sábado, 21 de maio de 2016

A década de 80 na União Soviética


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Quando Yuri Andropov assumiu o cargo de Secretário-Geral do Partido Comunista Soviético, em 1982, seu “castigo” para os elementos anti-sociais já estava bem avançado. Ao contrário dos antecessores, Andropov sempre acreditou que os dissidentes, apesar de serem poucos, deveriam ser tratados como uma ameaça séria ao Poder Soviético. Como embaixador em Budapeste, em 1956, ele tinha visto como um movimento intelectual podia se transformar rapidamente numa revolta popular. Também acreditava que grande parte dos problemas da União Soviética – políticos, econômicos, sociais – poderia ser resolvida com uma punição maior: campos e prisões mais rigorosas, vigilância mais intensa e mais hostilidade.

Esses foram os métodos defendidos por Andropov como chefe do KGB de 1979 em diante, e esses foram os métodos que ele continuou seguindo durante o curto reinado como líder da União Soviética. Graças a Andropov, a primeira metade da década de 80 é lembrada como o período mais repressivo da história soviética pós-stalinista. Era como se a pressão no interior do sistema tivesse de chegar ao ponto de saturação antes de sucumbir.

Mas a prisão não era a única arma de Andropov. Como seu objetivo era, em primeiro lugar, impedir que as pessoas se juntassem aos movimentos dissidentes, a repressão foi muito mais abrangente. Até os suspeitos de simpatizar com os movimentos religiosos, de direitos humanos, ou nacionalistas, podiam perder tudo. Os suspeitos e seus cônjuges não eram apenas privados de seus empregos, mas também do status e das qualificações profissionais. Seus filhos perdiam o direito de freqüentar as universidades, as linhas telefônicas eram cortadas, o visto de permanência cancelado e as viagens restritas.

Muitas vezes as gerações mais velhas tinham problemas para compreender os compatriotas mais jovens. Homens e mulheres que lutaram com armas não entendiam dissidentes que lutavam com pedaços de papel. Mais os mais velhos ainda inspiravam os jovens com seus exemplos. Esses encontros ajudaram a formar as pessoas que, no final da década, organizariam os movimentos nacionalistas que, por fim, ajudariam a destruir a União Soviética. Relembrando essa experiência, recordemos as palavras de David Berdzenishvili, um ativista da Geórgia, dizendo que se sentia feliz por ter passado dois anos num campo de trabalho, nos idos de 1980, em vez de ter passado dois anos no exército soviético na mesma época.

Andropov parecia ter ganhado o jogo. Uma década de hostilidades, confinamento e exílio reduziram e enfraqueceram o movimento dissidente. A maioria dos dissidentes conhecidos foi silenciada em meados dos anos 1980. Soljenitsin se exilou no exterior, e Sakharov foi para o exílio interno na cidade de Gorki. Os policiais do KGB se plantaram diante da porta de Roy Medvedev, vigiando todos os seus movimentos.

Os asseclas e os carcereiros, os médicos trapaceiros e a polícia secreta pareciam seguros em suas profissões. Mas o terreno em que pisavam era movediço. Como se soube depois, a intolerância de Andropov para com os dissidentes estava com os dias contados.

Quando ele morreu, em 1984, a Polícia morreu com ele.
Quando Mikhail Gorbachev foi nomeado Secretário-Geral do Partido Comunista, em março de 1985, o caráter do novo líder soviético pareceu misterioso para os estrangeiros e para seus compatriotas. Ele parecia tão escorregadio e bajulador quanto os demais burocratas soviéticos, mas ainda assim havia sinais de algo diferente. No verão que se seguiu à sua nomeação, um grupo derefuseniks de Leningrado riu muito da ingenuidade ocidental: como podíamos acreditar que a suposta preferência de Gorbachev por uísque – em vez de vodka – e a admiração de sua mulher por roupas ocidentais significassem que ele era mais liberal que seus antecessores?

Eles estavam errados. Gorbachev era diferente. Na época pouca gente sabia que ele vinha de uma família de “inimigos”. Um de seus avôs, camponês, tinha sido preso e enviado a um campo de trabalhos forçados em 1933. O outro avô tinha sido preso em 1938 e torturado na prisão por um investigador que lhe quebrou os dois braços. O impacto desses acontecimentos sobre o jovem Mikhail foi enorme.

