sexta-feira, 11 de março de 2016

"Crise Brasileira"


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Maynard Marques de Santa Rosa

Educação e cultura são requisitos essenciais de civilização. Quando predomina a ignorância e precários são os costumes, a instabilidade social é permanente. No caso do Brasil, há mais a complicação de uma diversidade alucinante de caracteres e opiniões, que Gilberto Freyre atribuiu à “mestiçagem psicológica” das raças formadoras da sociedade. O povo formou-se nos engenhos de açúcar, cresceu e migrou para as cidades, mas ainda não superou o estágio sociológico da adolescência. Sem consciência do interesse geral e sem maturidade para associar opiniões que expressem a vontade da maioria, é suscetível à propaganda de massa e à manipulação política. Essa dissociação de interesses é responsável pela profusão de partidos políticos inconsistentes. Por isso, a condição natural do Brasil é de equilíbrio instável; quando se rompe, instala-se uma crise.

A crise atual tem três dimensões que se imbricam no mesmo cenário: uma política, uma econômica e uma moral. Para bem compreender o fenômeno, é preciso avaliar o papel do governo na economia. No Brasil, o setor público é empreendedor, sócio e regulador da maior parte dos negócios. O eminente jurista, sociólogo e historiador Raymundo Faoro, em sua obra Os Donos do Poder, provou que a economia nacional não é capitalista nem socialista, e sim, patrimonialista.

O sistema surgiu em Portugal, após a revolução de Avis, em 1385, quando D. João I adotou as diretrizes recomendadas pelo letrista Álvaro Pais, para conciliar interesses das cortes que o elegeram: “Senhor, fazei por esta guisa: dai aquilo que vosso não é, prometei o que não tendes, e perdoeis a quem vos não errou, e ser-vos-á de grande ajuda para tal negócio em que sois posto”.  Com o tempo, formou-se na Corte um estamento burocrático, que foi se confundindo com o poder e se renovando através das gerações, a misturar os negócios públicos com os interesses privados. O patrimonialismo veio de Portugal para o Brasil, onde persiste como ressaibo do mercantilismo.

A crise econômica atual foi deflagrada pelo déficit fiscal. Acostumado ao superávit contínuo desde 2005, o governo do PT gastou mais do que podia em 2014. Para ganhar a eleição, ignorou a queda de arrecadação, manteve os subsídios ao consumo e inflou os programas sociais. Usou as pedaladas fiscais, para pagar benefícios sociais com recursos próprios do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal; deixou de cumprir o superávit previsto de R$ 99 bilhões e postergou R$ 226 bilhões de suas contas correntes como restos a pagar em 2015. Mesmo assim, o déficit chegou a R$ 90,3 bi, segundo o ex-ministro Joaquim Levy. O balanço anual de 2014 foi rejeitado, unanimemente, pelo TCU, por infração à Lei de Responsabilidade Fiscal.

Em 2015, o plano de ajuste fiscal previa cortes limitados de despesas e o aumento de impostos, o que gerou resistências no Congresso. O governo encaminhou a proposta orçamentária de 2016 com um déficit de R$ 30,5 bilhões, para forçar a aprovação da CPMF. O resultado foi o rebaixamento da nota do Brasil pela agência Standard & Poor, com reflexo no câmbio e nas taxas de juros. O dólar passou de R$ 4,00 e a inflação voltou a recrudescer. A economia mergulhou em recessão. A reação veio com um discurso otimista, prometendo uma retração do PIB inferior a 1% e a retomada do crescimento em 2016. Porém, em setembro, outra agência de risco, a Fitch, rebaixou a nota de crédito do Brasil, mas a notícia circulou discretamente.

A retração real foi de 3,8 %, conforme dados do IBGE. E, como não houve ajuste, o déficit de 2015 chegou a R$ 115 bilhões, 27% maior do que o de 2014, de acordo com a STN. A dívida pública cresceu 3,5%, devido aos juros, e já passa de R$ 2,8 trilhões. Os investimentos das empresas caíram 14%. O desemprego aumentou, atingindo mais de um milhão e meio de novos desempregados, a maior parte em S. Paulo. A inadimplência da União afetou os Estados da Federação, inclusive o Distrito Federal. Somente o Pará fechou 2015 em condições de equilíbrio fiscal. Os demais enfrentam dificuldade, até mesmo, para pagar os salários dos servidores públicos.

