domingo, 10 de abril de 2016

A Política e a destruição do político


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O trecho abaixo é uma transcrição do livro de Alain Besançon “A Infelicidade do Século”. Besançon, membro do Institut de France, é autor de várias obras célebres, dentre as quais “A Imagem Proibida: Uma História Intelectual da Iconoclastia”, publicada no Brasil em 1997.

Antes de tomar o Poder e, para tomá-lo, os partidos comunistas e os nazistas utilizam todos os meios da política. Eles se instalam no jogo político, apesar de eles mesmos, segundo seus próprios critérios e sua disciplina interna, se colocarem fora do jogo. Por exemplo: quando o partido bolchevique reivindica a terra para os camponeses e a paz imediata, não é para se contentar com o êxito dessas duas reivindicações. Trata-se de colocar os camponeses e os soldados do seu lado a fim de lançar o processo revolucionário.

Feita a revolução, a terra é expropriada dos camponeses e a guerra será ativamente preparada sem que o partido veja nisso a menor contradição. Nenhuma ação termina no objetivo que ela atinge. Ela é englobada num movimento indefinido e só existe para propiciar outra ação situada para além do limite proclamado.

Uma vez no Poder, a política do partido fica mais do que nunca voltada para a destruição do político. As formas orgânicas de vida social, a família, as classes, os grupos de interesse, os corpos constituídos, são suprimidos. As pessoas, a partir de então, privadas de todo o direito de associação, de agregação espontânea, de representação, reduzidas à condição de átomos, são colocadas num novo enquadramento, que se modela sobre aquele que deveria existir se o socialismo existisse como sociedade. Ele assume, então, o nome de Sovietes, de uniões, de comunas. Como o socialismo só existe virtualmente, esse enquadramento só existe como coação.

É a oportunidade política que decide se os novos quadros devem expressar por seu nome o socialismo virtual ou, se lhes convém, deixar-lhes seu antigo nome para fazer crer que o velho mundo ainda é, de alguma maneira, atual: lhes darão o  nome de sindicatos, de academias, de parlamentos, de cooperativas, a homonímia podendo ser explorada politicamente. Quantas delegações de parlamentares ou prefeituras ocidentais são assim enganadas porque acreditam terem sido recebidas por parlamentares e vereadores, e não por funcionários do partido que tinham se apropriado desses nomes!

O partido nazista imitou sumariamente a destruição comunista do político. Ele também tomou o Poder escondendo seus objetivos reais, enganando seus  aliados provisórios (da direita conservadora) para, em seguida, liquidá-los. Ele também criou quadros novos e integrou neles a juventude e as “massas”.

Não era necessário, para seus objetivos, destruir imediatamente os velhos. Contentou-se em neutralizá-los e submetê-los. Sobreviveram, assim, no nazismo, os empresários, um mercado, juízes, funcionários do tipo antigo que tinham um posto, que não foram mudados, que continuaram a se orientar pelas velhas regras.

A seguir veio a guerra, que acentuou e acelerou o controle nazista. Não sabemos o que teria acontecido se ela tivesse sido ganha por eles.

O Führerprinzip (traduzível como "princípio de autoridade", "princípio do chefe" ou "princípio de supremacia do chefe”) era uma peça essencial do retorno à natureza como o concebia o nazismo. A trama social deveria se organizar em torno de uma hierarquia de chefes leais, devotados ao Reich, ligados por um juramento, e isto até o fundo da escala a partir do chefe supremo, cuja exaltação era coerente com o espírito do sistema.

O partido comunista também era hierarquizado, mas em princípio numa base democrática e eleitoral. De fato, a originalidade do partido de Lenin residiu no fato de que desde sua fundação o centro designava à “base” aqueles que deveria eleger, de tal modo que a eleição democrática se tornava simplesmente um teste do poder absoluto do centro. É que a consciência agnóstica, o saber científico fundador do partido se concentrava teoricamente no organismo dirigente e se difundia a partir desse ponto para a “base” que, remetendo o poder para o “centro” manifestava seu progresso na assimilação da doutrina e da “linha”.

Viu-se, então, aumentar um culto ao chefe desde os tempos de Lenin e que levou ao seu apogeu com Stalin. O culto subsistiu, mas, no tempo de Brejnev, o ídolo mostrava suas fraquezas. O culto do chefe é contrário à doutrina comunista, e os puristas trotskistas recusam-no com indignação. Mas trata-se de um reaparecimento da natureza real em um sistema fundado numa sobrenatureza irreal. Está mais de acordo com o caráter humano de venerar seu semelhante do que um corpo abstrato de doutrina evidentemente falso.

