domingo, 21 de fevereiro de 2016

A corrupção na corte do Kamarada Stalin

Tovarich Stalin, Garotão, em 1902

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

A corrupção é uma história não contada do terror stalinista do pós-guerra, mas essa história consta do livroStalin, a Corte do Czar Vermelho, onde constam os dados que compõem este texto. 

Os magnatas – como eram denominados os homens do círculo de Stalin – e marechais saquearam a Europa com muito mais justificativa depois do que os alemães haviam feito com a Rússia. Essa verdadeira elite imperial deixou de lado sua antiga “
modéstia bolchevique”. Embora aos visitantes do exterior sempre fosse dito que o kamarada Stalin “não suporta a imoralidade”, ele ria dos luxos de seus generais com suas cortesãs, porém seus arquivos transbordavam de denúncias de corrupção que ele deixava de lado “para mais tarde”.

Jukov – marechal Gueorgi Konstantinovic Jukov – que chegou a ser imaginado por Stalin como seu possível sucessor, logo após a derrota da Alemanha em 1945, montou em sua datcha, em Moscou, uma espécie de museu de ouro e pinturas. Os marechais se beneficiaram da etiqueta feudal de pilhar pela qual os oficiais roubavam seu butim e depois pagavam uma espécie de tributo a seus superiores. Alguns, todavia, não precisavam dessa ajuda: o marechal do ar Golovánov, um dos favoritos de Stalin, desmontou a casa de campo de
 Paul Josef Goebbels (ministro da Propaganda da Alemanha hitlerista) e levou-a de avião para Moscou, uma façanha que iria arruinar sua carreira.

Os soldados chegavam em primeiro lugar aos tesouros, mas eram os membros do NKVD ((
Narodny Komissariat Vnutrennikh Del), que ficavam com a melhor fatia. Em Gagra, Laurenti Beria (chefe do NKVD) perseguia e impressionava atletas femininas numa frota de lanchas pilhadas. Abakúmov (Victor Abakúmov, chefe do Departamento Especial do NKVD) que andava por Moscou em carros esportivos italianos, saqueou a Alemanha com uma extravagância digna de Goring (Hermann Wilhelm Göring, general alemão, comandante da Luftwaffe), mandava aviões a Berlim para trazer grandes quantidades de roupas íntimas, montando um tesouro de antiguidades como se fosse uma loja de departamentos. Trouxe de avião da Alemanha a estrela do cinema alemão e mulher misteriosa internacional Olga Tchekhova, para ter um caso com ela. Quando a atriz Tatiana Okuniévskaia – já estuprada por Beria – o recusou, ganhou sete anos nos Gulags. 

O
 staff de Stalin estava atolado na corrupção. Vlassik (general; chefe da Segurança do Kremlin) mantinha suas cortesãs em casas de repouso oficiais, com uma tripulação de pintores vulgares, chekistas (como eram denominados os membros da NKVD) sanguinários e burocratas sibaritas. Limousines faziam a entrega de concubinas, que ganhavam apartamentos, caviar, entradas para as paradas na Praça Vermelha e jogos de futebol. Vlassik seduzia as esposas de seus amigos mostrando-lhes fotografias de Stalin e mapas de Potsdam. Chegou mesmo a roubar das casas de Stalin, saqueando a vila de Potsdam, subtraindo peças de porcelana, três touros e dois cavalos, levados para sua casa em trens e aviões do MGB (Serviço Federal de Proteção). Ele passou boa parte da conferência de Potsdam bebendo, fornicando ou roubando. 

Havia também um imenso desperdício de comida nas
datchas de Stalin. Vlassik logo foi denunciado por vender as sobras de caviar, provavelmente por Beria, a quem ele, por sua vez, denunciara. Recorde-se que Vlassik e Beria, mais tarde, foram presos, condenados e mortos.

As amantes de Vlassik, tal como os alcoviteiros de Beria, deram informações sobre eles a Abakúmov (outro que posteriormente foi preso, condenado e morto), o qual, por sua vez, foi denunciado por seu rival no MGB, o general Serov (Ivan Serov, um dos principais dirigentes da polícia política de Stalin na Polônia), que escreveu a Stalin sobre a corrupção e a libertinagem de Abakúmov. Stalin guardou as cartas para uso posterior. Comentava-se que o próprio Serov teria roubado a coroa do rei da Bélgica. Cortesãs, alcoviteiros e generais do MGB informavam a Stalin uns sobre os outros, num carrossel de favores sexuais e traições.

Os potentados de Stalin passaram a viver em escritórios forrados por tapetes persas e grandes pinturas a óleo. Suas casas eram palácios: o chefão de Moscou ocupava agora todo o palácio do /grão-duque Serguei Alexandrovitch. O próprio Stalin fomentou essa nova era imperial quando, depois de Yalta, encantou-se com os palácios Livadia, de Nicolau II, e Alupka, do príncipe Vorontsov. “
Ponha esses palácios em ordem”, escreveu a Beria em 27 de feverereiro de 1945. Ele gostou tanto do palácio de Alexandre III em Sosnovka, na Criméia, que mandou construir uma datcha lá. A partir de então, os magnatas e seus filhos reservaram esses palácios por meio do 9º Departamento do MGB. Stepan Mikoian, piloto da Força Aérea. Filho de Sergo Mikoian, um proeminente membro do Politburo, passou a lua de mel no palácio Vorontsov. Stalin passou férias no Livadia. As famílias iam de avião para o Sul numa ala especial da linha aérea estatal.

