terça-feira, 1 de março de 2016

Comunismo e Terrorismo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo, que pretendi resumir, publicado em algumas das 917 páginas do “Livro Negro do Comunismo”,é de autoria de REMI KAUFFER, especialista em História da Informação, do Terrorismo e dos Aparelhos Clandestinos.

- O MCI e as Insurreições Armadas

Nos anos 20 e 30, o Movimento Comunista Internacional concentrou-se na organização de insurreições armadas, todas mal sucedidas. Essa forma de ação foi então abandonada e passou-se a aproveitar, durante os anos 40, as guerras de libertação nacional contra o nazismo e o militarismo japonês e, nos anos 50 e 60, as guerras de descolonização para criar verdadeiras formações militares – os guerrilheiros –, grupos que se transformaram, pouco a pouco, em tropas regulares, em verdadeiros exércitos vermelhos. Na Iugoslávia, na China, na Coréia do Norte e, mais tarde, no Vietnã e no Cambodja, essa ação permitiu aos partidos comunistas a subida ao Poder. Entretanto, o fracasso da guerrilha na América Latina incitou os comunistas a voltarem às ações ditas terroristas. 

- A Distinção entre Terrorismo e Insurreição Armada

É verdade que a distinção entre terrorismo puro e simples e a preparação de uma eventual insurreição armada é relativa; são, muitas vezes, os mesmos homens que operam no terreno, tratando-se, embora, de tarefas diferentes, Essas formas de ação não são, aliás, mutuamente exclusivas. Numerosos movimentos de libertação nacional de acordo com a terminologia em vigor combinavam terrorismo e guerrilha na sua ação armada, como, por exemplo, a Frente de Libertação Nacional e o Exército de Libertação Nacional na Argélia.

- A Criação da FPLP

A mão de Moscou não é, pois, onipresente. Mas nem por isso deixou de representar um papel ativo a certas formas de terrorismo no Oriente Médio.
A FPLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina) de George Habash, declarando-se defensora de um marxismo radical, esse movimento, muito bem estruturado, organizava e reivindicava atentados terroristas e espetaculares desvios de aviões comerciais. Inaugurada em julho de 1968 com o desvio de um Boeing da El Al, e em dezembro com o atentado ao aeroporto de Atenas, essa estratégia culminou em 1970, pouco antes da derrota dos palestinos pelas tropas do rei Hussein, da Jordânia. No aeroporto de Zarka, para onde haviam sido desviados, ficando os seus passageiros retidos como reféns, a FPLP fez explodir um Boeing da TWA, um DC-8 da Swissair e um Viscount VC-10 da BOAC.

- A Fundação da FDLP

Preocupado com essa viragem terrorista, demasiado acentuada, um dos quadros da organização, NAYEF HAWATMEH, decidiu-se pela cisão, em 1970/1971, fundando a FDLP (Frente Democrática para a Libertação da Palestina). Em nome do necessário “trabalho de massas” e do“internacionalismo proletário”, essa organização, cada vez mais alinhada com posições comunistas ortodoxas, repudiou publicamente o terrorismo que ela própria havia praticado durante certo tempo. Assim, a FDLP parecia, em princípio, o melhor aliado palestino dos comunistas. Mas, paradoxo apenas aparente, a KGB reforçou, nessa mesma ocasião, o seu apoio à FPLP. E, como sempre é possível encontrar alguém mais extremista, HABASH depressa se viu ultrapassado pelo seu braço direito e “chefe de operações”, WADDI HADAD, um antigo cirurgião-dentista diplomado pela Universidade Americana de Beirute.

