segunda-feira, 14 de março de 2016

Crise complexa


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Sérgio Besserman Viana

Uma situação complexa exige diagnóstico igualmente complexo em todas as suas dimensões. Uma das vantagens de não ceder à tentação das simplificações é evitar a polarização rasa ou a busca de bodes expiatórios, em um mundo dividido entre anjos e demônios.

O PT tem imensas responsabilidades na gestação da crise. A nova política econômica destruiu, desde 2008, lenta, gradual e seguramente as bases da estabilidade macroeconômica. Ao invés de se opor ao patrimonialismo de sempre dos donos do poder, tantas vezes exercido por meios ilegais, associou-se a ele e o fortaleceu. Merece essas e muitas outras condenações e pagará o preço pelo “bolchevismo sem projeto”, na arguta e comprovada observação do senador José Serra, em uma entrevista há mais de 12 anos.

Mas e a oposição? Geralmente é acusada de não ter ideias, mas essa crítica é de uma suavidade que não se justifica. O deserto programático significou também um aval a um sistema eleitoral e político que tem no dinheiro o fator quase exclusivo de competitividade, dentro e fora dos partidos. A acusação moral ao PT é mais do que correta, mas sem a ponderação de que o sistema foi agravado, mas o patrimonialismo e relações espúrias com o Estado são realidade desde as sesmarias, fica maculada.

Em artigo no GLOBO, fim de semana passado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso exerceu com coragem seu papel: “É preciso abrir o jogo: não se trata só de Dilma ou do PT, mas da exaustão do atual arranjo político brasileiro”. E segue com crítica contundente ao sistema político eleitoral associada ao reconhecimento da abrangência do quadro: não é mais possível avançar nas aspirações da Constituição de 1988 com base em arrecadação crescente.

Fernando Henrique não disse “vamos abrir o jogo”. Ele disse: “É preciso abrir o jogo.” Faz parte da solução da crise, dada a gravidade e profundidade desta. Teria sido bom que alguns segmentos do PT pagassem a abertura, como se diz no pôquer, e se qualificassem para o jogo.

Infelizmente, como disse o cineasta José Padilha também no GLOBO, entraram em estado de negação, e esse distanciamento da realidade é um obstáculo intransponível. Terão seu tempo de purgatório (faz bem a quase qualquer força política) para se reinventar ou morrer.

Por enquanto, assumiram personalidade esquizoide e querem ser governo e oposição ao mesmo tempo. Numa crise grave, é custoso demais ter um governo imobilizado dessa forma. Por si só, isso não justifica o impedimento da presidente, que, ocorrendo, como os fatos que se acumulam parecem tornar possível, deve fortalecer a democracia sem arranhá-la.

Ninguém sabe ainda a saída. Mais do mesmo com sinal trocado não serve como mágica dessa vez. Precisamos interromper a trajetória insustentável da dívida pública. Precisamos nos inserir competitivamente na economia global para financiar as aspirações expressas na Constituição. Para isso precisamos, nada mais nada menos, de uma República Nova.

Sérgio Besserman Vianna é economista. Originalmente publicado em O Globo em 13 de março de 2016.

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