quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O Carnaval é um Comício


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arnaldo Jabor

Todo ano meu artigo das terças-feiras cai no carnaval. O artigo é que cai — não eu, que sempre fui um reprimido diante da alegria com data marcada. Aquela liberdade toda me deprimia por inveja dos garotões com suas odaliscas, havaianas e tirolesas. Meus carnavais foram mais dos outros do que de mim. Eu olhava meio de fora e me emocionava com as mudanças que o verão trazia. Algumas cenas de minha “busca do tempo perdido” até já contei aqui.

Carnaval para mim era o cheiro. Até hoje, quando penso nos carnavais do Rio, lembro do cheiro das garrafinhas de lança-perfume. Havia-as em vidro, frágeis como ampolas, mas o belo falo perfumado do carnaval era o Rodouro Metálico. O lança-perfume era uma espécie de precursor das drogas modernas. A prise de éter que tomávamos fazia o mundo girar até o desmaio entre serpentinas.

Lembro-me das marchinhas toscas que começavam a tocar nos rádios por volta de dezembro, lembro-me das bobas fantasias — legionários, piratas, cowboys — influenciadas pelos filmes americanos, lembro-me da Casa Turuna, na cidade, com máscaras de morcegos, pretos velhos, fantasmas, lembro que o carnaval começava no Rio sob o canto das cigarras, com flores vermelhas caindo dos flamboyant, lembro-me das escolas de samba ainda a pé na Av. Presidente Vargas — bandos de índios de bigode e penas de espanador, pintados de preto, seguidos pelas gordas baianas tilintando de balangandãs. A multidão olhava, queria participar e era alegremente esbordoada pelos cassetetes da PE, a temida Polícia Especial, sob os sons dos tamborins.

Hoje, o carnaval chega pronto. Antes, era uma revelação; hoje, ele esconde alguma coisa perdida. Creio que falta um minimalismo poético nos desfiles de luxo. Falta o mau jeito, falta a ingenuidade, o romantismo, falta Braguinha, Lamartine. Mas, tudo bem; sem chorar pelo chope derramado.

Agora renasceu o grande carnaval das ruas, como contraponto às escolas de samba. Acho mesmo que a grande tradição está mais presente nos blocos dos foliões anônimos. Nas ruas, estão os anjos de cara suja, os blocos das escrotas, dos vagabundos, dos bêbados ornamentais, da crioulada pobre. Nas ruas, a gente lembra de um Brasil feito de toscos sambinhas, de uma precariedade poética que acabou.

Hoje, assistimos ao carnaval de nossas desilusões políticas, jogados numa crise sistêmica que está a desmanchar tudo. Mas, o carnaval — como uma onda colorida, como uma muralha de música — resiste a essa estúpida desconstrução com que um ideologismo ignorante nos envenenou.

Não podemos deixar que os velhos canalhas de sempre cortem nossa onda, que os poderosos de 400 anos transformem nossa alegria em ingenuidade, nosso anarquismo em escravidão.

Um país mesclado de raças e sacanagem pode ser o antídoto dionisíaco contra a mediocridade burocrática e totalitária que vergonhosamente ressurgiu aqui.

Mas, mesmo assim, ainda tendo a achar que são multidões de “alienados” que não entendem o que se passa no país e caem numa gandaia ingênua e vazia.

Ainda me pergunto: como podem os brasileiros ficar alegres com essa crise imunda que nos acomete?

Foi então que me lembrei dos carros de “crítica” que desfilavam com as Grandes Sociedades Carnavalescas — os Tenentes do Diabo, os Pierrôs da Caverna, os Fenianos — e escrachavam a política e a polícia. E agora eles estão de volta nas ruas dançantes: os pixulecos, os dilmecos, os lulecos 174, os horrendos ladrões da República, a carranca bicuda do Cunha e até aquele japonês bonzinho da PF, que aliás está jogando um bolão, sambando no pé.

Além disso, vendo a catarata de corpos e de plumas, vendo a explosão de cantos e sorrisos, entendo que essa euforia está acima, mais além das misérias de hoje, mais além das tristezas do mensalão, do petrolão, da inflação. Uma nuvem cultural e democrática paira acima desse sarapatel de roubos e mentiras.

O carnaval mostra a matéria de que fomos feitos há quatro séculos. O carnaval não aspira a nenhuma desordem profunda, como pode parecer ao turista reprimido. Ao contrário, há uma grande pureza nessa explosão de carne e sexo nas avenidas; parece haver o oculto desejo de “fundar” um outro país, avesso ao populismo demagógico, avesso à tragédia da pobreza. Os bailarinos das escolas e seus enredos parecem dizer: “queremos uma sociedade organizada como nós, alegre como nossas escolas de samba que cantam a felicidade”.

O carnaval mostra que o Brasil tem uma forma de esfuziante “seriedade”, mais alta que a “gravidade” do mundo anglo-saxão.

Onde existem essas montanhas de carne, de corpos se jogando uns contra outros, onde podemos ver essa busca louca por um orgasmo utópico, essa fome de amar?

Todas as metáforas do carnaval são ligadas à ideia de abundância, de fecundidade; tudo lembra um grande prazer que nos “salvará” algum dia contra um futuro de irracionalismo e paranoia.
Na razão do carnaval existe uma certa santidade carnal (para além da orgia).