- O Inventor do Terrorismo Moderno – A Fundação da FPLP

Para PIERRE MARION, ex-chefe da DGSE, os serviços especiais franceses, HADDAD é o verdadeiro inventor do terrorismo moderno. “Foi ele que imaginou as estruturas; foi ele que formou os principais responsáveis; foi ele que aperfeiçoou os métodos de recrutamento e de formação e foi ele que afinou as táticas e as técnicas”. No final de 1973, início de 1974, ele separou-se da FPLP para criar a sua própria estrutura, a FPLP-Cose (FPLP - Comando de Operações Exteriores), inteiramente dedicada ao terrorismo internacional, enquanto a organização de HABASH se esforçava por levar adiante outras atividades, como tentativas de operações de guerrilha contra o exército israelense e trabalho de massas nos campos de refugiados palestinos.

- O Apoio da KGB

A KGB tomou, no entanto, a decisão de apoiá-lo, como se pode comprovar por essa claríssima mensagem datada de 23 de abril de 1974, emitida pela KGB, destinada a LEONID BREJNEV: “O Comitê para a Segurança do Estado mantém, desde 1968, contatos efetivos e clandestinos com WADDI HADDAD, membro do bureau político da FPLP, chefe das Operações Exteriores da FPLP. Por ocasião do seu encontro com o chefe da rede da KGB no Líbano, em abril último, WADDI HADDAD expôs confidencialmente o programa dos projetos de atividades de subversão e de terrorismo da FPLP, cujos pontos essenciais são indicados abaixo” (e segue-se o detalhamento do programa).

- O Surgimento de Ilitch Ramirez Sanchez (“Carlos”)

O melhor aluno de WADDI HADDAD foi um jovem venezuelano chamado ILICHT RAMIREZ SANCHEZ, mais conhecido pelo pseudônimo de “Carlos” que, desiludido com a fraca atividade desenvolvida pelos partidos comunistas latino-americanos, sentiu-se disponível para uma aventura violenta e radical. Os dois homens foram trabalhar com os remanescentes de um grupo terrorista asiático, o Exército Vermelho Japonês (EVJ), criado nos anos 60, durante o período de radicalização do movimento estudantil nipônico e no auge do maoísmo. Em maio de 1972, três membros do EVJ, sob as ordens da FPLP, executaram a matança no aeroporto de Lod, em Tel Aviv, cujo saldo foi de 28 mortos.

- As “Atividades” de Ilitch Ramirez Sanchez

Carlos”, conforme confessou ao Juiz Bruguière, após ter sido preso, manteve relações com cerca de 15 serviços secretos dos países árabes e países do Leste; revelou ter estudado marxismo-leninismo na Universidade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou; e ter-se tornado “operacional” no início de 1971, logo após ter chegado à Jordânia.
Em Paris, em 27 de junho de 1975, “Carlos” matou dois policiais e feriu gravemente um terceiro. Em dezembro desse mesmo ano liderou um assalto às instalações da OPEP - Organização dos Países Exportadores de Petróleo -, em Viena. Balanço: três mortos e fuga para a Argélia. Em seguida, ele vai à Líbia, ao Iemen, ao Iraque, à Iugoslávia e à RDA, onde os serviços do MfS (Ministério da Segurança do Estado, a famosa Stasi) lhe dedicam uma atenção muito especial por ele ser capaz de executar os golpes mais audaciosos.

- O Surgimento da Organização “Separat

O nome de código de sua organização para a Stasi era “Separat”.
Todavia, nada disso o impedia de interessar-se em manter contatos bastante estreitos com os romenos ou de importunar a Segurança de Estado húngara com a sua propensão em fazer Budapeste a sua base de retaguarda. O seu grupo, rebatizado como nome de Organização de Luta Armada para a Libertação Árabe continuava a multiplicar os mais mortíferos atentados. Assim, o coronel VOIGT, da Stasi, atribuiu à “Separat” uma grande parte da responsabilidade no atentado de 15 de agosto de 1983 contra a Casa da França de Berlim Ocidental, com dois mortos, cometido, segundo ele, por outro grupo terrorista ligado ao bloco do Leste e com sede em Beirute, o ESALA (Exército Secreto para a Libertação da Armênia).

