terça-feira, 5 de abril de 2016

Inteligência na Guerra


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O trecho abaixo é o resumo de um capítulo do livro “A Inteligência na Guerra”, escrito por John Keegan – que foi professor de História Militar na Real Academia de Sundhurst e é editor de assuntos de defesa do Daily Telegraph de Londres; é autor de diversos livros sobre temas militares -.

Já no Século XVII, o duque de Marlborough alertava para o fato de que nenhuma guerra pode ser vencida sem informações boas e oportunas a respeito do inimigo. A posse e o uso da informação em circunstâncias de conflito militar é um trunfo reconhecidamente valioso desde a Antiguidade. Com o decorrer do tempo, a importância da detenção de informações só fez aumentar, tornando-se parte cada vez mais essencial do esforço de guerra.

A arte e a ciência de trabalhar com a informação é conhecida como “Inteligência”, especialidade a cada dia mais complexa, e que se espraia e multiplica pelos diferentes campos da tecnologia moderna, em embates surdos, sucessivos e permanentes entre os desejos contraditórios e complementares de ocultar os próprios segredos e descobrir os do adversário.

Todavia, o domínio da informação não garante vitórias. A Inteligência só se transforma em vantagem real quando somada à força militar. Por mais que um dos lados saiba a respeito do inimigo, de suas capacidades e intenções, o resultado final do confronto depende mais do espírito de luta dos combatentes, da pujança da base industrial do país e, por vezes, de maneira decisiva, da sorte.

O clima criado pelos mestres da ficção da espionagem influenciou profundamente as reações populares em relação ao trabalho de coleta e análise dos informes. O simples fascínio despertado pelas técnicas reveladas no uso da linguagem cifrada, caixas postais secretas, a atividade de controle dos espiões, a cooptação de agentes que se tornam “duplos”, a vigilância, a interceptação e dezenas de outras práticas do mundo secreto lograram representar a técnica como um fim em si mesma. O “espião” adquiriu o status de herói, figura glamorosa e misteriosa que parecia ter importância pelo que era e não pelo que fazia.

Durante a Guerra Fria nenhum dos lados obteve qualquer resultado objetivo, pelo menos em termos militares, e a função dos Serviços de Inteligência dos dois lados era assegurar exatamente isso. Jogavam um jogo, e o objetivo não era ganhá-lo, e sim fazer com que ele prosseguisse. Ninguém deve queixar-se, na ausência de um resultado tangível, de que a Inteligência seja uma atividade vã.

Poucos escritores, inclusive os que possuem experiência pessoal no ramo, revelaram integralmente os componentes essenciais e a seqüencia das operações eficazes de Inteligência. Isso é compreensível, pois grande parte das práticas é corriqueira e burocrática. Contudo, mesmo o que há de mais corriqueiro e burocrático é indispensável para que a Inteligência tenha utilidade.

A Inteligência possui cinco estágios fundamentais:

1. Aquisição. A Informação precisa ser encontrada. Pode ser facilmente obtida em publicações que passam despercebidas, em jornais, publicações eruditas ou monografias acadêmicas. A Rússia de Stalin tomava precauções para tornar a aquisição de informações o mais difícil possível, restringindo a distribuição de material corriqueiro como catálogos telefônicos e mapas de cidades.

2. Entrega. Uma vez coligida, a informação tem que ser entregue a seu usuário potencial. A entrega é, não raro, o estágio mais difícil, porque o agente pode estar sendo vigiado, ou pode, com razão, temer que o interceptem ou escutem, além de estar sujeito, também, à detenção no ponto de contato. Além disso, o transmissor está sempre sob pressão da urgência, pois a informação é perecível e pode ser ultrapassada pelos acontecimentos. A menos que seja transmitida de maneira oportuna para que possa ser utilizada, ela perde o valor.

3. Aceitação. A informação precisa ter credibilidade. Não se pode descartar que os agentes de campo de um lado possam ter passado para o outro lado ou caído sob o controle de um serviço de contra-espionagem do adversário.

4. Interpretação. Grande parte da informação chega em fragmentos. Para compor um quadro completo, os diversos pedaços têm que ser montados para formar um pano de fundo coerente. Isso exige, com freqüência, o esforço de vários peritos, que muitas vezes discordarão a respeito de pistas específicas. Em última instância, a montagem de um panorama completo pode depender de um palpite intuiutivo de algum dos analistas.

5. Implementação. Os agentes de Inteligência precisam estar convencidos da confiabilidade de sua matéria-prima, mas necessitam também convencer os responsáveis pelas decisões, os chefes políticos e os comandantes. Não existe algo como uma “informação pura” para dissipar todas as dúvidas, e que oriente um general, um almirante e um brigadeiro a uma solução infalível de seus problemas operacionais. É importante assinalar que toda informação não só nunca é completamente exata, como seu valor se altera de acordo com o desenrolar dos acontecimentos e com o decorrer do tempo.

Molkte, o Velho, arquiteto das brilhantes vitórias da Prússia sobre a Áustria e a França no século XIX, e talvez o supremo intelectual militar de todos os tempos, observou de forma memorável: “Nenhum plano sobrevive aos primeiros cinco minutos de encontro com o inimigo”. Ele poderia ter dito, com a mesma veracidade, que nenhuma avaliação da informação, por mais sólido que seja o seu fundamento, consegue sobreviver integralmente ao teste da ação.

Incorporou-se à sabedoria convencional que a Inteligência é a chave necessária para o sucesso nas operações militares. Todavia, uma opinião mais sensata seria de que ela, embora geralmente necessária, não constitui um meio suficiente para chegar à vitória. Uma guerra sempre se decide numa luta e, no combate, a força de vontade sempre vale mais do que o conhecimento antecipado. Não admira que o mundo da Inteligência só atraia a atenção quando ocorre uma quebra da Segurança.

Quem discordar que demonstre o contrário.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

Me parece bastante simples. Em um cenário mundial no qual a guerra irregular é a tônica, a tecnologia bélica e a força bruta se tornaram meros elementos de dissuasão. Não há mais espaço para grandes confrontos já que a utilização de tais instrumentos provoca a imediata reação da comunidade internacional. A guerra irregular vem ocupando espaço e vencê-la sem um serviço de Inteligência eficaz é virtualmente impossível. Exemplos? temos dois recentes. Levaram a tecnologia e a força bruta ao EI e qual foi o resultado? Condenação internacional por conta das vítimas civís. Em contra partida, o EI levou a guerra irregular aos franceses e belgas com uma facilidade impressionante. Sem entrar no mérito, eu pergunto: Quem usou de melhor forma o serviço de inteligência? Ou melhor dizendo, quem agiu de maneira mais inteligente?