terça-feira, 31 de maio de 2016

A Beleza da Desinformação (2)


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Durante a Guerra Fria mais pessoas do bloco soviético trabalhavam no maquinário de DESINFORMAÇÃO do que no Exército e na indústria de defesa, somados. Só a comunidade de Inteligência do bloco tinha, facilmente, mais de um milhão de agentes e vários milhões de informantes ao redor do mundo. Todos estavam envolvidos no propósito de enganar o Ocidente – e seus próprios povos – ou em apoiar esse propósito.

A estes se deve acrescentar o vasto número de pessoas trabalhando para organizações internacionais de DESINFORMAÇÃO que o KGB criara em segredo. Essas organizações eram sediadas fora da União Soviética, fingindo-se de entidades internacionais independentes, e publicavam os seus próprios jornaus em francês ou inglês. Algumas dessas “Aldeias de Potenkim” internacionais: o Conselho Mundial da Paz (presente em 112 países), a Federação Mundial Sindical (presente em 90 países), a União Internacional de Estudantes (presente em 152 países), e a Federação Mundial da Juventude Democrática (presente em 210 países).

A tática tipicamente russa de não atacar frontalmente, e a DESINFORMAÇAO, se mostraram um meio deliciosamente indireto de confundir os inimigos do Kremlin. A primeira “Aldeia Potenkim” internacional foi fundada em 1949 e recebeu o respeitável nome de “Conselho Mundial da Paz”, de modo a não parecer coisa russa. Sua principal tarefa era reivindicar a autoria do material criado pelos soviéticos, que documentava que os EUA era um pais sionista provocador de guerras, financiado com dinheiro judeu e governado por um voraz “Conselho dos Sábios de Sião”. O objetivo era criar medo de que os EUA iniciassem uma nova guerra para transformar o resto do mundo num feudo judeu.

Existia uma condição principal para que a DESINFORMAÇÃO obtivesse sucesso, e era que a notícia deveria sempre ser construída em torno de um “cerne de verdade” que lhe emprestaria credibilidade. O “cerne de verdade” do Conselho Mundial da Paz estava em ele ser sediado em Paris e ser presidido pelo Prêmio Nobel francês Frédéric Joiiot-Curie, um esquerdista persuadido por Stalin a emprestar o seu nome a essa “Aldeia Potenkim” internacional.

Por precaução, Stalin decidiu fazer com que a DESINFORMAÇÃO parecesse algo historicamente francês. No início da década de 1950, o DIE – Serviço de Inteligência e Espionagem Estrangeira da Romênia – foi instruído pelo seu respectivo chefe russo a lançar o rumor de que a palavra DESINFORMAÇÃO era derivada do francês. Em outras palavras, o DIE foi instruído a apresentar esse estratagema tradicionalmente russo como uma ferramenta capitalista francesa voltada para os pacifistas do bloco. A definição fornecida por Moscou era similar à que pode ser encontrada na edição de 1952 da Great Soviet Encyclopedia:

DEZINFORMATSIYA – Disseminação (na imprensa, no rádio, etc) de informações falsas com o propósito de ludibriar a opinião pública. A imprensa e rádio capitalistas fazem amplo uso da DEZINFORMATSIYA para enganar as pessoas, enredá-las em mentiras e descrever a nova guerra em preparação pelo bloco imperialista anglo-americano como uma arma defensiva e apontar a política pacífica da URSS, dos países da democracia popular e outros países pacifistas como supostamente agressivos. Um papel especial na disseminação desse tipo de notícia provocativa é desempenhado pela imprensa, rádio e várias agências de notícias capitalistas americanas, fornecendo informações falsas à imprensa e outras organizações de propaganda. As esferas governantes dos EUA, Grã-Bretanha, França e de outros governos imperialistas freqüentemente recorrem à dezinformatsiya em matéria de relações internacionais e fazem uso dadezinformatsiya para ocultar a natureza predatória da guerra que desencadeiam.

Hoje, a maioria das pessoas acredita que dezinformatsiya deriva de alguma palavra francesa, mas o dicionário francês oficial, oLarousse, não menciona essa palavra em 1952, e tampouco em sua edição de 1978.

Naqueles primeiros anos do pós-guerra, o governo francês percebeu o estratagema de Moscou. Em 1954 acusou o Conselho Mundial da Paz de ser uma organização de fachada do KGB e o expulsou da França.