A explicação do governo tem o viés patafísico dos discursos do V Congresso Nacional do PT. Não admite a crise, nem reconhece que houve excesso de liquidez. O diagnóstico do ministro atual é a falta de investimento. Assim, em vez de um corte cirúrgico, promete injetar R$ 83 bilhões de fundos como o FGTS, aumenta impostos e recria a CPMF. Enquanto isso, a agência Standard & Poors rebaixa o Brasil pela segunda vez, seguida da Moody`s em dois graus.

A crise política é fruto do choque da realidade, que impactou a credibilidade do governo Dilma. Quando a aprovação da presidente caiu para um dígito, a coligação governista no Congresso entrou em autofagia, tornando inviável a aprovação do pacote de ajuste.

O PT insiste na proposta de gastos sociais e injeção de crédito, que pressiona a dívida pública, para torná-la impagável, parecendo desejar a “crise orgânica” de Gramsci.  Atualmente, com o processo decisório paralisado pelo “impeachment”, a tendência é agravar-se a recessão. Se não houver ajuste este ano, o PIB pode encolher mais de 3% e empurrar a depressão para 2017.

A crise moral emergiu com os escândalos recorrentes do “mensalão”, “petrolão” e eletronuclear. A operação “Lava-Jato” mostrou que a Petrobras foi transformada em caixa 2 de um projeto político. Os recursos envolvidos na fraude equivalem à soma dos orçamentos da Bolívia e do Paraguai. O balanço de 2014 da empresa estimou as perdas por má gestão em R$ 44,6 bilhões. O prejuízo foi contabilizado em R$ 21,6 bilhões, inclusive, as propinas, orçadas em R$ 6,2 bilhões.

Descobriram-se, também, transações envolvendo políticos da base aliada e da oposição, com recursos da Petrobras e dos Fundos de Pensão, parecendo que a corrupção tornou-se endêmica no País. A presidente foi citada na delação de Delcídio do Amaral. Os presidentes da Câmara e do Senado já estão implicados. A tramitação da lei de repatriação de depósitos nos paraísos fiscais com 30% de imposto indica o interesse de muitos em se livrar da Justiça no futuro.

Convém lembrar que a ineficiência do setor público aumentou com a politização dos quadros promovida pelos governos petistas. O Estado foi hipertrofiado e o seu custo vegetativo fez multiplicar a carga tributária. A administração não tem sido capaz sequer de executar o orçamento anual. A falta de rumo da legislação gera insegurança jurídica para grandes investimentos.

A partir de 2003, o PT passou a tocar o seu projeto revolucionário com a doutrina de Antonio Gramsci, preconizada pelo Foro de São Paulo. A meta é “desconstruir” a cultura burguesa da sociedade, para impor a sociedade marxista. Essa cartilha age como diretriz de campanha de um conflito de 5ª geração, que emprega a arma psicológica e a mobilização popular no lugar da violência, para desestabilizar a sociedade e alcançar os seus objetivos.

O projeto ideológico foi institucionalizado no PNDH-3, convertendo a luta de classes em dialética das antinomias sociais, para fomentar os movimentos das minorias contra a cultura tradicional. Abraçou as bandeiras do movimento feminista internacional, a ideologia de gênero e os movimentos indigenista e ambientalista, aqui plantados por fundações estrangeiras.

O petismo ocupou os espaços da administração pública e dos setores vitais da sociedade, com a intenção de conquistar a “hegemonia”, isto é, o consenso da opinião pública em torno das teses consideradas “politicamente corretas”. Já são 22.700 cargos de nível DAS, somente na administração direta e nas estatais. A Petrobrás, o BNDES e os fundos de pensão foram aparelhados. Paralelamente, promoveu a ocupação das cátedras das universidades e escolas públicas, iniciada na década de 1970, para transformar as redes de ensino e cultura em instrumentos de propaganda política.

A política econômica inspirou-se no modelo chinês, para utilizar as grandes empreiteiras no socorro aos regimes e movimentos de esquerda da América Latina. Investiu capital do BNDES em obras no exterior e em setores internos que impactam o PIB, como a construção civil, a mineração e a indústria automobilística, estimulando a formação de um quadro de megaempresários dependentes do Estado. A criação de “players” na economia oculta a intenção ideológica de preparar a estatização desses setores em uma fase posterior.