Os filhos gozavam de privilégios, mas tinham que dar o exemplo e seguir os ditames do partido. Quando Jdanov (Andrei Alexandrovitch Jdanov
, político soviético e organizador do Kominform em 1947. Um de seus filhos casou-se com uma das filhas de Stalin. Morreu em 1948 aparentemente de causas naturais) denunciou o jazz, Nikita Kruschev quebrou os adorados discos de jazz de seu filho.

Svetlana Stalin, filha de Stalin, notou como as
 datchasdas famílias Mikoian, Molotov (Vyacheslav Mikhailovich Molotov, político soviético) e Vorochilov (Kliment Vorochilov, militar e dirigente político soviético) estavam cheias de “presentes dos trabalhadores”, tapetes, armas de ouro caucasiano, porcelanas. Os magnatas viajavam em limousines ZIS blindadas, baseadas no Packard americano, por ordem de Stalin, seguidos por uma cauda de chekistas com as sirenes abertas. Os moscovitas chamavam esse desfile de “casamento de cachorro”.

Um destacamento inteiro, comandado por um general era designado para cada líder. Havia tantos deles que cada membro do Politburo podia formar um time de volei, com os Beria jogando contra os Kaganovitch (Lazare Moïsseïevitch Kaganovitch, dirigente político). Na linguagem do MGB, o magnata era chamado de “
sujeito”, suas casas de “objeto” e os guardas de “acessórios do sujeito”. As crianças costumavam rir quando escutavam dizer que “o sujeito está a caminho do objeto”. Malenkov (Gueórgui Maximiliánovitch Malenkov, político, membro do Politburo, expulso do partido em 1961) ia da rua Granovski para o Kremlin cercado por uma falange de “acessórios”.

As senhoras dos membros do Politburo tinham seu designer de alta costura controlado por um departamento do MGB. Desenhavam os ternos dos homens e os vestidos das mulheres. Donjat Ignatovitsh Abram, um alfaiate judeu criava uniformes, inclusive o do generalíssimo Stalin. Era o Dior do Politburo e Nina Adjubei, baixa, redonda, muito forte e nariz chato, era sua Chanel. Viam-se por toda a parte pilhas de
 Harper’s Bazaar e Vogue. Ela copiava dessas revistas, de Dior, ou fazia criações próprias. Polina Molotov (mulher deVyacheslav Mikhailovich Molotov) nem sempre pagava e essa prática foi denunciada a Stalin, que passou uma reprimenda ao Politburo.
Stalin mantinha o controle sobre todos esses privilégios, continuando a escolher os carros para cada líder. De tal forma que Jdánov ganhou um Packard blindado, um Packard normal e um ZIS 110, Beria, um Packard blindado, um ZIS e um Mercedes, enquanto outros ficavam com Cadillac e Buick. Stalin concedeu à viúva de Alexander Scherbakov, um dos magnatas do Kremlin, que morreu vítima de alcoolismo, uma pensão de 2 mil rublos por mês, mil rublos a seus filhos até a formatura, 700 rublos para sua mãe e 300 para sua irmã. A viúva recebeu também uma quantia bruta de 200 mil rublos e sua mãe 50 mil, uma prodigalidade impensável para o trabalhador médio.
 

Foi essa a nova ordem imperial na corte do kamarada Stalin, o Czar Vermelho, após o final da II Guerra Mundial, uma época que, segundo diria Nikita Kruschev após ser entronizado como Secretário-Geral do PCUS, “
deixou a todos com sangue até os cotovelos”.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

4 comentários:

Martim Berto Fuchs disse...

Por que o símbolo da foice e martelo não foi proibido ? Uma resposta seria que eles estavam com o lado vencedor. A outra, que eles eram financiados pela Oligarquia Financeira Internacional, enquanto que esta mesma Oligarquia não era "bem vista" no lado dos perdedores.
Não deixa de ser um "enigma" a apologia da foice e do martelo e a proibição da suástica.
Qual dos dois símbolos causou mais mal e matou mais pessoas ? Só há perdedores nesta disputa, mas é renhida. A suástica foi proibida em 1945 e parou de extravasar sua paranóia. A foice e o martelo continua até hoje a extravasar sua paranóia, apenas com outros nomes.
E temos no Brasil universidades, principalmente públicas, e "intelekituais", que não só apoiam, mas trabalham abertamente para manter viva essa aberração.
Interessante. Por mais que dilapidem as verbas públicas nessas universidades, sempre conseguem mais.

samuel disse...

estamos quase lá. Afinal é o único propósito da esquerda.

Scherer Alexander disse...

MAS E STALIN, COMO DISSE O NOBRE OLAVO DE CARVALHO: TINHA PODER, NÃO TINHA DINHEIRO NA CARTEIRA, NEM SEQUER CARTEIRA! ELE MESMO NUNCA ACUMULOU NADA PESSOAL, SUA FAMÍLIA CONTINUA POBRE, BEM AO CONTRÁRIO DE KRUSCHOV OU GORBACHEV!

Scherer Alexander disse...

Stalin apesar de tirano, não era chegado ao dinheiro, ele morreu somente com um par de botas e seu casaco, mas tinha PODER! Esta confusão as pessoas fazem entre $ e Poder!