segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O que o Socialismo não é!


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Leszek Kolakovski, dissidente russo, foi contundente e prático, especificando o socialismo pelo que ele não é.

O socialismo não é:

uma sociedade na qual é crime ser irmão, filho ou cônjuge de um criminoso

uma sociedade na qual alguém possa ser infeliz porque diz o que pensa, e um outro possa estar feliz porque não diz o que pensa

uma sociedade em que alguém possa estar melhor ainda porque não pensa nada sobre coisa alguma

um Estado cujos soldados são sempre os primeiros a penetrar no território de um outro país

um Estado em que qualquer um possa ser condenado sem julgamento

um Estado em que qualquer cidadão é potencialmente suspeito de alguma coisa

um Estado cujos dirigentes se nomeiam, eles próprios, aos seus cargos, e nomeiam seus parentes para outros cargos

um Estado que não permite a seus cidadãos viajarem para o exterior

um Estado cujos vizinhos amaldiçoam a geografia

um Estado que produz excelentes armas e péssimos sapatos

um Estado em que os advogados de defesa estão sempre de acordo com o promotor

um Estado que dita aos pintores as regras de como pintar e outorga prêmios a autores que não sabem escrever

uma Nação que oprime outras Nações

uma Nação que é oprimida por uma noção

um Estado que obriga todos os seus cidadãos a terem a mesma opinião sobre Filosofia, Política Externa, Economia, Literatura e Moral

um Estado cujo governo define os direitos do cidadão, mas a cujos cidadãos é vedado definirem os direitos dos governos

um Estado em que cada um é responsável por seus ancestrais

um Estado que assina pactos com criminosos e comete crimes para adaptar sua ideologia a esses pactos

um Estado que gostaria de ver o seu Ministro do Exterior determinar a opinião pública de toda a humanidade

um Estado em que toda vontade dos cidadãos é conhecida por seus governantes antes deles formularem qualquer pergunta

um Estado em que os filósofos e os poetas dizem a mesma coisa que os generais e ministros, sempre um pouco depois destes

um Estado em que as plantas das cidades são segredos de Estado

um Estado em que os resultados das eleições são sempre previstos com exatidão

um Estado que detém o monopólio mundial do progresso e bem-estar

um Estado em que qualquer cidadão ou qualquer grupo humano pode ser transplantado para outra área residencial, sem qualquer consulta

um Estado que acredita ser o único em condições de salvar a humanidade

um Estado que sabe que sempre tem razão

um Estado que crê que nenhum outro possa resolver melhor nenhum dos problemas existentes

um Estado que determina quem pode criticá-lo e como

um Estado em que o governo pode, a cada dia, rejeitar o que afirmou na véspera, acreditando e fazendo crer aos seus cidadãos que nada mudou.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

3 comentários:

Loumari disse...

O Cidadão Lúcido em Vez do Consumidor Irracional

Já se sabe que não somos um povo alegre (um francês aproveitador de rimas fáceis é que inventou aquela de que «les portugais sont toujours gais»), mas a tristeza de agora, a que o Camões, para não ter de procurar novas palavras, talvez chamasse simplesmente «apagada e vil», é a de quem se vê sem horizontes, de quem vai suspeitando que a prosperidade prometida foi um logro e que as aparências dela serão pagas bem caras num futuro que não vem longe. E as alternativas, onde estão, em que consistem? Olhando a cara fingidamente satisfeita dos europeus, julgo não serem previsíveis, tão cedo, alternativas nacionais próprias (torno a dizer: nacionais, não nacionalistas), e que da crise profunda, crise económica, mas também crise ética, em que patinhamos, é que poderão, talvez — contentemo-nos com um talvez —, vir a nascer as necessárias ideias novas, capazes de retomar e integrar a parte melhor de algumas das antigas, principiando, sem prévia definição condicional de antiguidade ou modernidade, por recolocar o cidadão, um cidadão enfim lúcido e responsável, no lugar que hoje está ocupado pelo animal irracional que responde ao nome de consumidor.

"José Saramago, in 'Cadernos de Lanzarote (1994)'
Portugal 16 Nov 1922 // 18 Jun 2010
Escritor [Nobel 1998]

Loumari disse...

Pode haver um conhecimento do que é diabólico, mas nenhuma fé nele, pois, mais diabólico do que está aí presente, não existe.
(Franz Kafka)

Loumari disse...

O diabo está em nós e nas estruturas que inventamos quando vão por um caminho que não nos deixa crescer, que destrói e desagrega (diabólico significa dividir, por oposição a simbólico, que implica unir).
"Vasco Pinto de Magalhães"