quinta-feira, 24 de março de 2016

Por quê?


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo, que estou resumindo, é de autoria de Stéphane Courtois, diretor da revista Communisme, especialista em história do Comunismo. Foi publicado em algumas das 917 páginas do “Livro Negro do Comunismo”.

- A Questão Fundamental

Para lá da cegueira, das paixões partidárias, das amnésias voluntárias, o Livro Negro do Comunismo esboça um quadro que mostra o conjunto dos atos criminosos cometidos no mundo comunista, desde o assassinato individual até os crimes em massa. Revela o desmoronamento do âmago do sistema, em Moscou, em 1991, e o acesso a uma documentação rica, mantida sob o mais estrito segredo.
Mas, na verdade, permanece a questão fundamental: “Por quê?”. Por que foi que o comunismo, surgido em 1917, se transformou numa ditadura sangrenta e, depois, num regime criminoso? Os seus objetivos só poderiam ser atingidos através da violência mais extrema? Como explicar que o crime tenha sido encarado e praticado pelo Poder comunista durante décadas, como uma medida banal, normal e vulgar?

- O Terror

“O Terror é o governo do medo, que Robespierre teoriza como governo da virtude. Criado com a finalidade de exterminar a aristocracia, o Terror torna-se um meio de submeter os malvados e combater o crime. É, por isso mesmo, um aliado da Revolução, inseparável desta, porque só ele permite a construção futura de uma República de cidadãos. Se não é ainda possível a existência de uma República de cidadãos livres, é porque os homens, pervertidos pela história passada, são maus. Através do Terror, a Revolução, essa história inédita, inteiramente nova, criará um homem novo” (François Furet, “Terror”, 1988).

Robespierre colocou, indiscutivelmente, a primeira pedra no caminho que mais tarde haveria de conduzir Lenin ao Terror. Pois foi ele próprio quem afirmou: “Para punir os inimigos da Pátria, é suficiente saber as suas identidades. Não se trata de castigá-los, mas de destruí-los’.
O inimigo é a grande justificativa do terror, pois o Estado totalitário não existe sem inimigos. Se lhe faltarem, ele os inventará. Uma vez identificados, não merecem piedade. O Poder comunista exige a repressão – ou, em momentos de crise, a eliminação – da burguesia enquanto classe. O simples fato de pertencer a essa classe já é o suficiente.

Os conjuntos dos processos de terror iniciados na Rússia por Lenin e Stalin contêm um determinado número de elementos invariáveis que se encontram, com diferentes graus de intensidade, em todos os regimes que se dizem marxistas-leninistas. Cada país ou partido comunista teve sua história específica, as suas características, locais ou regionais, os seus casos mais ou menos patológicos, mas esses se inscreveram sempre na matriz elaborada em Moscou, em novembro de 1917 e que, por esse fato, impôs uma espécie de código genérico.

-Serguei Netchaiev

Ao longo do Século XIX, o movimento revolucionário russo teve uma estreita afinidade com a violência, cuja primeira expressão radical se deve ao famoso Serguei Netchaiev. Netchaiev redigiu um Catecismo do Revolucionário, onde se definia: “Um revolucionário é um homem antecipadamente perdido. Não em interesses particulares, negócios privados, sentimentos, ligações pessoais, bens e nem sequer um nome.

Tudo nele é totalmente absorvido por um único interesse que exclui todos os outros, por um único pensamento, uma paixão: a revolução.
No seu íntimo, não apenas por palavras, mas também por atos, rompeu todos os laços com a ordem pública, com todo o mundo civilizado, com todas as leis, conveniências, convenções sociais e regras morais do mundo em que vive.O revolucionário é um inimigo implacável desse mundo e só continuará a viver para mais seguramente destruir” (Michael Coonfino, “Violence dans La violence, le débat Bakunine-Netchaiev”, Paris, 1973).

Em seguida Netcheyev especificava os seus objetivos: “Toda essa sociedade imunda deve ser dividida em várias categorias. A primeira compreende os condenados à morte imediata. A segunda categoria deverá abranger os indivíduos aos quais a vida é concedida provisoriamente, a fim de que, através de seus atos monstruosos, incitem o povo à insurreição inelutável”  

Netcheyev teve seguidores. Em 1 de março de 1887, deu-se um atentado contra o Czar Alexandre III. O atentado falhou, mas seus autores foram presos. Entre os presos estava Alexandre Ilich Ulianov, irmão mais velho de Lenin. Ele foi enforcado juntamente com quatro de seus cúmplices. Posteriormente Lenin, à revelia dos membros do Politburo, decidiu e organizou o assassinato dos membros da família imperial dos Romanov, em 1918.

