quarta-feira, 27 de abril de 2016

A Conferência de Yalta - Um pouco de História

Churchil, Roosevelt e Stalin em 1945

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

A Conferência de Yalta (cidade da Criméia, na Rússia) realizou-se de 7 a 12 de fevereiro de 1945. Foi a penúltima de uma série que os Aliados tiveram durante a II Guerra Mundial. Na primeira, a bordo de um navio de guerra, o “Prince of Wales” (14/8/1941), na Baía de Terra Nova, Churchill e Roosevelt assinaram a Carta do Atlântico, pela qual declararam:

- Nem a Inglaterra e nem os Estados Unidos procuram aumentar o território da Inglaterra e dos Estados Unidos (e cumpriram rigorosamente essa promessa).

- Só aceitarão qualquer modificação territorial nos outros países quando livremente discutida pelos respectivos povos.

- O direito de cada povo escolher a forma de governo que prefere (autodeterminação).

- Acesso de todos os povos às matérias primas do mundo.

- Colaboração internacional para assegurar a cada povo o máximo de progresso econômico e segurança social (daí a filosofia do Plano Marshall, de ajuda à Europa, da UNRRA, que alimentou as nações famintas depois da guerra, a Aliança para o Progresso, etc.).

- Liberdade dos mares.

- Criação de um sistema de paz para dar segurança a todos os povos, depois da destruição do nazismo.

- Redução geral dos armamentos.

Em 1942 as Nações Aliadas assinaram uma Declaração, com 15 países, sobre seus objetivos na guerra. Depois, esse número foi elevado a 46.
Seguiu-se, de 14 a 27 de janeiro de 1942, a Conferência de Casa Blanca, na África do Norte, também entre Churchill e Roosevelt, com a participação dos Franceses Livres. Aí foi definida a “rendição incondicional” como condição para o armistício.

Em 1 de novembro de 1943, precedida por uma conferência dos Ministros do Exterior, em Moscou, foi expedida uma declaração dos Chefes de Governo americano, inglês, chinês (Chiang Kai Shek) e russo (pela primeira vez numa Conferência dos Aliados, representado por Stalin) todos se comprometendo a organizar e manter a paz depois da vitória, a adotar uma política comum contra o inimigo, a não fazer a paz em separado, e a não intervir, com suas forças armadas, na política interna de outros países.

De 22 a 26 de novembro de 1943, voltaram a se reunir, no Cairo, Churchill, Roosevelt e Chiang Kai Shek, para tratar da guerra e da paz no Extremo Oriente. Logo a seguir, de 28 a 30, em Teerã, Churchill, Roosevelt e Stalin decidiram implementar uma política comum após a guerra.

A 21 de junho de 1944, em Chunquin, então capital da China, foi realizada outra reunião também para tratar da guerra e da paz na área do Pacífico. Representou os EUA o vice-presidente Henry Wallace. Foi aí que começou a entrega da China aos comunistas.

Em 8 de outubro de 1944, Churchill e Anthony Eden, pela Inglaterra, Stalin e Molotov, pela URSS, reuniram-se em Moscou para tratar da Polônia. O chefe do governo polonês no exílio, Mikolajezyk, chegou a Moscou apenas para tomar conhecimento da Conferência.
Finalmente, de 7 a 12 de fevereiro de 1945, ano em que se daria a vitória aliada, reuniram-se em Yalta, na Criméia, Churchill, Roosevelt e Stalin, para completar o que havia sido discutido em Teerã. O Comunicado oficial de 12 de fevereiro estabelecia o que foi resolvido:

1 – A Alemanha será atacada incessantemente até sua rendição incondicional. As condições da vitória só serão conhecidas após essa rendição. O território do Reich será ocupado e fiscalizado pelos vencedores, mediante uma Comissão, pelas três potências vencedoras e mais a França.

2 - A Alemanha deverá pagar reparações de guerra.

3 – A 25 de abril deverá ser convocada uma conferência das Nações Unidas com todas as potências que contribuíram para a guerra contra o Eixo Nazi-Fascista.

4 – Os países libertados deverão receber assistência material, militar e política para poderem recuperar sua situação anterior à guerra. Formar-se-ão governos tantos quanto possível representativos das suas forças democráticas, para convocarem, o mais depressa possível, eleições livres.

5 – A Polônia será objeto de acordo entre o governo polonês no exílio, com sede em Londres, e o governo polonês pró-soviético, com sede em Lublin.

O que a Rússia tomou à Polônia, quando a dividiu com Hitler, pelo pacto germano-soviético de 1939, será compensado pela incorporação, à Polônia, de território alemão.

Praticamente essa mesma solução foi adotada quanto à Iugoslávia, dividindo o governo entre os emigrados, iugoslavos livres, com o seu governo de Londres, chefiado pelo rei Pedro, e os de Tito, o guerrilheiro comunista.

Seguiram-se, já depois do falecimento de Roosevelt, a Conferência de S. Francisco, na Califórnia, preparatória da fundação da ONU, presidida pelo vice-presidente que assumiu o governo norte-americano, Harry S. Truman (24/4/1945). A 12/5/1945 foi adotado o “direito de veto”, que deu força à Rússia, na ONU. As três grandes potências ficaram como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, no qual têm direito a veto. A Rússia usou esse “direito de veto”, contra decisões de outras nações, mais de 80 vezes.

Em Yalta, Roosevelt, já muito doente, entregou a Europa Oriental à influência russa, contra o parecer de Churchill. Em Yalta, assim como, depois, em S. Francisco, entre os conselheiros de Roosevelt, e também entre alguns do próprio Truman, existiam diplomatas, como o jovem Alger Hiss, que chegou a secretariar a Conferência de S.Francisco, e que, posteriormente, foi comprovadamente denunciado como espião da Rússia no Departamento de Estado dos EUA, pelo antigo comunista e jornalista Wittaker Chambers, cujo livro – “Witness” – é um dos mais impressionantes do nosso tempo.

Yalta foi um erro trágico, promovido pela decadência física de um grande líder democrático, como foi o presidente  Roosevelt, manobrado por assessores entre os quais havia grande dose de ingenuidade em relação à Rússia comunista, e até alguns comunistas, como o caso de Alger Hiss.

Em Yalta, a democracia começou a perder a paz. E a Rússia, que havia facilitado a deflagração da guerra, ao assinar com a Alemanha um pacto de não-agressão, pelo qual deixou as mãos livres a Hitler para invadir a Polônia, dividindo-a com a Rússia, acabou ganhando a paz com a conquista de territórios e a influência político-militar sobre as nações libertadas. Foi ai que surgiu a questão de Berlim e o domínio sobre a Hungria, a Checoslováquia, a Polônia, a Bulgária, etc.
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O texto acima foi transcrito do livro “Em Cima da Hora”, escrito por Suzanne Labin e traduzido por Carlos Lacerda, em março de 1964!

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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