domingo, 24 de abril de 2016

A Perestroika - Os primeiros anos


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Nos anos 80 um acontecimento político perturbou a esquerda de todos os países: a perestroika, implantada pelo grande timoneiro Mikhail Gorbachev, na URSS, em 1985.

Na verdade, tinha sido Yuri Andropov, o Secretário-Geral e chefe do aparelho de segurança, seu antecessor na condução do partido, que havia começado, em 1983, a ruptura decisiva com a era Brejnev.
Tratava-se de uma estratégia integral que, a médio e em certo sentido a longo prazo, deveria mudar radicalmente todos os aspectos da vida na URSS, tornando-a, a cada dia, “mais socialista” e juntando, como Gorbachev dizia, “o socialismo e a democracia, na teoria e na prática” (“A Perestroika e o Novo Pensamento para o nosso País e para o Mundo”).
Os três eixos centrais dessa estratégia eram: a aceleração do desenvolvimento econômico e social, a remodelação do mecanismo econômico socialista e a renovação geral da superestrutura da sociedade.
“A perestroika – escreveu Gorbachev – significa a superação decidida dos processos estagnados e a ruptura do mecanismo refreador, a criação de um mecanismo eficiente e confiável de aceleração do desenvolvimento socioeconômico, que dê maior dinamismo ao desenvolvimento da sociedade no seu conjunto”.   

O processo deveria encaminhar-se para o autofinanciamento e autogestão das empresas e traduzir-se pela utilização de métodos de gestão econômica mais eficientes, por um predomínio das necessidades do consumidor sobre o produtor e por uma correta combinação dos interesses da sociedade (o plano), dos interesses do coletivo e dos interesses do indivíduo.
No entanto, tinha-se plena consciência de que esse novo mecanismo não funcionaria de maneira automática, e que a condição indispensável do sucesso da remodelação seria a participação crescente e permanente das pessoas. Essa participação seria tanto condição como resultado da remodelação.
E é aí que entra com toda a sua força o terceiro componente: a renovação geral da superestrutura da sociedade baseada numa crescente democratização desta.

A glasnost, a eliminação das zonas excluídas da crítica, a liberdade criadora, a discussão em vez de soluções administrativas, a revitalização da ação dos organismos de massa, a eleição dos quadros, as alterações no mecanismo político. Tudo isso pretendia criar – ou ressuscitar – nas massas a sensação de ser dono coletivo e individual, isto é, de ter responsabilidade direta por tudo o que acontecia no país.

Gorbachev insistia que a perestroika não seria possível a não ser por meio da democracia. Graças à democracia. Somente assim seria possível libertar a força mais poderosa do socialismo, que ele considerava ser a atividade criadora do homem.

Para Gorbachev, a perestroika significava apoiar-se na viva criatividade das massas, o desenvolvimento multilateral da democracia, da autodireção socialista, o estímulo à iniciativa, a autonomia de ação, o fortalecimento da disciplina e da ordem, a ampliação da transparência e da crítica e da autocrítica em todas as esferas da vida da sociedade. O elevado respeito pelos valores e pela dignidade do indivíduo. O desenvolvimento prioritário da vida social, orientado pela mais plena satisfação das necessidades do homem soviético quanto a condições adequadas de trabalho, de habitação, de tempo livre, de educação e assistência médica.

Continuando: a prestroika significa a mais enérgica rejeição da sociedade em relação às deformações da moral socialista, e a conseqüente implementação na vida quotidiana dos princípios da justiça social. É a unidade da palavra e da ação, dos direitos e dos deveres. É a exaltação do trabalho honrado, de qualidade, e a superação das tendências para o igualitarismo na retribuição do trabalho e no consumo.

Esse processo, assim exposto por Gorbachev, e qualificado como mais socialismo com mais democracia, foi extremamente atrativo para amplos setores da esquerda latino-americana. Muitos sentiam que havia chegado, finalmente, o momento de corrigir aspectos considerados negativos dos regimes socialistas: a falta de debate, de construção coletiva, de protagonismo popular, as diferenças de oportunidades entre os quadros dirigentes e o cidadão comum, o excesso de centralismo na planificação econômica, o que tornava a economia inoperante, quer para competir em escala mundial, quer para satisfazer as necessidades das pessoas. E talvez o mais grave: o uso de argumentos de Estado para perseguir, reprimir e assassinar centenas de milhares de cidadãos soviéticos, a começar por seus quadros mais destacados.

É claro que a leitura da prestroika não foi a mesma por parte de toda esquerda. Houve uns – fundamentalmente alguns partidos marxistas-leninistas de ideologia albanesa – que se agarraram mais às suas concepções dogmáticas, vanguardistas e sectárias. Outros deram uma guinada de 180 graus chegando a ser mais papistas que o Papa – de stalinistas passaram aperestroikos -, atitude oportunista e adesista que renegava todo o passado e punha em causa toda a estrutura teórica e organizativa que até então sustentava seus partidos.

Todavia, pouco durou o entusiasmo doskamaradas, pois depressa se viu que o processo, além do mais, foi um processo elitista de setores políticos e intelectuais, enquanto a grande massa popular se mantinha na expectativa e avançava, com velocidade crescente, para o abismo, produto da combinação da glasnost com a perestroika.

As transformações econômicas radicais, que implicavam a destruição dos velhos mecanismos que faziam funcionar a economia, sem que se tivesse uma estratégia clara de como substituí-los, provocaram uma crescente deterioração na vida dos cidadãos, fazendo o país mover-se para uma abertura política no momento em que se afundava na anarquia econômica.
Assim, o que havia começado como uma reestruturação do socialismo, foi derivando rapidamente para a sua desintegração, com a queda do Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989, o fim da URS e a posse de Boris Yeltsin, eleito pelo Parlamento, em 1991. Na história da Rússia, foi o primeiro presidente a ser eleito. 
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O texto acima foi escrito com dados extraídos do livro “Tornar Possível o Impossível – A Esquerda no Limiar do Século XXI”, de autoria da escritora chilena Marta Harnecker. É um livro que não proporciona certezas e nem soluções. Ajuda a refletir.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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