quarta-feira, 16 de março de 2016

A Jararaca


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arnaldo Jabor

Nunca vi o Brasil tão esculhambado como hoje. Não há outra palavra que nos descreva.

Já vi muito caos no país, desde o suicídio de Getúlio até o porre do Jânio Quadros largando o poder, vi a morte de Tancredo na hora de tomar posse, vi o país entregue ao Sarney, amante dos militares, vi o fracasso do plano Cruzado, vi o escândalo do governo Collor, como uma maquete suja de nossos erros tradicionais, já vi a inflação a 80% num só mês, vi coisas que sempre nos deram a sensação fatalista de que a vaca iria docemente para o brejo, de que o Brasil “sempre” seria um país do futuro. Eu já senti aquele vento mórbido do atraso, o miasma que nos acompanha desde a colônia, mas nunca vi o país assim.

Por que chegamos a tal ponto, até a explosão das manifestações no país inteiro ante- ontem? Tudo foi causado pelas ideias que formaram o imenso rabo de jararaca que nos esmaga hoje e que provavelmente nos levará a esmagar a cabeça da serpente. As catástrofes econômicas e políticas que podem ainda destruir o país foram os mandamentos fiéis de um catecismo comunista boçal que essa gente adotou em 1963 e agora repetiu de 2002 em diante. Nos meus 20 anos, era impossível não ser “de esquerda”. Nós queríamos ser como os homens heroicos que conquistaram Cuba, os longos cabelos de Camilo Cienfuegos, o charuto do Guevara, a “pachanga” dançada na chuva linda do dia em que entraram em Havana, exaustos, barbados, com fuzis na mão e embriagados de vitória.

A genialidade de Marx me fascinava. Um companheiro me disse uma vez: “Marx estudou Economia, História e Filosofia e, um dia, sentou na mesa e escreveu um programa racional para reorganizar a humanidade”. Era a invencível beleza da Razão, o poder das ideias “justas”, que me estimulava a largar qualquer profissão “burguesa”. Entrei para o PCB e nas primeiras reuniões de base, para meu desespero, me decepcionei. O pensamento político e existencial deles era simplista, partindo sempre de uma ideia para depois chegar a ela de novo. Nas reuniões e assembleias, surgia sempre essa voz rombuda da burrice ideológica.

Em vez do charme infinito dos cubanos, comecei a ver o erro, plantado em duas raízes: ou o erro de uma patética estratégia inócua ou a Incompetência, a mais granítica, imaculada incompetência que vi na vida. O ponto de partida da incompetência é se sentir competente. O homem “bom” do partido não precisa estudar nem Marx nem nada, apenas derramar sua “missão” para o povo. Administrar é coisa de burguês, de capitalista. Para eles, o Estado é o pai de tudo. Logo, o dinheiro público é deles, a empresa pública é deles, roubar é “desapropriar” a grana da burguesia.

A incompetência do comuna típico é o despreparo sem dúvidas, é a burrice alçada a condição de certeza absoluta. É um ridículo silogismo: “Eu sou a favor do bem, logo não posso errar e, logo, não preciso estudar nem pesquisar”. A verdade é que odeiam o que têm de governar: um país capitalista. Como pode um comuna administrar o capitalismo? Todos os erros e burrices que eu via nas reuniões do PC eram de arrepiar os cabelos. Eu pensei horrorizado, quando vi o PT no poder: vão fornicar tudo. Fornicaram.

Assim, se organiza a burrice, a adoção só de ideias gerais, o desejo de fazer o mundo caber num ideário superado. Daí a desconfiança no mercado, nos empreendedores, contra todos os que trabalham no centro da sociedade civil, que comunas veem como uma anomalia atrapalhando o Estado. Vivíamos assediados por lugares comuns. O imperialismo era a “contradição principal” de tudo. As discussões intermináveis, os diagnósticos mal lidos da Academia da URSS sempre despencavam, esfarinhavam-se diante do enigma eterno: “o que fazer?”. E ninguém sabia.

