quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O preço da verdade


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Brickmann

Foi nesta Folha de S. Paulo, em 22 de novembro de 1963, dia da morte do presidente Kennedy. O jornal recebia o noticiário internacional por dois teletipos, da UPI e da AFP (agências de notícias internacionais). Os dois deram defeito e, enquanto Kennedy era o assunto do mundo, nós na Folha, alheios ao caso, fazíamos uma edição normal.
              
Ao saber da notícia (informados, veja só, por minha mãe), conseguimos botar na rua uma edição extra. A equipe, chefiada pelo Woile Guimarães, era ótima. Deu para salvar o dia. Naquele tempo, não tão distante, a notícia era rara e cara.
              
O "Repórter Esso", principal noticioso da TV, recebia filmes da UPI por avião, uns dois ou três dias depois dos fatos. Boa parte das rádios lia as notícias do jornal.
              
Hoje a notícia é abundante, instantânea, barata. Podemos acompanhá-la, assistir ao vídeo, ler (e fazer) comentários. Tudo de graça.
              
"Playboy" para quê? Na internet tem mulher famosa nua e filme pornô. Tudo grátis. Por que devemos pagar, então, para ler um jornal ou uma revista?
              
Por um motivo básico: nos bons jornais e revistas, a notícia é não apenas completa, mas confirmada. Notícia fria, abundante na internet e nas redes sociais, não entra. Quem paga pela informação tem garantia de qualidade, está melhor informado do que os que preferem notícia grátis.
              
Por isso, quando a revista "Exame", de ótima reputação, premiou a Samarco, em julho de 2015, como melhor mineradora do Brasil (seu quinto prêmio, o terceiro consecutivo), deveríamos confiar em seu critério.
              
Mas, em novembro, rompeu-se a barragem da Samarco em Mariana, destruiu-se o rio Doce e desde então não param de pingar notícias sobre as más práticas da mineradora.
              
Segundo a "Exame", o prêmio é dado após análise de informações completas. Não foi bem assim. Olhou-se apenas a questão do lucro. A segurança, como diria o imortal personagem Justo Veríssimo, era apenas um detalhe.
              
De quem era o avião em que morreu o candidato Eduardo Campos? Apenas para comparação: quando secou uma das represas do sistema Cantareira, descobriu-se que existia lá uma carcaça de automóvel. Em dois dias divulgou-se quem era o dono. Por que então o proprietário de um avião, sujeito a controles muito mais rígidos, permanece oculto?
              
Como dizia um grande especialista em jornal, Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha, merece o máximo esforço sua excelência, o leitor. Ninguém compra um jornal para ter as mesmas informações que teria de graça na internet. Aliás, e o corte de oito ministérios? Morreu?
              
Por que os grandes jornais e revistas ainda não descobriram os proprietários do avião? Pior: por que estarão esses proprietários guardando tão ciosamente seu segredo?

Segredo por quê? Essa sim é a notícia. O mosquito Aedes aegypti foi erradicado, voltou, falou-se da dengue, mas chikungunya e zika surgiram de repente. A imprensa soube junto com seus clientes, não antes.
              
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, plantou dezenas de pequenos postes destampados, do calibre de uma lata de cerveja, cercando ciclovias. Acumulam água e hospedam mosquitos. E a grande imprensa, mesmo com o "dengódromo" diante dos olhos, silenciou.
              
Não podemos reclamar da queda de circulação de jornais e revistas. Em parte é a destruição criativa, a substituição de um modelo por outro. Todavia, muito mais do que isso, é o suicídio de cobrar por algo que não se entrega.


Carlos Brickmann, 71, é diretor da Brickmann&Associados Comunicação e editor do site www.chumbogordo.com.br. Foi editor de internacional da Folha de S. Paulo, onde foi originalmente publicado em 23 de fevereiro de 2016, p. A-3

Um comentário:

lgn disse...

Pois é assim que entendo jornalismo. A busca pelo fato e sua descrição, sua narrativa, seu esmiuçamento. Só assim se pode escolher entre alternativas. A Internet é um verdadeiro bumba meu boi, sujeito à superficialidade. São amadores com as intenções mais diversas, mas a léguas de distância do aprofundamento, da investigação de fontes, de fatos, etc. Brickmann está mais que certo.