sexta-feira, 22 de abril de 2016

A Tricontinental


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

A Conferência Tricontinental, realizada em 1966, em Havana, não passou de uma tentativa de unificar as forças  anti-colonialistas e antiimperialistas de três continentes – Ásia, África e América Latina -.

Como fruto da Tricontinental veio a ser constituída a Organização de Solidariedade dos Povos da África, Ásia e América Latina (OSPAAAL), formada por organizações revolucionárias de 82 países, com o objetivo de unificar e promover os movimentos de libertação desses países, substituindo a antiga Organização para a Solidariedade dos Povos da África e Ásia (OSPAA), constituída em Conackry, Guiné, em 1960.

Após a Primeira Conferência da Tricontinental, as delegações da América Latina mantiveram uma reunião com o Gabinete Político do Partido Comunista Cubano, na qual discutiram os problemas estratégicos resultantes do conflito sino-soviético. Tendo em conta esses problemas acordou-se em criar uma organização de caráter puramente latino-americana, objetivando coordenar as lutas e a solidariedade com os movimentos armados da América Latina.

Daí, surgiu a idéia de criação da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), cuja Primeira Conferência foi realizada em Havana, em julho de 1967.
Os resultados da Conferência constituíram uma vitória das posições revolucionárias defendidas por Cuba e pelos Movimentos de Libertação Nacional do continente. Em face dessas posições, a maioria dos partidos comunistas da América Latina (com exceção dos Partidos Dominicano e Guatemalteco) defendeu sistematicamente a possibilidade de chegar ao Poder através de formas de luta não-militares, o que estava em contradição com os princípios fundamentais acordados na Conferência. Tal atitude também implicava que não aceitariam que a luta armada tivesse um caráter continental. Por outro lado, recusavam-se a apoiar a condenação aos países socialistas de linha soviética que então lhes prestavam auxílio financeiro.

A OLAS não voltou a se reunir. Desapareceu por inércia. Poucos meses depois, morria o kamarada CHE, na Bolívia, e as organizações guerrilheiras foram desaparecendo, uma após outra, salvo raras exceções, entre as quais o movimento guerrilheiro colombiano, cuja origem é anterior à revolução cubana.

Já no início dos anos 70, via-se claramente, segundo Fernando Martinez Heredia, membro do Departamento América, apêndice do Comitê Central do Partido Comunista Cubano (Académico Titular de la Academia de Ciencias de Cuba. Doctor en Derecho, Profesor Titular de la Universidad de La Habana), que falhavam duas premissas básicas do projeto revolucionário cubano: primeiro, a vitória das revoluções na América Latina, imprescindível para se formar uma nova aliança no campo econômico, político, militar e cultural que permitisse a expansão e, portanto, a vida do projeto; e, segundo, a conquista do que se denominou de desenvolvimento econômico socialista acelerado, ou seja, um grau suficiente de independência econômica.

Terminava, então, assim, a primeira etapa do processo iniciado com a vitória revolucionária de janeiro de 1959.
A polêmica sino-soviética – atrás da qual se ocultavam as  aspirações de cada uma dessas potências socialistas – culminou com uma ruptura do campo socialista em 1967, que representou um duro golpe para a esquerda.
A partir de então, do debate ideológico passou-se às injúrias escritas e verbais e às acusações recíprocas.

Os partidos comunistas cindiram-se e surgiram os auto-denominados partidos comunistas marxistas-leninistas.

As organizações armadas polarizaram-se entre os grupos de tendência pró-Cuba – cuja tática procurava um desenlace mais rápido para as guerras de guerrilha - e os que defendiam a tese de Mao-Tsetung de guerra popular prolongada, que se preocupava mais em fazer um trabalho de massas, pois não concebia a guerra sem uma real participação do povo. 