O que aconteceu com esse governo foi mais um equívoco na história das trapalhadas que a esquerda leninista comete sempre. Erraram com tanta obviedade, com tanto desprezo pelas evidências de perigo, que a única explicação é o desejo de serem flagrados. O fracasso é o grande orgulho dos revolucionários masoquistas. Pelo fracasso constrói-se uma espécie de “martírio enobrecedor”, já que socialismo hoje é impossível. A história de nossa esquerda é uma sucessão de derrotas. Derrota em 1935, derrota em 1964, derrota em 1968, derrota na luta armada, derrotas sem fim.

Até que surgiu, nos anos 1970, um homem novo: Lula, diante de um mar de metalúrgicos no ABC. Aí, começou a romaria em volta da súbita aparição do messias operário. Tive pavor de que a velha incompetência administrativa e política do “janguismo” se repetisse no Brasil, que fora saneado pelo governo de FHC. Não deu outra. O retrocesso foi terrível porque estava tudo pronto para a modernização do país; mas o avião foi detido na hora da decolagem. Hoje, vemos mais uma “revolução” fracassada; não uma revolução com armas ou com o povo, mas uma revolução feita de malas pretas, de dinheiro subtraído de estatais, da desmoralização das instituições republicanas. Hoje, vemos o final dessa epopeia burra, vemos que a estratégia de Dirceu e seus comparsas era a tomada do poder pelo apodrecimento das instituições burguesas, uma espécie de “stalinismo de resultados”.

Os quadrilheiros do governo não são de esquerda, não; são de direita, autoritários. O incrível é que os intelectuais catequizados ainda pensam: “o PT desmoralizado ainda é um mal menor que o inimigo principal — os tucanos neoliberais”. O PT ainda é o ópio dos intelectuais. Se continuar assim, o atraso do país será perpetuado em nome da burrice “progressista”.

O diabo é que burrice no poder chama-se “fascismo”.
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Há nove sites falsos em meu nome no ar. O verdadeiro agora é www.arnaldojabor.com.br. Nas mídias sociais é Jabor Real. Me critiquem no lugar certo.

Arnaldo Jabor é Cineasta e Jornalista. Originalmente publicado em O Globo em 15 de março de 2016.

2 comentários:

Carlos dePaula disse...

No último parágrafo o Jabor se trai. A sujeira nunca é de esquerda, é sempre de direita.
Ele admite que fez papel de idiota-útil na maior parte da vida e na hora do mea-culpa ele arruma um jeito de salvar a honra da esquerda. Você, Jabor, não passa de um agente desinformador. Ainda engana muita gente, mas deverá ir para o esgoto junto com o restante dos seus companheiros.

Anônimo disse...


Para iniciantes, o fato de que, na década de 1920, o fascismo e as ideias fascistas fossem muito populares na esquerda americana é uma simples constatação. Em muitos aspectos, os pais fundadores do liberalismo moderno, homens e mulheres que construíram as bases intelectuais do New Deal e do Estado de bem-estar social, pensavam que o fascismo parecia uma ideia bastante boa. Ou, para ser mais justo: muitos pensavam que era um “experimento” que valia a pena fazer. Além disso, embora o odor tanto da esquerda quanto da direita americana (isso bem depois de 1930, deve-se notar) na maior parte dos casos essa repugnância não derivava de diferenças ideológicas profundas. Foi por volta desta época que Stalin concebeu a brilhante tática de simplesmente chamar de “fascistas” todas as ideias e movimentos inconvenientes. Socialistas ou progressistas alinhados com Moscou eram chamados de socialistas ou progressistas, enquanto socialistas desleais ou que se opunham a Moscou eram chamados de fascistas. A teoria de Stalin sobre o fascismo social tornou até mesmo Franklin Roosevelt um fascistas, segundo a opinião de comunistas leais em toda parte. [até] ... Leon Trotsky foi marcado para morrer por supostamente haver feito um complô para dar um “golpe fascista”. Embora essa tática mais tarde tenha sido deplorada por muitos esquerdistas americanos, é surpreendente o número de idiotas úteis que se deixaram levar por ela na época e o longo tempo que durou sua meia-vida.

Jonah Goldberg, Fascismo de Esquerda, a história secreta do esquerdismo americano. Editora Record, 2010.