As relações exteriores passaram à tutela do Foro de São Paulo. A diplomacia adotou viés ideológico, terceiro-mundista e antiamericanista. No entanto, contemporiza com os interesses globalistas que patrocinam as pressões ambientalistas e indigenistas e enfraquecem a soberania nacional na Amazônia e no Centro-Oeste. O próprio embaixador brasileiro em Genebra articulou a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, em 2007.  O Itamaraty relegou a postura centenária de não ingerência em assuntos internos, para intervir nas crises de Honduras, Paraguai e Palestina, com prejuízo da reputação brasileira; aliou-se ao movimento bolivariano, para fundar a UNASUL, em detrimento do MERCOSUL. E, por conveniência ideológica, cedeu a pressões bolivianas e paraguaias lesivas aos interesses da Petrobrás e da Itaipu Binacional.

Por sua vez, o sistema representativo em vigor, também, é caro e está hipertrofiado, o que causa a paralisia do Legislativo. São 35 partidos políticos, muitos deles criados para sigla de aluguel; 513 deputados federais e 81 senadores. O gigantismo faz esse Poder ceder espaço aos demais, contribuindo para postergar a solução de problemas candentes, como os da segurança pública e da previdência social.

A oposição não consegue aproveitar o momento político para se afirmar como alternativa. O PSDB e os demais condôminos do estamento tendem a conciliar interesses com os adversários, para preservar vantagens recíprocas. Enquanto isso, a classe média parece despertar da longa apatia de duas décadas, para exercer protagonismo nas redes sociais.

Os editoriais da mídia publicam alertas recorrentes sobre a gravidade da situação, mas a opinião pública mantém-se inerte. O estado mental coletivo faz evocar a tese da psicoterapeuta Marie Louise Von Franz, pesquisadora master da equipe do Dr. Jung, em 1961: “Quando se manipula a opinião pública com apelos antinaturais, provoca-se uma repressão dos instintos que causa dissociação neurótica e enfermidade mental”. Felizmente, ela concluiu com uma frase de esperança: “Os manipuladores podem alcançar sucesso temporário no início, mas acabam por fracassar no longo prazo”.

Finalmente, uma visão metafísica mostra que o Criador legou ao povo brasileiro um paraíso tropical de recursos naturais, para ser o berço da sua obra prima: uma sociedade mestiça, livre de preconceitos, progressista e fraterna; mas as criaturas perturbam o destino coletivo para satisfazer os próprios anseios. Portanto, é preciso discernir a realidade, para separar o joio do trigo e fazer recobrar o patriotismo e a tradição justa e perfeita dos valores nacionais.

Que Deus salve e guarde o Brasil! 


Maynard Marques de Santa Rosa é General de Exército, na reserva. Extrato de palestra proferida no Seminário Maçônico de Assuntos Estratégicos do Grande Oriente do Distrito Federal, em 10 de março de 2016.

4 comentários:

Anônimo disse...

Simplesmente brilhante

Anônimo disse...

Cleonice I Ferreira disse:
Excelentíssimo General Maynard Marques de Santa Rosa seu artigo é magistral.
O sofrido povo brasileiro não tem esperança de melhorar a vergonhosa situação do nosso país por meio de eleições ou por meio das leis. Quando se fala em uma INTERVENÇÃO INSTITUCIONAL PELA FORÇAS ARMADAS, a reação das pessoas é de alivio.
O povo acredita que só as FFAA podem fazer uma profunda limpeza em nosso país.
O Excelentíssimo General, sabe que a maioria do povo está refém das organizações criminosas, estes não podem manifestar.
Os senhores sabem muito bem que pode contar com mais de 80%(oitenta por cento) dos brasileiros.
Que O Senhor do Universo abençoe e guia os nossos SOLDADOS.

Anônimo disse...

Para refletir:

Segue comentário disponível no site: http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/direto-ao-ponto/o-destino-do-brasil-depende-da-amplitude-das-manifestacoes-de-13-de-marco/