O carnaval nos vê. O carnaval não é um desvio da razão. Sua razão perversa nos ensina mais que “moralismos críticos”. A África e os índios nos salvaram, assim como salvaram os USA. Que seria da América sem o jazz? Seria um país branco-azedo, cheio de “wasps” tristes. E nós sem samba?

A “razão perversa” é a razão do carnaval. Não a perversão como “pecado”, mas como busca de uma civilização “não civilizada”, por um retorno a uma animalidade perdida e, no entanto, pulsante.

Arnaldo Jabor é Cineasta e Jornalista. Originalmente publicado em O Globo em 9 de fevereiro de 2016.

4 comentários:

Loumari disse...

Só no Ato do Amor se Capta a Incógnita do Instante

Quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já. Só no ato do amor — pela límpida abstração de estrela do que se sente — capta-se a incógnita do instante que é duramente cristalina e vibrante no ar e a vida é esse instante incontável, maior que o acontecimento em si: no amor o instante de impessoal jóia refulge no ar, glória estranha de corpo, matéria sensibilizada pelo arrepio dos instantes — e o que se sente é ao mesmo tempo que imaterial tão objetivo que acontece como fora do corpo, faiscante no alto, alegria, alegria é matéria de tempo e é por excelência o instante. E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. E canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro. E meu canto é de ninguém. Mas não há paixão sofrida em dor e amor a que não se siga uma aleluia.

"Clarice Lispector, in 'Água Viva'
Brasil 10 Dez 1920 // 9 Dez 1977
Escritora

Loumari disse...

"Deus é pai, não é padrasto"

"Deus tarda, mas não falha"


"É lei de Deus fazer o bem, mesmo aos que nos fazem mal"


"Deus escreve direito por linhas tortas"


"De Deus nos vem o mal e o bem"


"Deus não dorme"


"A quem não fala, Deus não ouve"


"A quem trata com Deus, nada falta"


"Cada um sabe de si e Deus, de todos"


"Deus é bom trabalhador, mas gosta de quem o ajuda"


"Deus não se esquece dos pobres"


"Deus está no Céu"


"Deus aceita a bondade"


"Deus aceita a boa vontade"

"Em Deus, não há prover sem provar"


"Com Deus, nem rindo nem zombando"


"Dá Deus asas a quem sabe voar"


"Deus dá couves a quem não tem toucinho"


"Dá Deus botas a quem já tem sapatos"


"Deus ajuda a quem se muda"


"Dá Deus a chaga e dá a mezinha"


"Deus é o mesmo para todos"


"A Deus poderás mentir, mas não enganar"

Loumari disse...

O Amor Exige a Verdade

A maioria das pessoas hoje em dia não considera o amor como relacionado de alguma forma com a verdade. O amor é visto como uma experiência associada com o mundo das emoções fugazes, e não com a verdade. Mas é esta uma descrição adequada do amor? O amor não pode ser reduzido a uma emoção efémera. É verdade que estimula a nossa afectividade, mas, a fim de o abrir para o amado e, assim, abrir o caminho que conduz longe do egocentrismo e em direção à outra pessoa, a fim de construir um relacionamento duradouro, o amor visa a união com o amado. Aqui começamos a ver como o amor exige a verdade. Só na medida em que o amor é fundamentado na verdade pode ser suportado ao longo do tempo, pode transcender o momento passageiro e ser suficientemente sólido para sustentar uma viagem compartilhada. Se o amor não está vinculado à verdade, é uma presa emoções inconstantes e não pode resistir ao teste do tempo. Amor verdadeiro, por outro lado, unifica todos os elementos da nossa pessoa e torna-se uma nova luz que aponta o caminho para uma vida grande e realizada. Sem a verdade, o amor é incapaz de estabelecer um vínculo firme; não pode libertar o nosso ego isolado ou redimi-lo a partir do momento fugaz, a fim de criar a vida e dar frutos.

"Papa Francisco, in 'Lumen Fidei: A Luz da Fé'
Argentina n. 17 Dez 1936
Papa da Igreja Católica

Loumari disse...

No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no SENHOR e na força do seu poder.
Revesti-vos de toda a armadura de DEUS, para que possais estar firmes contra as ASTUTAS CILADAS DO DIABO.
(EFÉSIOS 6:10)



Para que possais andar dignamente diante do SENHOR, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de DEUS;
Corroborados em toda a fortaleza, segundo a força da sua glória, em toda a paciência e longanimidade, com gozo;
Dando graças ao Pai, que nos fez idóneos para participar da herança dos SANTOS NA LUZ;
O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor;
Em quem temos a REDENÇÃO PELO SEU SANGUE, a saber, a remissão dos pecados;
O qual é a IMAGEM DO DEUS INVISÍVEL, o primogénito de toda a criação;
Porque nele fora criadas todas as coisas que há, nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades: tudo foi criado por ELE e para Ele;
E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.
E Ele é a cabeça do corpo da igreja, é o princípio e o primogénito de entre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência.
Porque foi do AGRADO DO PAI que toda a plenitude nele habitasse.
E que, havendo por ele feito a paz, pelo SANGUE DA SUA CRUZ, por meio dele reconciliar-se consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.
(COLOSSENSES 1:10)



Jesus Cristo fez a tal ligação entre a terra e o céu quando ele andou sobre o mar. Jesus Cristo é como o cordão umbilical que liga o bebé do placenta da mãe. Tudo passa por ele.
Há um só caminho que nos conduz a Deus, Jesus Cristo. Fora deste só são invenções dos homens perversos.