sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Para conhecer o Estado Islâmico


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Saiba quais as palavras e expressões necessárias para conhecer o Estado Islâmico. Texto extraído do capítulo “O Fracasso da Guerra ao Terror e a Ascensão Jihadista”, do livro “A Origem do Estado Islâmico”, escrito por Patrick Cockburn (correspondente no Oriente Médio desde 1977; escreveu vários livros sobre a história recente do Iraque; recebeu vários prêmios: foi eleito o Comentarista Estrangeiro do Ano peloComment Awards, em 2013, o melhor Jornalista Estrangeiro em 2014, e o melhor Repórter do Ano em 2015):

Alauismo – subdivisão do islamismo xiita própria da Síria e de seu entorno. É minoritária mesmo em sua terra. Essa forma de islamismo é professada pela família Al-Assad e, por conta disso, acabou por ter influência na Síria anteriormente à guerra civil. Tem peculiaridades teológicas em relação às outras subdivisões dos xiitas que a fazem ser questionada e seus adeptos serem perseguidos por outras vertentes do Islã, sobretudo por certos ramos sunitas.

Ahrar al-Sham (Movimento dos Homens Livres do Levante) - Movimento islâmico surgido em 2013 durante a guerra civil síria; é mais uma das forças beligerantes anti-Assad, com dezenas de milhares de combatentes islamitas e salafistas.

Bashar Al-Assad – líder sírio desde 2000; sucedeu seu pai, Hafez Al-Assad, que governou o país desde 1971 até sua morte. É presidente do país e Secretário-Geral do Partido Baath. Médico educado em Londres; conduz um regime político fechado, embora de caráter laico, o qual garante o bem-estar de minorias étnicas e religiosas – como sua própria família, que é alauita - e os cristãos. Figura controversa, pesando sobre ele acusações de crimes contra a humanidade praticados na atual guerra civil, enquanto, por outro lado, é apontado como um líder austero, que mantém a estabilidade em um cenário desde sempre tenso. Atualmente, comanda o que resta de um dos últimos regimes nacionalistas árabes.

Exército Livre Sírio (Free Syrian Army – FSA) – Foi uma das principais forças de oposição ao regime de Bashar Al-Assad, na Síria, designado pelo Ocidente como futuro ocupante do Poder no país. Chegou a reunir mais de 100 mil soldados. Tem natureza laica e defende a adoção de uma forma mais secular e aberta do que o regime baathista. Opõe-se igualmente as movimentos jihadistas. Por isso, acabou sendo marginalizado, perdendo armas e terreno para as milícias islâmicas.

Fatwa – Parecer consultivo voltado a esclarecer a interpretação mais correta das normas islâmicas, geralmente proferido por um clérigo autorizado.

Frente Al-Nusra (ou Jabhat na-Nurah li-Ahl ash-Sham, que significa “A Frente da Vitória para o Povo da Grande Síria”) – Organização jihadista surgida na atual guerra civil síria, em 2012, opondo-se ao regime de Bashar Al-Assad. É a representante oficial da Al-Qaeda na região.

Islamismo Sunita – Professado pela maior parte dos muçulmanos, deriva da palavra árabe “sunnah”, que significa “hábito”, “prática usual”, “costume” ou “tradição”.  Possui subdivisões importantes, com sensíveis diferenças entre si, mas pode ser considerado o veio principal da religião islâmica. É a vertente mais popular na Península Arábica, Indonésia e no Magreb.

Islamismo Xiita – Vertente minoritária do Islamismo, cujo nome vem da palavra árabe “seguidor”, pois tal ramo funda-se na figura de Ali ibn Abi Talib, genro de Maomé, o qual é considerado o sucessor do Califado. Os xiitas atribuem autoridade espiritual à família e aos descendentes do Profeta, os quais seriam infalíveis. É majoritário em poucos lugares, nomeadamente no Irã, Iraque, Azerbaijão e no Bahrein.

Imã – do árabe “aquele que fica ou vai na frente”. Para os sunitas é o condutor dos rituais e preces nas mesquitas, enquanto para os xiitas são os descendentes do Profeta, com autoridade e infabilidade.

Jihad – do árabe “esforço” ou “empenho”. O termo possui um significado técnico próprio no Corão, livro sagrado do Islã, no qual representa a missão do fiel muçulmano de se autogovernar e, também, de universalizar os preceitos islâmicos para toda a humanidade. No final do Século XX, o termo apareceu de modo recorrente com o avanço de certas organizações armadas islâmicas, geralmente sunitas, as quais usaram a Jihad como discurso legitimador de sua luta contra governos nacionalistas árabes, potências ocidentais ou mesmo a antiga União Soviética. As primeiras organizações do tipo a aparecerem nos noticiários internacionais foram a Al-Qaeda e a resistência anti-soviética do Afeganistão (da qual desembocou o Talibã). Hoje, o ISIS, a Frente Al-Nusra e o Boko-Haram são importantes exemplos desse tipo de organização. A mídia corporativa internacional assimilou o termo Jihad, simplificando-o grotescamente como sinônimo de “guerra santa islâmica” ou como uma postura belicosa geral e comum à maioria dos muçulmanos, o que não encontra qualquer respaldo lingüístico, filosófico ou sociológico.