Em meados dos anos 60, coincidindo com o movimento estudantil norte-americano, que exigia o desarmamento nuclear e se opunha ao recrutamento de estudantes para a guerra do Vietnã – esse movimento prolongou-se até 1975, ano do triunfo da Revolução Vietnamita –, e com o Maio Francês de 1968, no qual os estudantes universitários de Paris encabeçaram um movimento de oposição ao governo que conseguiu abranger amplos setores operários numa greve geral que paralisou o país por mais de uma semana, em quase todos os países da América Latina produziram-se movimentos estudantis de grande envergadura.

Paralelamente, verificaram-se processos de reforma universitária, que abriram as portas da Universidade a um amplo setor de estudantes até então sem acesso a ela e, por outro lado, buscaram colocar a Universidade a serviço da sociedade.

Os campi universitários passaram a representar espaços estratégicos na luta pelas mudanças sociais. Descontentes com as condições físicas que encontravam nas Universidades, cujos recintos não estavam preparados para assumir uma tal avalanche de alunos, inquietos com o incerto horizonte laboral que lhes apresentava uma sociedade que também não estava preparada para acolher aquele número de licenciados, sensibilizados com as desigualdades sociais existentes nos seus países e, em muitos casos, admiradores da revolução cubana, esses jovens tornaram-se um fator potencialmente explosivo, na medida em que constituíam uma frente comum com o movimento de massas urbano e rural em ascensão.

Como resultados desses processos de luta estudantil e de reforma universitária, a esquerda latino-americana foi conquistando cada vez mais espaços universitários. Nesses espaços emergem críticas ao sistema vigente e elaboram-se propostas alternativas. E os partidos de esquerda aproveitam-se dos resultados dessas críticas e propostas.

Nesse contexto elabora-se a teoria da dependência– segundo essa teoria, não existe possibilidade dedesenvolvimento capitalista autônomo nos países da América Latina (Vânia Bambirra Gelap dos Santos, “Teoria da Dependência na América Latina”, editora Crítica, México, 1978 – que tem grande difusão no continente. Segundo a “Teoria da Dependência”, deduz-se que não existem burguesias nacionais progressistas nos países da América Latina, e que, portanto, essa classe, para sobreviver, não tem outra opção a não ser associar-se, na condição de sócia minoritária, ao capital estrangeiro.

Por outro lado, introduzem-se, pela primeira vez, os estudos sistemáticos de marxismo nos programas universitários, desempenhando um papel importante na formação de gerações de jovens universitários, naquela época.

Finalmente, apesar da diminuição do interesse pelo marxismo após a queda do comunismo no Leste-Europeu, os estudos sobre o marxismo-leninismo continuam a ser utilizados nas Universidades latino-americanas e, ao que se sabe, também na França e na Bélgica principalmente.

Foi nesse contexto que, em meados dos anos 60, surgiram a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base, e crescente setores de cristãos começaram a compartilhar posições claramente de esquerda.

Todavia, esse é um assunto para outro texto.
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O texto acima foi escrito com dados extraídos do livro “Tornar Possível o Impossível – A Esquerda no Limiar do Século XXI”, de autoria da escritora chilena Marta Harnecker. É um livro qe não proporciona certezas e nem soluções. Ajuda a refletir.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Anônimo disse...

Naquele dia de votação da Câmara Federal, parecia rebelião de um hospício. Gente com raiva do sexo que escolheu; gente com raiva que o golpe rasteiro não deu em nada; gente querendo transformar a "rainha" má em cinderela; gente com raiva com a perda da boquinha do dinheiro fácil; gente que não sabia de nada da história do Brasil; gente que foi para ficar aparecendo no enquadramento do câmera; gente que pensou que estava no Facebook; gente que levou o filho para brincar de deputado; gente que levou a amante mas não teve coragem de mostrar e falar nela;gente que bajulou o marido que foi preso no outro dia, etc, etc. Merece uma reapresentação no horário humorístico.

Fabrizio disse...

Sensacional!