Gorbachev foi menos eloqüente que Kruschev, mas provavelmente teve um impacto muito maior sobre o público soviético. Afinal, o discurso de Kruschev fora feito num encontro reservado. Gorbachev falara em cadeia nacional de televisão.

Embora a mudança de qualidade do debate público tenha acontecido com uma rapidez surpreendente, a situação ainda não era tão clara como parecia aos que se encontravam de fora. Ainda que estivesse introduzindo as mudanças que logo conduziriam ao colapso da União Soviética, apesar de a “gorbimania” ter tomado conta da Alemanha e dos EUA, Gorbachev – assim como Kruschev – acreditava profundamente no regime soviético. Ele nunca teve a intenção de desafiar os princípios básicos do marxismo soviético ou as conquistas de Lenin. Sua intenção sempre foi reformar e modernizar a União Soviética e não destruí-la. Talvez, por causa da experiência familiar, ele acreditasse que era importante contar a verdade sobre o passado. E, de início, parece não ter percebido a ligação do passado com o presente.

No final de 1986 - embora Gorbachev estivesse se preparando para falar sobre as “lacunas”, embora o Memorial Sociedade tivesse começado a excitar a opinião pública para a construção de um monumento à repressão, embora o resto do mundo começasse a falar com arrebatamento a respeito das novas lideranças da URSS – a Anistia Internacional sabia os nomes de 600 presos políticos  que ainda estavam nos campos soviéticos e suspeitava da existência de muitos outros.

Um deles era Anatoly Marchenko, que morreu durante uma greve de fome na prisão de Khristopol, em dezembro daquele ano. Ao chegar à prisão, sua mulher, Larissa Bogoraz, encontrou três soldados guardando o corpo do marido, que havia sido submetido a uma autópsia. Não lhe permitiram falar com ninguém na prisão - nem com médicos, nem com outros prisioneiros, nem com os administradores – a não ser com um agente de polícia, Churbanov, que a tratou rudemente. Ele se recusou a dizer-lhe como Marchenko havia morrido e não lhe entregou o atestado de óbito, um relatório médico e nem mesmo as cartas e os diários do marido. Com um grupo de amigos e uma “escolta” de três homens, guardas da prisão, ela enterrou Marchenko no cemitério da cidade.

Embora a administração cercasse a morte de Marchenko de mistério, Larissa Bogoraz disse que eles não podiam esconder que Anatoly Marchenko“morreu lutando; sua  luta tinha durado 25 anos e ele nunca hasteou a bandeira branca da rendição”.

Mas a morte trágica de Marchenko não foi totalmente em vão. Talvez estimulado pela onda de má publicidade deflagrada em torno de sua morte, as declarações de sua mulher foram divulgadas no mundo. Talvez isso tenha concorrido para que Gorbachev, no final de 1986, tenha decidido conceder o perdão a todos os prisioneiros políticos do país.

Houve muitas coisas estranhas na anistia que fechou as prisões políticas da União Soviética para sempre. Nada foi mais estranho, porém, do que a pouca atenção que ela atraiu. Afinal, isso era o fim do GULAG, o fim do sistema de campos que mobilizara milhões de pessoas. Era o triunfo dos movimentos de Direitos Humanos, que foram o foco de tanta atenção diplomática durante as duas décadas anteriores. Era um mundo real de transformação histórica. Mesmo assim, ninguém lhe deu atenção.

Afinal, as mudanças aconteceram em uma velocidade estonteante, e ninguém pareceu mais desnorteado por elas do que o homem que deu início à desintegração da União Soviética. Foi essa a maior cegueira de Gorbachev. Kruschev sabia; Brejnev sabia. Mas Gorbachev, neto dos “inimigos” e criador da glasnost, não percebeu que uma discussão ampla e honesta sobre o passado soviético acabaria por corroer a legitimidade do governo.

“Agora percebemos nosso objetivo de forma mais clara”, disse ele na véspera do ano novo, em 1 989. “É um socialismo democrático e humano, uma sociedade com liberdade e justiça social”.Gorbachev não foi capaz de entender, mesmo então, que o socialismo soviético estava prestes a desaparecer.