Jihadista (ou Mujahid. Plural: Mujahadin) – Aquele que pratica a Jihad no sentido de realizar ações militares de defesa do Islã.

Muammar Gaddafi (Sirte, Líbia, 1942 – Sirte, Líbia, 2011) – Falecido líder líbio, chegou ao Poder na esteira do avanço do nacionalismo árabe, conduzindo por mais de 40 anos um regime fechado de cunho laico e não-alinhado. Foi assassinado barbaramente em 2011, na guerra civil líbia, a qual eclodiu na esteira dos efeitos da Primavera Árabe. Possui um legado ambíguo, de ter sido um ditador cruel e excêntrico, enquanto, por outro lado, conduziu a Líbia a ostentar o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do continente africano. Teve uma postura antiamericana, mas quando foi derrubado, inclusive por uma conspiração de rebeldes locais e do Ocidente, havia se reaproximado das potências ocidentais e do sistema global.

Nacionalismo Árabe – Movimento que teve expressões como Nasser, no Egito, Gaddafi, na Líbia e o Baathismo, dentre outros movimentos. Assentava-se em certos pilares comuns, como as idéias socialistas, com peculiaridades árabes, republicanismo autoritário, o anti-imperialismo e a laicidade do Estado. Depois do seu auge, no imediato pós-guerra, gradualmente entrou em decadência.

Partido Baath ou Partido Socialista Árabe Baath (do árabe “renascimento”) – Fundado na Síria em 1947. Propunha a mistura do nacionalismo árabe, o anti-imperialismo, o pan-arabismo – isto é, a união dos países árabes – e o socialismo de inspiração árabe. Tinha caráter firmemente laico e republicano, embora autoritário. Além da Síria, teve ramificações no Iraque  no Líbano, justamente na região de atuação do ISIS. Porém, devido às suas divisões e vacilações, praticamente desapareceu, embora ainda seja hegemônico na Síria. 

Saddam Hussein (Tikrit, Iraque, 1937 – Bagdá, Iraque, 2006) – Líder iraquiano entre 1979 e 2003, ano em que foi deposto pelas FF AA dos EUA, que invadiram o país na guerra do Iraque, também conhecida como a Terceira Guerra do Golfo. Com a invasão, passou meses foragido, até ser capturado pelo exército dos EUA, ficando anos sob sua custódia, até ser entregue a um Tribunal iraquiano, que o condenou à forca. Saddam foi parte do Partido Baath do Iraque, ocupando cargos de relevo até ascender à chefia máxima do país. Ironicamente, foi fiel aliado norte-americano, ao contrario dos nacionalistas árabes, até a Segunda Guerra do Golfo, em 1992, com a invasão do Kwait, quando se converteu em inimigo dos EUA, até ser deposto e levado à morte por seus ex-protetores.

Salafismo – Do árabe salaf (predecessores), que diz respeito ao profeta Maomé, seus aliados e às primeiras gerações deste, sendo um designativo genérico para vários movimentos islâmicos que, ao longo da História, defendem uma volta às origens da religião, desconsiderando várias inovações práticas e teológicas. O termo salafista é muito amplo, sendo a mais influente corrente atual do wahabismo.

Sufismo – Corrente esotérica do Islã, não diz respeito a uma divisão própria da doutrina religiosa islâmica, mas a práticas místicas, interiores e contemplativas, comuns ou possíveis a todos os ramos daquela religião, muito embora seja mais comum entre os sunitas. O sufismo, contudo, é praticado muitas vezes em segredo e seus adeptos são freqüentemente perseguidos, sobretudo pó ramos fundamentalistas.

Wahabismo – Subdivisão do islamismo sunita, de caráter salafista, fundada pelo estudioso Mohammad ibn Abd Al-Wahhab, no Século 18, na região central da Península Arábica. O movimento busca fazer o islamismo retomar suas raízes originais, desprezando os ensinamentos das escolas e, não raro, hostilizando os muçulmanos que não compartilham de sua visão particular do Islã, no que se incluem, sobretudo, os xiitas. Sua disseminação está ligada à ascensão do clã Al-Saud, o qual pactuou com Al-Wahhab, há um longo período. O Estado surgido do clã, a Arábia Saudita, tornou-se fiel aliado do Ocidente. Também se proclama guardião de Meca, em torno da qual foi erguido. O wahabismo exerce significativa influência no mundo islâmico, inspirando não só o regime do seu país, mas movimentos como o ISIS e o Boko-Haram.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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