sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O Banco Central traiu o Mercado


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arthur Jorge Costa Pinto

O COPOM (Comitê de Política Monetária) do BC (Banco Central do Brasil) vem mantendo os juros básicos há quatro reuniões consecutivas desde setembro passado (14,25% ao ano), no maior nível desde outubro de 2006.

Diversos analistas financeiros com formação ortodoxa e heterodoxa, sem contrariarem seus princípios, defenderam amplamente que não deveriam alterar a taxa de juros no momento, em função da aguda recessão que atravessamos e que nos aproxima de uma grave depressão econômica, com ampliação do desemprego; por outro lado, os choques fiscais nos juros relativos à dívida bruta podem ocasionar um resultado contraprodutivo, relacionado ao aspecto do controle inflacionário com poder de enfurecer a depreciação cambial, sem querer ainda comparar a uma “dominância fiscal”.

Acontece que esta decisão tomada há poucos dias atrás pelo BC não corresponde a uma situação usual, no pleno exercício de política monetária; consequentemente, esta determinação de manter a Selic estacionada tem contra ela dois pontos relevantes e preocupantes.

O primeiro está relacionado à própria divulgação do BC, que criou novamente uma forte expectativa, direcionando a meta de inflação para diferentes prazos. Desde final de setembro passado, o órgão até que buscou construir um “ambiente” de receptividade para adotar um ciclo de alta mais amena no decorrer deste ano.

No entanto, foi retirada da comunicação do BC que a Selic (taxa básica de juros) seria conservada “por um período suficientemente prolongado”, o que era uma possível estratégia para a convergência da inflação para meta.
No último encontro do COPOM, em novembro passado, segundo seu relatório, houve dois votos favoráveis - Sidnei Corrêa Marques da Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e Tony Volpon da Diretoria Internacional para aumentá-la (50 pontos-base), por entenderem que os juros atuais são insuficientes para segurar a inflação ou talvez como uma tentativa de descartar a ideia de “dominância fiscal”;entretanto, os outros quatro membros restantes decidiram mantê-la.

Conscientes de que seria impossível ser cumprido o centro da meta de inflação (4,5%) neste exercício, o BC imediatamente procurou evitar que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) furasse o limite máximo do teto previsto (6,5%). Continuaram contestando o fato de estarmos envoltos em uma “dominância fiscal” e deixaram uma pista de que, ao menos, encontram-se sensíveis na recuperação do juro real, que foi corroído pela inflação mais elevada do que imaginaram.


De acordo com o RTI (Relatório Trimestral de Inflação) de dezembro de 2015,ficou sinalizado, com clareza, que existem 40% de probabilidade do IPCA ultrapassar o teto da meta em 2016 e ainda houve projeçãodo índice para 2017 em 4,8% a 4,9%, acima do centro dela.

É importante colocar que o BC, nos últimos meses, demonstrou uniformidade na sua comunicação, mostrando um início de um ciclo de alta para este exato momento. Com isso, o próprio COPOM incutiu no mercado que, diante do agravamento no ambiente da inflação com a desvalorização acentuada do câmbio e o descolamento das perspectivas, o ciclo moderado de alta neste início de 2016 foi considerado o mais factível. Abandonando inesperadamente essa trajetória, à véspera da reunião do COPOM, os “aloprados” acabaram por provocar uma turbulência no mercado, relacionada com a questão das expectativas, acarretando um novo panorama para a inflação.

Nisso tudo, dá para pressentir que há uma correlação com o segundo ponto, quanto à manutenção da Selic não ser atualmente oportuno. Com a saída de Joaquim Levy do Ministério da Fazenda e o deslocamento do servil Nelson Barbosa (visão heterodoxa) da pasta do Planejamento para ocupar seu lugar, as especulações na área econômica tornaram-se centro das atenções, uma vez que estaria de volta a famigerada política econômica que destruiu nossa economia, conhecida mundialmente como “nova matriz macroeconômica brasileira”.

Por sua vez, naquela época, presenciamos uma euforia total, causada exclusivamente por uma sensação de que o BC teria perdido a sua autonomia e a queda da Selic até o seu mínimo histórico de 7,25% (outubro de 2012), teria sido conspirada e induzida exclusivamente pela cúpula da seita petista.


Portanto, esta decisão de não elevar a Selic nesta última reunião deverá ter um efeito nocivo sobre as expectativas, não só por divergir frontalmente de uma estratégia já confirmada pelo BC e vendida aos agentes econômicos até bem recentemente, como também fomentar a ideia de que há, outra vez, a perda de autonomia da autoridade monetária.

A grande questão diante de tudo é que a instituição fica com sua credibilidade totalmente comprometida na atual gestão, a qualidade da política econômica completamente deteriorada e o mercado teme a adoção de uma política monetária e fiscal mais frouxa para incentivar a retomada do crescimento. O economista Joseph Stiglitz (Premio Nobel de Economia 2001), em recente entrevista, declarou que a política da autoridade monetária brasileira no momento está totalmente equivocada o: “BC no Brasil estrangula a economia”.

Oficializada a inflação brasileira de dois dígitos - 10,67%, a maior desde 2002, alcançada no período de 2015, imediatamente o burocrata Alexandre Tombini (presidente do BC), em 08.01.16, cumprindo sua obrigação, encaminhou uma carta aberta ao Ministro de Estado da Fazenda, divulgando publicamente as razões pelas quais o teto superior da meta inflacionária foi irresponsavelmente e violentamente desvirginado.

Nela não conseguiu comprovar com a clareza devida os verdadeiros motivos que causaram esta tragédia, responsabilizando o atual desgoverno por algumas questões equivocadas. Mas o fato é que o BC também não fez sua parte, nem tampouco, no documento,abordou com consistência as efetivas medidas que serão tomadas para restabelecer a inflação para a proximidade da meta de 4,5%.

Logo após, diante da credibilidade que seu cargo impõe, deveria ter um mínimo de sensibilidade com o princípio da transparência quando deixou passar uma ótima oportunidade para o BC desmontar essa traiçoeira e contraditória armadilha que foi criada em sua comunicação e que parece ter sido abençoada pelo novo ministro da Fazenda, ou, até mesmo, firmando sempre a estratégia do ciclo moderado de alta.Poderia até surpreender, trazendo antecipadamente argumentos eminentemente técnicos e extremamente convincentes para manter a Selic neste patamar, dada à deterioração evidente das expectativas diante da sua própria comunicação anterior.

A melhor ferramenta para controlar as expectativas inflacionárias seria uma política fiscal consistente e sustentável, de modo a permitir que as ações de política sejam plenamente transmitidas aos preços, com o controle rígido dos gastos públicos, e não através do arrocho monetário. Faltando a primeira, só resta consequentemente, a segunda, exclusiva do BC.


Arthur Jorge Costa Pinto é Administrador, com MBA em Finanças pela UNIFACS (Universidade Salvador).

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