Não impressiona que o Conselho Mundial da Paz tenha sido expulso da França. Por trás de sua fachada supostamente francesa, era o mais soviético possível. Suas atividades diárias eram conduzidas por um Diretório de estilo soviético, cujos 21 membros eram agentes de Inteligência disfarçados, oriundos de nove países do bloco soviético – URSS, Polônia, Bulgária, Hungria, Romênia, Checoslováquia, Alemanha Oriental, Albânia e Cuba -. O Conselho Mundial da Paz também tinha 23 vice-presidentes de estilo soviético, que se dividiam da seguinte maneira: quatro representavam países comunistas – Rússia, Polônia, Alemanha Oriental e Romênia -; três representavam governos comunistas leais a Moscou – Cuba, Vietnã do Norte e Angola -; dois representavam a Organização para a Libertação da Palestina e o Congresso Nacional Africano, duas organizações terroristas antiamericanas financiadas por Moscou; quatro representavam partidos comunistas não-governantes – EUA, França, Itália e Argentina -; e dez representavam aliados do Conselho em nível nacional oriundos do bloco soviético e de outros países-fantoches de Moscou.

A maioria dos funcionários permanentes do Conselho Mundial da Paz eram agentes de Inteligência soviéticos disfarçados, especializados em “operações de paz”, cuja tarefa era moldar os novos movimentos pacifistas do Ocidente. O Conselho também tinha filiais, financiadas por Moscou, em 112 países. E também lançou duas publicações em francês – Nouvelles Perspectives e Courier de La Paix – as quais eram feitas por agentes do KGB e do DIE, disfarçados, e controladas pelos serviços soviéticos e romenos de DESINFORMAÇÃO.

Até o dinheiro do Conselho Mundial da Paz provinha de Moscou, entregue por agentes de Inteligência soviéticos, sob a forma de dólares americanos lavados, a fim de esconder sua origem. Em 1989, quando a União Soviética estava à beira do colapso, o Conselho admitiu publicamente que 90% do seu dinheiro vinha do KGB.

Em meados dos anos 1’950, 30 milhões de pessoas na Europa Ocidental – Itália, frança, Portugal e Grécia - estavam votando em comunistas antiamericanos. Um sucesso notável da DESINFORMAÇÃO do bloco soviético, levando-se em conta quer os EUA tinham libertado a Europa da ocupação nazista e reconstruído as suas economias, dizimadas pela guerra.

A Federação Sindical Mundial, a segunda maior “aldeia de Potenkim” do KGB, também sobreviveu ao colapso da União Soviética. Ainda é sediada em Praga e ainda utiliza retórica antiamericana da época da Guerra-Fria.

A Federação Democrática Internacional de Mulheres adotou uma nova constituição durante a Quarta Conferência Mundial sobre Mulheres da Organização das Nações Unidas, em 1995, em Pequim, exigindo, em oratória típica da Guerra-Fria que “as mulheres do mundo” combatessem a globalização das “assim chamadas economias de mercado”, as quais são a “causa fundamental da crescente feminização da pobreza por toda a parte”.

A União Internacional de Estudantes, sediada em Praga, tem hoje 152 uniões nacionais de estudantes em 114 países e continua a propagar o ódio aos EUA. Um apelo internacional lançado durante o “Dia dos Estudantes Internacionais”, em 2001, condenou os “ataques vingativos dos EUA ao Afeganistão, que fizeram retroceder a luta pela estabilidade no Oriente Médio e serviram para fomentar mais racismo e intolerância ao redor do mundo”.

Embora ocultem seus verdadeiros laços com Moscou, esses grupos promovem continuamente idéias e programas que apóiam as causas do Kremlin. São perfeitos canais de contínua DESINFORMAÇÃO.
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O texto acima é o resumo de um dos capítulos do livro “Desinformação”, escrito pelo Tenente-General Ion Mihai Pacepa – foi chefe do Serviço de Espionagem do regime comunista da Romênia. Desertou para os EUA em julho de 1978, onde passou a escrever seus livros, narrando importantes atividades do órgão por ele chefiado, e que influenciaram diretamente alguns momentos históricos do Século XX -, e pelo professor Ronald J. Rychlak - advogado, jurista, professor de Direito Constitucional na Universidade de Mississipi, consultor permanente da Santa Sé na ONU, e autor de diversos livros -. O livro foi editado no Brasil em novembro de 2015 pela editora CEDET. 


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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