- A Continuidade da Violência Política

O Czar Ivan IV, cognominado “O Terrível”, não tinha ainda 13 anos quando, em 1543 mandou seus cães despedaçarem o príncipe Chuiski, seu Primeiro-Ministro. Em 1560, a morte da mulher lança-o numa fúria vingativa: vê em cada pessoa um potencial traidor; extermina, em círculos concêntricos, todos os próximos dos seus inimigos reais ou imaginários. Cria uma guarda – aEpritchnina -, que tem todos os poderes e exerce o terror individual e coletivo. Em 1572, liquida os membros da Eprichtnina, antes de assassinar o seu próprio filho e herdeiro.
Pedro, o Grande, não se mostrou mais brando, nem com os inimigos declarados da Rússia, nem com a aristocracia e nem com o povo. Assassinou, também, com as próprias mãos, seu filho e herdeiro.

- A Relação entre as Violências Czarista e Bolchevique

Tomas Masaryk, fundador da República Tcheca em 1918, grande conhecedor da Rússia revolucionária por lá ter vivido entre 1917 e 1919, estabeleceu imediatamente a relação entre as violências czarista e bolchevique. Em 1924 escreveu: “Os russos, os bolcheviques e os outros são filhos do czarismo. Continuam a usar o uniforme czarista, ainda que do avesso. Os bolcheviques não estavam preparados para uma revolução negativa. E isso quer dizer que, por fanatismo doutrinal, pobreza de espírito e falta de cultura, cometeram um grande número de destruições supérfluas, Censuro-lhes, especialmente, o fato de, a exemplo dos Czares, terem um verdadeiro prazer em matar.”

Foi a I Guerra Mundial, uma violência intensa ao longo de 4 anos, sob a forma de uma matança ininterrupta e sem saída, e que levou à morte 8,5 milhões de combatentes, que gerou a revolução russa.

- Os Chefes Bolcheviques perante a Guerra

Paradoxalmente, nenhum dos chefes bolcheviques participou da guerra, quer por estarem no exílio – Lenin, Trotski, Zinoviev -, quer por terem sido relegados para os confins da Sibéria – Stalin, Kamenev -. Na sua maioria eram homens de gabinete ou oradores de comícios, sem experiência militar. Nunca haviam participado de um combate real. Até a tomada do Poder suas guerras tinham sido verbais, ideológicas e políticas. Possuíam uma visão abstrata da morte, dos massacres, da catástrofe humana.
Essa ignorância pessoal dos horrores da guerra iria jogar em favor da brutalidade. Responsabilizavam o capitalismo pela matança, justificando a priori a violência revolucionária: pondo termo ao reinado do capitalismo, a revolução acabaria com os massacres.

Não deixa de ser verdade, como enfatizou François Furet em “O Passado de uma Ilusão”: “A guerra é feita por massas de civis arregimentados que passam da autonomia do cidadão para uma obediência militar cujo período de tempo desconhecem e são mergulhados num inferno de fogo, onde se trata mais de ‘agüentar’ do que calcular, de ousar ou de vencer (...). A guerra deu uma nova legitimidade à violência e ao desprezo pelo indivíduo, ao mesmo tempo que enfraqueceu uma cultura democrática ainda adolescente e revitalizou uma cultura de servidão.”   

- O Caminho Extremamente Brutal imposto pelos Bolcheviques

A I Guerra Mundial e a violência russa permitem, é certo, compreender melhor o contexto no qual os bolcheviques chegaram ao Poder, mas não explicam, no entanto, o caminho extremamente brutal que adotaram desde o início. O homem que impôs essa violência, assim como impôs ao seu Partido a tomada do Poder, foi Lenin.

Lenin instaurou uma ditadura que depressa se revelou terrorista e sanguinária. Embora o “Terror Vermelho” só tenha sido “oficialmente” inaugurado em 2 de setembro de 1918, existiu “um terror antes do terror”. A partir de novembro de 1917, Lenin dedicou-se a organizar o terror, e isso na ausência total de qualquer manifestação de oposição por parte dos demais partidos ou dos diferentes componentes da sociedade. No dia 4 de janeiro de 1918, ele dissolveu a Constituinte, eleita por sufrágio universal  -pela primeira vez na História da Rússia -, e mandou disparar sobre os seus defensores que protestavam nas ruas.

Essa primeira fase do terrorismo foi imediatamente denunciada, com grande vigor, por um socialista russo, o chefe dos mencheviques, Yuri Martov. Em agosto de 1918, ele escreveu: “Desde o momento em que conseguiram chegar ao Poder, e tendo já abolido a pena de morte, os bolcheviques começaram a matar. A matar os prisioneiros da guerra civil, como fazem os selvagens. A matar os inimigos que se renderam, após os combates (...)”.

- A Construção do Socialismo

O objetivo prioritário de Lenin era manter-se o mais tempo possível no Poder. Por que seria a conservação do Poder tão importante, ao ponto de justificar a utilização de todos os meios e o abandono dos princípios morais mais elementares? Porque só ela – a conservação do Poder-permitiria a Lenin concretizar as suas idéias: a construção do socialismo.