- O Grupo “Baader”, surgido da “Fração do Exército Vermelho”

Uma outra implicação direta dos países do Leste no terrorismo internacional moderno foi a manipulação da Fração do Exercito Vermelho, chamada pela imprensa de “Grupo Baader”, na Alemanha. Nascida da contestação estudantil, essa pequena organização  , formada por cerca de 50 membros diretamente ativos e movimentando cerca de mil pessoas, lançou-se, nos anos 70, num terrorismo demonstrativo, visando especialmente aos interesses americanos. Depois de 1977, quando do assassinato do “patrão dos patrões” da Alemanha Ocidental, Hans Martin Schleyer, seguido na morte na prisão dos seus chefes, Ulrike Meinhof e Andreas Baader, o grupo encontrou refúgio do outro lado do Muro de Berlim, a troco de uma subordinação, cada vez mais acentuada, à Stasi, da qual passou a ser, de certa forma,o braço armado oculto. Após a queda do Muro e da reunificação da Alemanha, os últimos sobreviventes foram presos no Leste, onde residiam.

- A Criação do Movimiento de Acción Revolucionaria, no México

A manipulação de guerrilhas e de grupos terroristas nem sempre é fácil. Exige tato e um sentido político muito apurado. Talvez tenha sido por essa razão que, em 1969/1970, a KGB, na pessoa de um dos seus mais brilhantes elementos, OLEG MAXIMOVITCH NETCHIPORENKO, e com a ajuda dos norte-coreanos, decidiu criar, quase que por inteiro, um movimento sob as suas ordens, oMovimiento de Acción Revolucionaria (MAR), que viria a ser desmantelado pela polícia mexicana em 1971. Certamente, o objetivo dessa manobra tão arrojada era colocar-se ao abrigo dos exageros, indisciplinas e outras iniciativas infelizes dos grupos castristas e paramaoístas.

- O Surgimento dos Grupos de Resistência Antifascistas Primeiro de Outubro, na Espanha 

Alguns escaparam ao controle de seus supostos mentores. A FRAP (Frente Revolucionária Antifascista e Patriótica) espanhola flertou durante algum tempo com os chineses e, mais tarde, no início dos anos 70, com os albaneses, na esperança – que mais tarde se revelaria vã – de conseguir armas, tendo-se dissolvido para dar lugar ao GRAPO (Grupos de Resistência Antifascistas Primeiro de Outubro)

- O Sendero Luminoso, uma Criação de Abimael Guzman, no Peru

Quanto ao Sendero Luminoso peruano, de Abimael Guzman, que originariamente se pretendia como detentor do mais puro maoísmo, e especialmente da “guerra popular prolongada”, ele dedicava, em contrapartida, uma profunda execração a Deng Xiaoping e aos novos dirigentes de Pequim. Em dezembro de 1983, inclusive, ele tentou atacar a embaixada chinesa de Lima.

- Os Atentados Terroristas

Em casos bastante raros – porque o risco passou a ser demasiado grande na atualidade – os países comunistas praticaram, diretamente, atentados terroristas por intermédio de seus serviços especiais. Foi o que aconteceu em 1987, quando uma equipe de dois agentes norte-coreanos abandonou na escala de Abu Dabi uma bomba dentro de um transistor a bordo de um avião da Korean Air (linha aérea sul-coreana) de partida para Bangkok. A explosão provocou a morte de 115 pessoas. Um dos terroristas, desmascarado, suicidou-se, enquanto o outro confessou tudo, tendo mesmo, depois, escrito um livro a respeito.

Finalmente, a realidade se impôs: a Coréia do Norte foi, sem dúvida, até 1997, o único país comunista a praticar de forma sistemática o terrorismo de Estado.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Anônimo disse...

Saber um mínimo da História é fundamental. Confesso que nunca procurei entender como surgiram e agiam esses grupos terroristas e guerrilheiros internacionais. Aprendi muito com esse texto. Obrigado.

Anônimo disse...

Ações violentas hoje promovidas pelo MST não são meras coincidências.