domingo, 10 de janeiro de 2016

Por motivo de força maior


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Ruy Castro

Há um ano, Marcelo Odebrecht pediu a um executivo da Petrobras dados para um "aide-mémoire" que estava escrevendo para Lula usar numa visita que faria à Argentina. O homem se empolgou e escreveu demais. Odebrecht o cortou: "Um terço de página apenas, ou o cara não lê".

Bom saber que Odebrecht escrevia "aide-mémoires" para Lula usar em seus pronunciamentos no exterior. Significa que, naquela época, Lula não precisava falar por conta própria, como no dia em que, em visita oficial à África, em 2003, chegou à Namíbia, olhou em volta e declarou: "Tão limpa que nem parece a África!" – ofendendo todos os países africanos pelos quais passara.

O incrível é constatar como Lula é tido em baixa conta justamente pelo homem que, então, vivia contratando-o para dar palestras nos vários continentes. Não eram palestras comuns, para plateias indiferentes, mas "lectures" dirigidas à nata política, social e econômica de cada país – gente sem tempo a perder e ansiosa para ouvir os ensinamentos de um governante bem sucedido. Eram palestras tão importantes que Odebrecht pagou a Lula, em um ano, R$ 4 milhões por elas – R$ 400 mil cada. *

Uma palestra desse porte dura duas horas. Como falar duas horas sobre qualquer assunto sem dominá-lo? E como fazer isso sem ter lido balanços, relatórios, pareceres e análises, ou mesmo resumos preparados por assessores? E será possível guardar de cor todos os dados? Não, o palestrante terá sempre de se valer de papéis à sua frente. Mas, segundo Marcelo Odebrecht, textos de mais de um terço de página, "o cara não lê".

Um dia, alguém terá acesso a um vídeo, áudio ou transcrição de uma palestra de Lula paga por Odebrecht – ninguém viu nada até hoje. Só então se descobrirá o insuperável palestrante que ele era e, hoje, por motivo de força maior, deixou de ser.

*Ao todo, Lula arrecadou, nos quatro anos após o término do seu segundo mandato, R$ 27 milhões por suas incríveis palestras. Seu grande amigo e companheiro de viagens mundo a fora, Marcelo Odebrecht, hoje hóspede da PF em Curitiba, era fã dos ensinamentos de Lula, vertidos em suas palestras pagas cada uma a, por baixo, R$ 400 mil. O ‘umilde operário’ é realmente um fenômeno de sapiência. Sua teoria sobre a distribuição da poluição no planeta e sobre a propagação da crise financeira a partir da costa atlântica dos EUA até as costas brasileiras são notáveis. (J. J. E.)


Ruy Castro é Jornalista. Originalmente publicado na Folha de S. Paulo no distante 8 de janeiro de 2016.

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