A esse respeito, pode-se perguntar: o que existe de marxista no leninismo anterior a 1914 e, sobretudo, posterior a 1917? É certo que Lenin baseava sua posição em algumas noções marxistas elementares: a luta de classes, a violência inerente à História, o proletariado como classe portadora do sentido da História. No entanto, em 1902, no seu famoso texto “Que Fazer?”, propunha uma nova concepção de partido revolucionário formado por profissionais, reunidos numa estrutura clandestina, de disciplina quase militar. Retomava e desenvolvia o modelo de Netchaiev, muito distante da concepção das grandes organizações socialistas alemãs, inglesas e francesas.

Foi em 1914 que se deu a ruptura definitiva com a II Internacional, sendo que a quase totalidade dos partidos socialistas, confrontados com a força do sentimento nacional, passou a apoiar os respectivos governos e a utopia no Poder tornou-se uma utopia mortífera.

- A Política Leninista

Desde antes de 1917, Lenin mostrara a sua convicção profunda de que era o único detentor da verdadeira doutrina socialista, capaz de decifrar “o verdadeiro sentido da História”. A irrupçao da revolução russa e, sobretudo, a tomada do Poder, foram interpretados por Lenin como “sinais do Céu”, uma confirmação gritante e irrefutável de que a sua ideologia e suas análises eram infalíveis e tornavam-se a Palavra do Evangelho, um dogma e a verdade absoluta e universal.

Foi a elevação da ideologia e da política à condição de Verdade Absoluta, porque “científica”. É ela que comanda o partido único. É ela que justifica o Terror.

A apropriação do símbolo do proletariado foi uma das grandes imposturas do leninismo, e provocou, a partir de 1922, a réplica cruel de Alexandre Chliapnikov, o único dirigente dos bolcheviques procedente do operariado que, quando do XI Congresso do Partido disse o seguinte: “Vladimir Ilich afirmou ontem que o proletariado, enquanto classe e no sentido marxista, não existia na Rússia. Permita-me felicitá-lo por exercer uma ditadura em nome de uma classe que não existe”.Essa manipulação do símbolo proletariado encontra-se em todos os partidos comunistas do mundo.

Com o seu livro A Ditadura do Proletariado, escrito no verão de 1918, Kautsky põe o dedo na ferida. Num momento em que os bolcheviques estão no Poder há apenas 6 meses e somente alguns indícios permitem pressagiar as hecatombes que seu sistema político provocará, Kautsky define exatamente o que está em jogo: “ (...) Os dois métodos, democracia e ditadura (mencheviques e bolcheviques) opõem-se já de uma forma irredutível, antes mesmo do início da discussão. Um exige o debate, o outro recusa-o”.

Essa análise premonitória exigia uma resposta, que foi dada por Lenin, ao escrever um texto que se tornou célebre: “A Revolução do Proletariado e o Renegado Kautsky”, no qual Lenin define claramente o cerne do seu pensamento e de sua ação: “O Estado é, nas mãos da classe dominante, uma máquina destinada a esmagar a resistência dos seus adversários de classe (...). É uma máquina que serve para esmagar a burguesia”.

Essa explicação muito sumária e redutora do que é o Estado leva-o a explicitar a essência da ditadura: “É um poder que se apóia diretamente na violência e não está de mãos atadas por qualquer lei. A ditadura revolucionária do proletariado é um poder conquistado e mantido pela violência, que o proletariado exerce sobre a burguesia”.

- Quais são os Inimigos?

A tensão subjacente à posição de Marx, entre o messianismo do Manifesto do Partido Comunista, de 1848, e a fria análise dos movimentos da sociedade, de O Capital, transforma-se sob o efeito do triplo acontecimento da Guerra Mundial, da Revolução de Fevereiro e da Revolução de Outubro, numa profunda e irremediável ruptura que fará dos socialistas e dos comunistas os mais célebres irmãos inimigos do Século XX. O que estava em jogo não deixa, por isso, de ser essencial: democracia ou ditadura; humanidade ou terror.

Totalmente imbuídos de uma paixão revolucionária, confrontados com o turbilhão dos acontecimentos, os dois principais atores dessa primeira fase da Revolução Bolchevique, Lenin e Trotski, passam a teorizar sua ação.
No tempo de Stalin os membros do partido tornam-se inimigos potenciais. Uma inovação de Stalin: os carrascos passam a vítimas. Após o assassinato de Zinoviev e de Kamenev, seus velhos camaradas, Bukharin diz à sua companheira: “Estou bastante satisfeito por terem mandado fuzilar esses cães!”. Menos de dois anos mais tarde, é ele, Bukharin, que foi fuzilado como um cão.

- O Significado do termo “Proletário”

Finalmente, nunca se poderá definir de uma maneira juridicamente inatacável o termo “proletário”. O fato de o termo “proletário” ter substituído o de “patriota”, mostra que a categoria “inimigo” é de geometria variável e pode inchar ou desinchar conforme a política do momento. 


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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