domingo, 10 de janeiro de 2016

O meu País


Poesia no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Orlando Tejo

Um país que crianças elimina,
Que não ouve o clamor dos esquecidos,
Onde nunca os humildes são ouvidos,
E uma elite sem Deus é quem domina,
Que permite um estupro em cada esquina,
E a certeza da dúvida infeliz;
Onde quem tem razão baixa cerviz,
E massacram-se o negro e a mulher,
Pode ser um país de quem quiser,
Mas não é, com certeza, o meu país.

Um país onde as leis são descartáveis
Por ausência de códigos corretos,
Com quarenta milhões de analfabetos
E maior multidão de miseráveis,
Um país onde os homens confiáveis
Não tem voz, não tem vez, nem diretriz,
Mas corruptos tem vez, voz e bis
E o respaldo de estímulo incomum
Pode ser um país de qualquer um
Mas não é, com certeza, o meu país.

Um país que perdeu a identidade
Sepultou o idioma português
Aprendeu a falar pornofonês
Aderindo à global vulgaridade;
Um país que não tem capacidade
De saber o que pensa e o que diz
Que não pode esconder a cicatriz
De um povo de bem que vive mal
Pode ser o país do carnaval
Mas não é, com certeza, o meu país.

Um país que seus índios discrimina
E a ciência e as artes não respeita
Um país que ainda morre de maleita
Por atraso geral da medicina;
Um país onde escola não ensina
E hospital não dispõe de Raio-X
Onde a gente dos morros é feliz
Se tem água de chuva e luz do sol
Pode ser o país do futebol,
Mas não é, com certeza, o meu país.

Um país que é doente e não se cura
Quer ficar sempre no terceiro mundo
Que do poço fatal chegou ao fundo
Sem saber emergir na noite escura;
Um país que engoliu a compostura
Atendendo a políticos sutis
Que dividem o Brasil em mil “brasis”
Pra melhor assaltar de ponta a ponta
Pode ser o país do faz de conta
Mas não é, com certeza, o meu país.

Um país que dizima sua flora
Ensejando o avanço do deserto
Pois não salva o riacho descoberto
Que no leito precário se estertora;
Um país que cantou e hoje chora
Pelo bico do último codorniz,
Que florestas destrói pela raiz
E a grileiros de fora entrega o chão
Pode ser que ainda seja uma nação
Mas não é, com certeza, o meu país.


Orlando Tejo, natural  de Campina Grande/ PB, é  Bacharel em Direito, poeta, ensaísta, jornalista, folclorista e  professor.

Um comentário:

Loumari disse...

A Motivação do Ser Humano

Desde o pecado original fomos essencialmente iguais para conhecer o bem e o mal; no entanto, é exactamente neste ponto que buscamos as nossas vantagens particulares. Mas é só além desse conhecimento que começam as verdadeiras diferenças. A aparência recíproca é provocada pelo seguinte: ninguém consegue contentar-se apenas com o conhecimento, mas tem de lutar para agir de acordo com ele. Contudo, não lhe foi atribuída a força para fazer isso; em consequência, ele tem de se destruir, mesmo correndo o risco de não adquirir com isso o poder necessário, mas não lhe resta nada senão essa última tentativa. (É este também o sentido da ameaça de morte associada à proibição de comer da árvore do conhecimento; talvez também o sentido original da morte natural). Ora, ele tem uma tentativa; prefere revogar o conhecimento do bem e do mal; (a expressão «pecado original» tem origem nesse medo) mas o que aconteceu não pode ser suprimido, apenas turvado. É com esse objectivo que as motivações vêm à tona; com efeito, todo o mundo visível talvez não seja outra coisa senão uma motivação do ser humano para a sua vontade de descansar um momento. Uma tentativa de falsear o facto do conhecimento, para só então transformá-lo em objectivo a ser atingido.

"Franz Kafka, in 'Os Aforismos de Zurau ou Reflexões no Pecado, Esperança, Sofrimento, e o Caminho da Verdade (86)'
Austria 3 Jul 1883 // 3 Jun 1924
Escritor