Assim, na única forma em que os poderes comunista e nazista encarnavam nas pessoas reais, subsistia um resto de político no seio do partido, única organização real sobrevivente. A política se reduz ao que Montesquieu imaginava do palácio otomano ou persa: uma mistura de ódio e intriga entre pessoas e clãs precariamente unidos em vista do poder pessoal, justificado ou não por uma mudança de linha no interior da mesma política de conjunto.

Trotski, Bukharin, Zinoviev, Stalin, buscavam o mesmo objetivo: o socialismo; mas seria necessário que um ou outro fosse o número um. Sucederam-se, então, em circuito fechado, as traições e os assassinatos.

O projeto comunista é declaradamente total. Ele busca, em extensão, a revolução mundial, compreendendo por isso uma mutação radical da sociedade, da cultura, do próprio ser humano. Mas autoriza a colocação em prática de meios nacionais para obter esses fins alheios à razão.

Lenin, durante a guerra, era um sonhador quimérico que sobrepunha às realidades do mundo as entidades abstratas do capitalismo, do imperialismo, do oportunismo, do esquerdismo e de muitos outros “ismos” que, em sua opinião, explicavam tudo. Ele os aplicava tanto à Suíça, como à Alemanha e à Rússia. Mas, quando ele retornou à Rússia, não havia nada tão rigorosamente “político”, no sentido maquiavélico, quanto sua conquista do Poder.

A tomada do Poder por um partido comunista é preparada por uma luta puramente política no seio de uma sociedade normalmente política. É lá que ele treina as táticas que coloca em prática depois da vitória do partido. Aquela, por exemplo, chamada de “tática do salame”, que consiste em fazer alianças com forças não-comunistas, de maneira que force o aliado a participar na eliminação dos adversários: primeiro, a extrema-direita, com a ajuda de toda esquerda; depois, a fração moderada dessa esquerda e, assim, sucessivamente, até a última “fatia”, que deve submeter-se e fundir-se, sob pena, sob pena de ser, por sua vez, eliminada.

Esse profissionalismo, que inclui a astúcia, a paciência, a racionalidade, quanto ao objetivo buscado, faz a superioridade do leninismo. Mas se trata apenas de destruição, e a construção é impossível porque esse objetivo é insensato.

Tornado uma espécie de ditador, mas sem poder tomar consciência disso, Lenin continuava a pôr sobre suas situações mais instáveis suas categorias fantasmagóricas e, em conseqüência, tomava suas decisões. A prática comunista não segue uma inspiração estética, mas procede, a cada instante, de uma deliberação “científica”. A falsa ciência copia da verdadeira o seu caráter demonstrativo e seus procedimentos lógicos.  E apenas torna mais louca a empresa, mais implacável a decisão e mais difícil a correção, pois a falsa ciência, que não é empírica, impede que se constatem os resultados da experiência.

Pouco a pouco a destruição se amplia e se torna total, igualando-se, para retomar a fórmula de Bukharin, à vontade de criação. Ela seguiu, na Rússia várias etapas.

Primeiro, a destruição do adversário político: órgãos do governo da antiga administração. Isso se fez num piscar de olhos, logo em seguida ao putsch de 1917.

Depois, a destruição das resistências sociais, reais ou potenciais: corpos organizados, partidos, Exército, sindicatos, cooperativas, corpos culturais, universidade, escola, academia, Igreja, editoras e imprensa.

No entanto, em algum momento, o partido se dá conta que a doutrina prevê que há somente duas realidades: o socialismo e o capitalismo. Nesse momento, então, que a realidade se confunde com o capitalismo e que é preciso uma terceira etapa: destruir toda a realidade, a aldeia, a família, os restos da educação burguesa. É preciso estender o controle sobre cada indivíduo tornado solitário e desarmado pela destruição de seu sistema de vida, levá-lo para um novo sistema em que ele será reeducado, recondicionado. Eliminar, enfim, os inimigos escondidos.

Uma das características do Século XX é a de que não só a história foi horrível, do ponto de vista do massacre do homem pelo homem, mas também que a consciência histórica – e isto explica aquilo – teve uma dificuldade particular em se orientar corretamente. George Orwell – famoso mundialmente por seu romance 1984 – observou que muitos se tornaram nazistas por um horror ao bolchevismo, e comunistas por um horror ao nazismo. Isso realça o perigo das falsificações históricas.

Para concluir, uma esperança e um receio. Foram necessários anos para que se tomasse consciência completa do nazismo, porque ele excedia o que se julgava possível e que a imaginação humana era capaz de perceber. Poderia ter acontecido o mesmo com o comunismo de tipo bolchevique, cujas obras abriram um abismo tão profundo, e que foram protegidas, como Auschwitz o foi até 1945, pelo inverossímil, pelo incrível, pelo impensável.

O tempo, cuja função é revelar a verdade, fará talvez, lá também, o seu trabalho.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

Quanto mais se aprofunda o conhecimento sobre a dinamica do movimento revolucionario, mais horrorizado se fica.