quarta-feira, 6 de abril de 2016

Qual dos Males é o Pior?


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arnaldo Jabor

Eu tenho um pesadelo. Sonho que esta crise não vai passar nunca, que ela se estenderá para além de impeachment ou não impeachment. A resistência do Atraso é uma força da natureza. Eu tenho o pesadelo de que nós vamos continuar assim: “com anestesia, mas sem cirurgia”. Eu tenho o pesadelo de que, depois das mãos limpas, voltem as mãos sujas. Eu tenho a impressão de que estamos apenas cumprindo nosso destino traçado há 500 anos. Eu tenho medo de que esta primavera de verdades da Lava-Jato seja apenas uma utopia. Tenho medo de que toda essa crise política seja uma porta aberta para o nada.

Tenho muito medo de que nós não tenhamos a capacidade de nos regenerar; com que forças poderemos reverter os estragos já feitos? Teremos capacidade de regeneração? Será que vai se cumprir a conhecida (e terrível) profecia de Claude Lévi-Strauss, que aqui estudou nossas doenças, de que “o Brasil vai sair da barbárie para a decadência, sem conhecer a civilização”?

O patrimonialismo, esse adultério secular entre o privado e o público, a corrupção endêmica e o Estado como caverna de ladrões, estão entranhados em nossas almas como um tumor inoperável.

Tenho medo. Todos os nossos problemas arcaicos estão vindo à tona provocados pela esculhambação que o PT produziu com dedicação e método. Eles são seculares e contam com a profunda maré de estupidez e oportunismo que nos move há séculos.

Estamos diante do sim e do não. Se Dilma sair, deixando em seu lugar o Temer e seu PMDB, é quase certo que a curto prazo não conseguirão melhorar a situação do Brasil. Quem vai fazer a reforma da Previdência, a tributária, quem vai atacar a burocracia, quem despedirá os milhares de vagabundos aparelhados no governo, quem vai segurar a inflação que está voltando?

O estrago deixado pelos utópicos ladrões criou um emaranhado de incógnitas que se embaralham num nó de cama de gato, nó que espada alguma corta.

E, diante desse nó histórico, o PMDB se posta, trêmulo de orgulho e poder. Se o Temer entrar, talvez tenhamos um brevíssimo progresso ético. Mas, logo logo, depois das emoções de calouros, eles se dedicarão a tomar medidas que voltarão a impedir o Brasil de melhorar. E, vejam bem (como dizem os petistas), vejam bem: depois de impeachment, o PMDB, com seus inúmeros indiciados e culpados, vai jogar todas as suas forças para arrasar a operação Lava-Jato, nosso único motivo de orgulho. Então descobriremos que, assim como o Atraso era um pretexto para o PT, para o PMDB o Atraso é um desejo.

Quando acabará esse pesadelo que percorre os céus de Brasília, esse grande comboio de cafajestes portando a bandeira brasileira, com sua feiura, seus rostos cobiçosos, egoístas e caretas, seus podres desejos, suas barrigas, suas gargalhadas infinitas, como zumbis de cabelo acaju e pretos flutuando em torno dos três poderes?

Meu Deus, que desgraça nos aconteceu!

O PT e aliados tiveram condições perfeitas para melhorar o país: dinheiro entrando para os emergentes, apoio total no Congresso, apoio da população e nada — não fizeram porra nenhuma. Só agiram para ficar no poder. Eles não foram propriamente “eleitos”. Eles “tomaram” o país. Isso foi um crime histórico.

Qual dos males é o pior?

Se houver o impeachment, o PT empunhará gostosamente a bandeira do “quanto pior melhor”.

Como a tragédia que criaram se arrastará por anos, a situação pós-impeachment será o paraíso do Lula. Ele e o PT serão os mártires (como chamam) da “direita-neoliberal-fascista da mídia-imperialista e conservadora dos coxinhas do mal que querem a fome do povo”.

Seus guerreiros infernizarão o país contra qualquer ajuste na economia. Vão ignorar o abismo contábil em que caímos e voltar os chifres contra o “capitalismo”, apoiados por nossos intelectuais que nunca entenderam que o capitalismo não é um regime político, mas um modo de produção. Artistas, teóricos, cães de guarda da fé preferem que o país acabe do que esquecer a religião que os absolve e justifica. E Lula vai deitar e rolar nessa condição que ele ama: vítima, pobre operário do bem que foi destruído pela burguesia.

E se bobear será eleito em 2018 como pai da pátria, o salvador dos aflitos e dos desempregados que ele mesmo criou, o salvador da República que ele mesmo arrasou.

Isso acontecerá, a menos que haja fatos novos graves como parece ser a exumação do cadáver de Celso Daniel (aliás, ato falho de Edinho Silva quando disse que se não houver entendimento vai aparecer um cadáver?).
Nesse sentido talvez seja melhor não haver impeachment, porque talvez o Brasil precise se ferrar ainda mais, antes de melhorar. Com Dilma até o final do mandato, em dois anos e meio apodrece tudo e a verdade imunda que montaram aparecerá. Vejam onde chegamos: talvez precisemos de mais desgraça ainda para nos salvar em nossa “jornada de imbecis até o entendimento”. As classes médias já estão politizadas mais do que eram, mas os canalhas contam com a absoluta ignorância do povo, sua base eleitoral.

No tempo de FHC foram construídas pontes e ajustes para regenerar o país. Isso foi destruído, em nome de um comunismo de galinheiro.
Tenho medo de que o Brasil vire uma república desértica, com poucas ilhas de progresso, sem rumo histórico, com tribos soltas, perdidas como na África ou na solidão asiática. Temo que a União se desfaça e se crie um país sem identidade, sem orgulho, sem projeto. Talvez fique um país no eterno pântano em que estamos hoje.

Espero que nossas desilusões nos mostrem que o Brasil tem uma história que anda de costas, evoluindo pelo que perde, não pelo que ganha. Espero, ao menos, isso.

O Brasil se revelará por subtração; não por soma. Chegaremos a uma ideia de país quando as desilusões chegarem ao ponto zero. E então descobriremos que esse resto somos nós.


Arnaldo Jabor é Cineasta e Jornalista. Originalmente publicado em O Globo em 5 de abril de 2016.

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