Oficiais de Inteligência nunca foi dada a oportunidade de oferecer aos presidentes respostas aos chamados interrogantes básicos: o que, como, quem, onde, quando, etc.

Tais autoridades  preocupavam-se mais em ver em Woodstocky apenas o que era divulgado pela mídia cooptada pelo MCI.

Preocupavam-se com as drogas, as bebidas e a suruba campal hipercoletiva, mas faltava-lhes olhos para ver o processo que se desenrolava além das imagens divulgadas pela mídia internacional. Reverberavam opiniões moralistas e revoltavam-se contra os que confundiam liberdade com libertinagem. Mas não se preocuparam além da conta. Afinal, se viam nos jovens militares de Inteligência um enorme contingente de Agentes 007 capazes de dar cabo dos mais espertos espiões da NKVD  -- muito mais treinados e perigosos do que aqueles milhares de jovens que cometiam seqüestros, assaltos e assassinatos -- seria tarefa café pequeno neutralizar as organizações subversivas. Na realidade, a neutralização das ações, devido ao apoio que recebiam da Rússia, de Cuba e da China, não se deu assim com tanta facilidade, mas ao cabo de anos atingiu o seu objetivo.

Contudo, os presidentes-militares esqueceram-se de que os centros militares de Inteligência não passavam de órgãos de assessoramento e de operações de Inteligência. Não lhes cabia, visando a neutralização do processo gramscista, a execução de medidas de Contra-Inteligência, que teriam que ir muito além dos muros dos quartéis. Envolveriam ministérios civis e organizações subordinadas. E verbas consideráveis.

Cabia ao Supremo Mandatário criar um órgão e fornecer recursos de toda a ordem necessários à execução dessa campanha na qual teriam que estar engajados especialistas em relações públicas, como eram chamados aqueles que, anos mais tarde, teriam a especialização que hoje denominamos marketing.

Mas como poderiam tê-lo criado se desconheciam o inimigo, se desconheciam a necessidade da sua criação?

Não lhes bastava ter passado os olhos nos 29 Cadernos do Cárcere, como sugere Olavo, porque Gramsci não pode ser lido como quem lê gibi. Seria necessário refletir sobre todas as suas colocações, sobre planos de ação contínua, a ação católica, a ação nos sindicatos. Os presidentes não tinham tempo para isso...

No segmento de Inteligência Militar, o documento mais valioso recebe a denominação de Documento de Inteligência Estimada - DIE.

Nele, além da descrição do panorama em curso, estimam-se as hipóteses adversas que poderão advir se não forem tomadas determinadas medidas.

Foi um documento com essa característica, oriundo do Ministério da Aeronáutica, que um dia chegou às mãos de um presidente militar que entendia muito de petróleo.

O presidente não gostou do que leu, que contrariava tudo aquilo que julgava adequado ao futuro da Nação.

Deu um vigoroso soco na mesa e determinou ao Ministro da Aeronáutica que destituísse da chefia do seu Centro de Inteligência  o major-brigadeiro que lhe encaminhara o DIE . A ordem não foi cumprida!

E desprezando todas as advertências oriundas dos Centros de Inteligência que lhes tinham, durante anos, sido endereçadas, decidiu pela adoção de uma manobra política que denominou de “abertura política lenta, segura e gradual”.

Os modus faciendi e operandi dessa abertura eram tão canhestros e propícios aos projetos gramscianos, que, com certo grau de acerto, podemos ver naquele mandatário o Presidente Militar Inocente Útil do Brasil.

Antônio Gramsci, lá no fundo do seu pequeno túmulo onde jazia desde 1937, no cemitério romano, regozijou-se, porque vislumbrou que em tal abertura havia campo fértil para a disseminação da dialética-marxista, sobre "um contínuo e progressivo fazer-se."

Seguiram-se pequenos agravos sucessivos de baixa intensidade, que não foram capazes de despertar, individualmente, maiores reações,

Esse silêncio e essa omissão se deram por ignorância da metodologia empregada para a tomada do Poder. Desconheciam a natureza da subversão gramsciana, que também é de aplicação lenta, segura e gradual.

Gramsci sabia que o presidente de então e os que lhe sucederiam não seriam capazes, por incompetência, de neutralizá-la conforme o figurino há muito desenhado pelo general chinês Sun-Tzu, aquele que nos fala “se conheceis o inimigo...”.  

Estava certo. O presidente-militar de então e o outro que o sucedeu não retiveram alguma reserva dissuasória. Deram curso ao projeto de abertura entregando os destinos da nação aos inimigos da democracia sem exigir recibo e garantia de devolução se saíssem dos trilhos, contrariando, sem mais nem porquê, as aspirações dos revolucionários de 1964. Julgavam-se senhores da verdade e da sapiência e agiram como tal.

Gramsci previu que os comunistas que estudassem e pusessem em prática, pelo menos em parte, tudo o que lhes ensinara nos Cadernos do Cárcere, seriam capazes de levar adiante as suas idéias. E foram.

Continuaram ocorrendo os mesmos pequenos agravos sucessivos de baixa intensidade aos quais me referi, sem que, devido à miopia dos Comandantes e dos seus Estados-Maiores, fossem capazes de despertar, coletivamente, nos oficiais-generais, as reações de que a verdadeira democracia carece, e o povo, que os tem em alta conta, exige.

Assim, continuamos a assistir, ano após ano, a execução do processo idealizado por Gramsci.

Até quando durará?

Quando se dará por consumado?

Não sabemos.

Senhores generais, tenham em conta que, se na ópera de Verdi a mulher é volúvel (La donna e mobile), na de Gramsci, comprovadamente, a revolução comunista não se afasta, lenta, segura e gradualmente, do rumo traçado.

Cabe aos senhores, sem o emprego efetivo das Forças Armadas, mas com o da razão e da dissuasória, chamar aos costumes quem está saindo dos trilhos.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

fonseca disse...


Então, e agora???????
Ficamos na "demôniocracia" ou instituímos pela força subterrânea uma nova democracia.
No meu entender, somente eliminações seletivas neste "quadro" atual, pode resolver o problema a curto prazo.!!!.