quinta-feira, 31 de março de 2016

A Moeda tem dois lados


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Renato Sant'Ana

"Não podemos esquecer o passado, mas quando encontramos coragem para enfrentá-lo, então é quando nós construímos um futuro melhor." São palavras de Barack Obama (reproduzidas pelo jornalista Clóvis Rossi na Folha, 27/03/16), pronunciadas durante visita ao Parque de la Memoria, em Buenos Aires, que rende homenagem às vítimas da ditadura argentina (1976-83). Para Rossi, a manifestação de Obama foi "tímida", não retratando a gravidade do intervencionismo dos EUA na América Latina.

O ponderado Clóvis Rossi, por quem tenho respeito e admiração, gostaria que Obama batesse no fato de os EUA terem chancelado violações dos direitos humanos em nossos países. Não discordo. Mas vejo contradições. Ocorre que Rossi - como a quase totalidade dos jornalistas - não faz um relato razoavelmente exato daqueles anos tristes de governos ditatoriais.

Erradamente, conta-se a história de uma luta entre o bem e o mal: jovens idealistas atacados por milicos opressores. Falso! Seja por desleixo, falta de cultura ou má-fé ideológica, essa é uma mistificação.

A verdade dos fatos é que (a) o que houve nos países latino-americanos foi parte da Guerra Fria, quando o mundo se dividia entre duas grandes forças, EUA e União Soviética; (b) a razão (ou pretexto, se preferirem) para instalar os "regimes de exceção" em nossos países foi a existência, aqui, de um movimento bem articulado para criar ditaduras marxistas; (c) desde a década de 1920, jovens da região (inclusive brasileiros) eram treinados na União Soviética (depois na China e em Cuba) para, por meio da "luta armada" implantar o totalitarismo; (d) violações de direitos humanos houve de ambos os lados, sendo desonesto ocultar, por exemplo, os "justiçamentos" (assassinatos) que a "luta armada" praticava mediante julgamentos sumários sem direito de defesa às vítimas; (e) ninguém é santo nessa história, um lado venceu, outro perdeu.

Obama foi mesmo muito brando. Apesar disso, Mostrou-se mais sincero do que a maioria dos nossos jornalistas e intelectuais. Agora, qual teria sido a reação de nossa imprensa, caso Obama, além de referir o patrocínio do seu país às violações (como gostaria Rossi), lembrasse também os abusos do movimento subversivo da Argentina? Ainda, por que a inescrupulosa violência da extrema-esquerda segue sendo intocável?

"Não podemos esquecer o passado". Pior do que esquecer, porém, é dar lhe uma versão enganosa. Talvez aí esteja a explicação para que, em pleno século XXI, haja uma ditadura na Venezuela e outros governos queiram seguir-lhe as pegadas.

Papel de jornalista é criticar. Clóvis Rossi é dos bons. Mas, óbvio, exercício crítico não é monopólio do jornalismo. Façamos, pois, a nossa parte. Com algumas décadas de redemocratização da América Latina, já é hora de, como adultos, analisarmos com distanciamento os regimes autoritários.

Quer dizer, já não cabe a atitude infantil de diabolizar nem sacralizar qualquer dos lados, eis que ambos praticaram crimes.

Basta de alimentar o mito do esquerdismo!


Renato Sant'Ana é Psicólogo e Bacharel em Direito

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