quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Barraco na corte


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Renato Sant'Ana

"Mau-caráter é Vossa Excelência, me respeite!". A frase (reproduzida nos jornais) beira a bizarrice, tanta formalidade para revidar uma ofensa. O mais extraordinário, porém, está em haver sido pronunciada por um ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) durante os trabalhos. Nada mais, nada menos do que pelo presidente da casa, Francisco Falcão.

O bate-boca aconteceu durante sessão da Corte Especial, que reúne os 15 ministros mais antigos do tribunal. Não vem ao caso o objeto da desavença. Registre-se apenas que houve uma troca de acusações, provocando a intervenção apaziguadora dos demais ministros. E quando parecia que tudo serenava, o outro contendor (Min. João Otávio Noronha) voltou á carga e disse com todas as letras: "Esse presidente é um tremendo mau-caráter". Daí veio a réplica de Francisco Falcão.

Temo que o espetáculo proporcionado pelos ministros (de um tribunal superior) não seja fato isolado, mas reflita a recessão moral do país. Aqui, é preciso ir além da mera descrição e abstrair o fenômeno. Em abstrato, o que aconteceu foi isto: ainda que apenas momentaneamente, os ministros perderam a capacidade de sentir constrangimento; não ligaram para o que os outros poderiam pensar; esqueceram a noção de honra; a elegância desapareceu; comportaram-se como quem não tem de prestar contas a ninguém; agiram sem considerar as consequências dos próprios atos.

É certo que Francisco Falcão carrega a marca de haver entrado no STJ por indicação de Renan Calheiros e José Sarney. E se consolidou a crença em que, por ele, todos os réus da Lava-Jato já estariam soltos. Em todo caso, tenhamos a prudência de não fazer julgamento ligeiro, concedendo o benefício da dúvida a ambos e tomando o episódio por um pequeno descontrole. Homens educados, ao regressarem à razão, terão ficado muito insatisfeitos consigo mesmos.

Se a abstração estiver correta, será possível avançar: variando em grau e forma, o fenômeno repete-se a todo momento, em toda parte - entre homens de quem se exige postura de estadista, entre jovens que ainda não encontraram seu lugar na sociedade. Deselegantes, mas sem consequência tangível, ministros trocam imprecações tratando-se mutuamente por "excelência", para depois ficarem constrangidos. Já no extremo da indignidade, meninas juntam-se em grupo para espancar uma colega de escola (outra menina), fato frequente na periferia de Porto Alegre. No primeiro caso, os valores fraquejaram; no segundo, desapareceram. Em abstrato, são repetições.

Pensemos a sociedade como um todo: ninguém é bom sozinho, assim como ninguém é mau exclusivamente por si. Ninguém se torna sujeito por geração espontânea, mas cada qual é resultado de suas interações com o meio, o que faz todos responsáveis por todos - uma complexidade um pouquinho maior do que o pronunciado por Rousseau. Se assim é, não há outra escolha ética senão cada um examinar seu próprio grau de responsabilidade.

Eis a situação inelutável do Brasil: uma degradação dos valores, a generalização da falta de respeito, desprezo pelas regras (formais ou informais) e a imposição insidiosa de um relativismo moral e seus derivativos. Como é que cada um está implicado nesse processo? Não há como ser mero expectador! Ou se é protagonista ou se é coadjuvante! É pena, mas a atitude mais frequente parece ser a de limitar-se a satisfazer o próprio ego num simulacro de crítica: "Oh, os políticos...", "Oh, as novelas da Globo...", "Oh, o que falta é educação...". Palavras, palavras, zero comprometimento.

Há de ser muito cômodo fazer caras e bocas e apontar o dedo para os ministros. Mas se a escolha ética for assumir responsabilidade, então comecemos por um exame de consciência, que pode assim ser sintetizado: em que medida o nosso "modo de estar no mundo" ajuda a afirmar (preservar) os valores que se estão perdendo? É o primeiro passo de uma árdua tarefa que necessita de todos: passar o Brasil a limpo.


Renato Sant'Ana é Psicólogo e Bacharel em Direito.

Um comentário:

Anônimo disse...

As putas no cabaré ao ver um rico cliente entrar no salão : este cliente é meu.. tap.. este cliente é meu.. aos tapas e puxões de cabelo as putas disputavam os clientes mais ricos...