Ele também não enxergou, anos depois, a ligação entre as revelações da imprensa durante aglasnost e o colapso do comunismo soviético. Gorbachev simplesmente não percebeu que, uma vez que a verdade sobre o passado stalinista fosse contada, seria impossível sustentar o mito da grandeza soviética. Ambos trouxeram muita crueldade, muito derramamento de sangue e muitas mentiras.

Mas se Gorbachev não entendeu o próprio país, muitas outras pessoas entenderam. Vinte anos antes, o editor de Soljenitsin, Aleksandr Tvardovsky, sentia a força do passado oculto, sabia o dano que a memória poderia causar ao sistema soviético. Finalmente, ele expressou seus sentimentos num poema:

          Estão errados se pensam que a memória
          Não tem grande valor
          Ou que as ervas daninhas do tempo apagam
          Acontecimentos ou dores do passado
          O planeta gira sem parar
          Contando os dias e os anos
          Não. O dever ordena que agora
          Tudo que não se disse seja dito totalmente.

Embora a União Soviética dispusesse de milhares de campos de concentração e embora milhões de pessoas tenham passado por eles, durante décadas, ninguém, a não ser meia dúzia de burocratas, soube qual era o número de vítimas. Estimar esse número era um exercício de pura adivinhação enquanto a URSS ainda existia. Hoje em dia, o cálculo pode ser feito por suposição.

No livro O Grande Terror (The Great Terror), de 1968, na época um relato original e inovador dos expurgos soviéticos, o historiador Robert Conquest estimou que o Ministério do Interior da antiga URSS, a NKVD, prendeu 7 milhões de pessoas em 1937/1938.

Os prisioneiros deixavam os campos porque morriam, porque fugiam, porque tinham sentenças curtas, porque eram liberados para o Exército Vermelho, ou porque tinham passado a ocupar cargos administrativos. E, freqüentemente, os velhos, os doentes e as mulheres grávidas eram anistiados. Mas a isso se seguiam, invariavelmente, novas ondas de prisões.
Por volta de 1940, 8 milhões de pessoas já tinham passado pelos campos. Entre 1929 e 1953 18 milhões de cidadãos soviéticos passaram pelos campos e pelas colônias.

Mas nem sempre esses números proporcionam uma resposta para o que as pessoas querem realmente saber

“Quantos morreram?” O que querem saber é quantas pessoas realmente morreram desnecessariamente em conseqüência da Revolução Bolchevique. Ou seja, quantos morreram em conseqüência do Terror Vermelho e da Guerra Civil, da fome, gerada pela política brutal de coletivização, das deportações em massa, das execuções em massa, dos campos da década de 20, dos campos de 1960/1980, e também dos campos e das execuções em massa do reinado de Stalin. Nesse caso, os números são apenas uma questão de pura conjectura. Os autores do Livro Negro do Comunismo falam em 20 milhões de mortes.

Um simples número redondo de mortes seria extremamente satisfatório. Entretanto, mesmo se chegássemos a esse número, ele não poderia contar toda a história de sofrimento. Nenhum dado oficial, por exemplo, jamais poderá retratar a mortalidade das viúvas, dos filhos e dos pais idosos que ficaram para trás, uma vez que a morte deles não foi computada. Durante a guerra, os idosos morriam de fome, sem cartões de racionamento; se o filho condenado não estivesse extraindo carvão em Vorkuta, eles poderiam ter continuado vivos. As crianças sucumbiam às epidemias de tifo e sarampo nos orfanatos gelados e mal equipados. Se as mães não estivessem costurando uniformes em Kengir, elas também poderiam ter sobrevivido.

Finalmente, nenhum número é capaz de retratar o impacto cumulativo da repressão stalinista na vida e na saúde de todas as famílias. Um homem foi julgado e morto como “inimigo do povo”, e a sua mulher foi levada para um campo de concentração sob a acusação de ser “membro de uma família inimiga”.

Os filhos cresceram em orfanatos e se uniram a gangs de criminosos. A mãe morreu de desgosto e mágoa. Os primos, os tios e as tias romperam relações com a família para que não fossem tidos como “corrompidos”. Famílias separadas, amizades desfeitas; o medo continuava a pesar muito sobre as pessoas, quando elas não morriam.
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São importantes estas recordações para que tais fatos jamais voltem a acontecer

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

RBlanco disse...

Misericórdia Senhor.