“JOÃO SIQUEIRA - 27/2/2016 às 7:49 - Com quantos pixulecos se compra um acarajé? ou O ALIENISTA 2 Aproveitando os feriados do carnaval reli o conto de Machado de Assis, ”O Alienista”. Já se disse que ler Machado na adolescência é prematuro e concordo inteiramente, só vamos apreciá-lo com mais vivência. De uma forma sucinta o conto é o seguinte:
“O Dr. Simão Bacamarte médico de Itaguaí resolve se dedicar aos estudos da psiquiatria e constrói na cidade um hospício chamado Casa Verde para abrigar todos os loucos da região e em pouco tempo o local fica cheio.
A princípio os internos eram realmente casos de loucura e a internação aceita pela sociedade, porém em certo momento Dr. Bacamarte passou a enxergar loucura em todos e a internar pessoas que causavam espanto. Por fim, a cidade encontrava-se com 75% de sua população internada na Casa Verde. O alienista, percebendo que sua teoria estava errada, resolve libertar todos os internos e refazer sua teoria.
Se a maioria apresentava desvios de personalidade e não seguia um padrão, então louco era quem mantinha regularidade nas ações e possuía firmeza de caráter, mas após algum tempo, o Dr. Simão Bacamarte percebe que sua teoria mais uma vez está incorreta e manda soltar todos os internos novamente.
Como ninguém tinha uma personalidade perfeita, exceto ele próprio, o alienista conclui ser o único anormal e decide trancar-se sozinho na Casa Verde para o resto de sua vida.”
A crise moral e o escárnio que estamos vivendo no Brasil com pixulecos e acarajés não podem fazer bem a nenhum de nós.
O juiz Moro similar a um Simão Bacamarte, vai aos poucos revelando o que muitos pressentiam, mas não tinham como provar.
Entendo que a paixão por clubes, igrejas ou partidos políticos, por definição de paixão, não pressupõe coerência, inteligência ou virtude, é paixão e ponto final.
Entristeço-me, fico revoltado, vejo que a vaca já foi para o brejo e penso se no próximo dia 13 de março também vou para rua gritar, esbravejar, chorar de raiva ou de tristeza, ou de vergonha, que se não ajudar muito, pelo menos evita um enfarte ou gastrite precoce.
A maioria de nós, no entanto, contrariando a solidão de Bacamarte tem lugar garantido na Casa Verde neste Brasil de 2016.
Se eu envio esta mensagem para você, é porque sei que estamos juntos, internados neste último refúgio de lucidez que é a nossa Casa Verde moral.
Não ligue não, em todo ano bissexto eu fico assim…”

Anônimo disse...

Para refletir:

Segue comentário disponível no site: http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/direto-ao-ponto/o-destino-do-brasil-depende-da-amplitude-das-manifestacoes-de-13-de-marco/

“JOÃO SIQUEIRA - 27/2/2016 às 7:49 - Com quantos pixulecos se compra um acarajé? ou O ALIENISTA 2 Aproveitando os feriados do carnaval reli o conto de Machado de Assis, ”O Alienista”. Já se disse que ler Machado na adolescência é prematuro e concordo inteiramente, só vamos apreciá-lo com mais vivência. De uma forma sucinta o conto é o seguinte:
“O Dr. Simão Bacamarte médico de Itaguaí resolve se dedicar aos estudos da psiquiatria e constrói na cidade um hospício chamado Casa Verde para abrigar todos os loucos da região e em pouco tempo o local fica cheio.
A princípio os internos eram realmente casos de loucura e a internação aceita pela sociedade, porém em certo momento Dr. Bacamarte passou a enxergar loucura em todos e a internar pessoas que causavam espanto. Por fim, a cidade encontrava-se com 75% de sua população internada na Casa Verde. O alienista, percebendo que sua teoria estava errada, resolve libertar todos os internos e refazer sua teoria.
Se a maioria apresentava desvios de personalidade e não seguia um padrão, então louco era quem mantinha regularidade nas ações e possuía firmeza de caráter, mas após algum tempo, o Dr. Simão Bacamarte percebe que sua teoria mais uma vez está incorreta e manda soltar todos os internos novamente.
Como ninguém tinha uma personalidade perfeita, exceto ele próprio, o alienista conclui ser o único anormal e decide trancar-se sozinho na Casa Verde para o resto de sua vida.”
A crise moral e o escárnio que estamos vivendo no Brasil com pixulecos e acarajés não podem fazer bem a nenhum de nós.
O juiz Moro similar a um Simão Bacamarte, vai aos poucos revelando o que muitos pressentiam, mas não tinham como provar.
Entendo que a paixão por clubes, igrejas ou partidos políticos, por definição de paixão, não pressupõe coerência, inteligência ou virtude, é paixão e ponto final.
Entristeço-me, fico revoltado, vejo que a vaca já foi para o brejo e penso se no próximo dia 13 de março também vou para rua gritar, esbravejar, chorar de raiva ou de tristeza, ou de vergonha, que se não ajudar muito, pelo menos evita um enfarte ou gastrite precoce.
A maioria de nós, no entanto, contrariando a solidão de Bacamarte tem lugar garantido na Casa Verde neste Brasil de 2016.
Se eu envio esta mensagem para você, é porque sei que estamos juntos, internados neste último refúgio de lucidez que é a nossa Casa Verde moral.
Não ligue não, em todo ano bissexto eu fico assim…”