terça-feira, 5 de abril de 2016

A Presente Crise


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Adriano Benayon

Muitos correspondentes perguntam como o Brasil poderia livrar-se da crise
econômica e política.

Trata-se, como em toda crise, de sintomas agudos das perdas e da
deterioração do organismo (no caso o País).

Iludem-se os que cogitam de que ela provém somente da tentativa
keynesiana, na gestão de Mantega na Fazenda, de elevar o financiamento
público para investimentos produtivos de grandes empresas.

A crise foi agravada com o  término dessa política anticíclica, ao
iniciar-se, em 2012, o segundo mandato da presidente da República, e ser
adotada a brutal elevação dos juros, bem como cortes orçamentários, ambos danosos à economia e ao social, a pretexto de sanar o desequilíbrio
financeiro.

De fato, as duas coisas convergem para deprimir ainda mais a economia e o emprego. E são contraditórias em relação ao pretenso objetivo, pois a
elevação dos juros - na dimensão que teve, e incidindo sobre estoque de
dívida interna de R$ 4 trilhões -  causa aumento da despesa pública muito
superior ao corte de gastos.

Os efeitos não poderiam ser mais perversos. Significam violento ataque
sobre um organismo fraco, e que já sofreu, ao longo dos anos, crises devidas ao crescimento errado e a sucessivas tentativas de correção, com danos adicionais ainda mais pesados.

Por que o organismo ficou fraco? Devido a  causas estruturais, que acarretam as crises. A causa fundamental é desnacionalização, que conduz à desindustrialização e à concentração. As três coisas não cessaram de
aumentar nestes 62 anos.

As doenças socioeconômicas têm sido exponenciadas pela deterioração das
instituições políticas e pela profunda penetração política e cultural
(anticultural) dos carteis transnacionais e de entidades internacionais e de
potências estrangeiras.

Essas instâncias intervêm no País, não só através de pressões
financeiras, atribuídas ao “mercado financeiro”, mas de pressões políticas,
intensificando as causas estruturais da insanidade.

A cada momento, surgem mais sintomas desse quadro patológico. O Estadão noticia, em 28 do corrente:

“Só em São Paulo, 4.451 indústrias de transformação fecharam as portas em 2015, número 24% superior ao de 2014.” “Muitos trabalhadores demitidos não receberam salários e rescisões. De acordo com o IBGE, entre novembro e janeiro, a indústria brasileira fechou 1,131 milhão de vagas, recorde para um trimestre.”

Não são só pequenas empresas. Em Guarulhos, há pouco, as metalúrgicas
Eaton, Maxion e Randon encerraram suas atividades.

Nos implementos rodoviários houve retração de 50%. A têxtil Polyenka, de
Americana (SP), que já tivera 2.000 empregados, deixou de produzir.

A MABE, linha branca, também com 2.000 empregados, pediu falência em
fevereiro e fechou as fábricas de geladeiras Continental em Hortolândia e de fogões Dako em Campinas.

A grande empresa de autopeças Delphi fechou duas fábricas em 2015, em
Mococa (SP) e Itabirito (MG), e este ano completa a transferência da unidade de Cotia para Piracicaba (SP). 1,7 mil trabalhadores perderam os empregos.

Antes da queda de 8,7%, em 12 meses até janeiro de 2016 (dado do IBGE),
a indústria caíra de 35% (anos 80) de participação no PIB, para menos de
10%.

O País regride, em condições piores que as do início do Século XX, à
condição de exportador de bens primários. Avultam desastres terríveis, como a lama tóxica da mina de ferro da SAMARCO (Vale desnacionalizada e a transnacional Billiton), que devasta grandes áreas e o Rio Doce, e até o
mar. Há tragédias potenciais desse tipo.

Na agropecuária, desastre permanente de enormes dimensões, determinado pela subordinação da estrutura econômica e da infraestrutura às conveniências dos “mercados” importadores.

Veja-se: “O Brasil consome 20% dos agrotóxicos”.  De longe, o maior do
mundo no uso desses venenos. Ademais, usa 14 agrotóxicos proibidos em outros países. Ora,  a incidência de câncer é três vezes superior à média em áreas contaminadas por agrotóxicos.

Em função do agronegócio, cujo objetivo é produzir para países industrializados, metade da área utilizada pela agricultura no Brasil é para
a soja, quase toda transgênica.

Ademais, o cartel transnacional das sementes transgênicas e fertilizantes e pesticidas químicos impingiu a aceitação desses flagelos, que estragam solos, subsolos e águas, e intoxicam agricultores e consumidores.

Grande número de brasileiros come alimentos cozinhados com óleo de soja transgênica, sem informação  para procurar nos rótulos o microscópico T, nem dinheiro para opções de oferta limitada.

O poder combinado das transnacionais e dos ruralistas, grandes doadores de recursos de campanha, explica o apoio oficial a grandes projetos
mineradores e às fazendas industrializadas.

Os ruralistas têm quase a  quase metade dos 594 parlamentares e tornaram inócuas as leis proibitivas de plantas geneticamente modificadas.

Respondendo à pergunta inicial: com a permanência da presidente ou sua
derrubada, o cenário é péssimo, nada havendo a esperar de honesto nem de salvador por parte dos pretendentes. O moralismo, manchado pela
seletividade, tem servido para intensificar a desnacionalização e a
desindustrialização, queda da produção e o desmonte da Petrobrás e empresas de engenharia.

Não há saída sob o atual regime. Tampouco, sob um calcado nos governos
de 1964 a 1984.


Adriano Benayon é doutor em Economia, pela Universidade de Hamburgo,
Alemanha; autor de Globalização versus Desenvolvimento.

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