quarta-feira, 25 de maio de 2016

Camaradas - Uma História do Comunismo Mundial


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Entre os anos de 1989 e 1991 as pessoas tinham que se beliscar para terem certeza de que não estavam sonhando, pois algo de extraordinário havia acontecido na política mundial: de repente, os países comunistas ruíram. Ao chegarem ao Poder, por meio da Revolução Russa, Lenin e seus camaradas estabeleceram um tipo de governo que foi imitado na Europa Oriental, na China, no Leste da Ásia, em Cuba e em outras regiões após a II Guerra Mundial. Em 1989, no entanto, o sistema comunista foi varrido dos mapas da Europa e, em 1991, da própria União Soviética. Entrementes, partidos comunistas continuaram aferrados ao Poder em alguns países, como na Coréia do Norte, Vietnã e Cuba. Essa transformação pôs fim à disputa ideológica conhecida como Guerra Fria.

Os líderes e analistas políticos do Ocidente ficaram exultantes, pois, para eles ficara demonstrado que o comunismo era um sistema socioeconômico inqualificavelmente inferior. Debates sobre o comunismo são tão velhos quanto a teoria ideológica comunista, A Revolução de Outubro suscitou a instauração de um senso de urgência prática. Defensores do comunismo asseveravam que um novo mundo havia nascido na Rússia. Muitos fecharam os olhos para o monopólio do Poder exercido pelo Partido.

Ditadura e opressão terrorista estatal eram encaradas como instrumentos de administração de um abrangente sistema de bem-estar coletivo para os proletários. Achava-se que os revolucionários da Rússia poriam fim à opressão política, cultural, econômica e nacional. Essa imagem do Estado Soviético foi repetida e propagada durante décadas.

Correu o mundo a mensagem de que um estado superior de coisas e de sociedade estava sendo criado; de que os privilégios estavam com seus dias contados; de que o desperdício econômico achava-se na iminência de ser extinto. O comunismo era propagandeado como um sistema científico, humanitário e irreversível. 

Todavia, algo que ninguém previu foram as dissensões internas no comunismo mundial. Trotski, deportado da União Soviética em 1928, afirmou que a Revolução de Outubro havia sido traída. Depois de 1945, o número de cismas ideológicos aumentou.

A Rússia e a Iugoslávia  começaram a criticar as versões comunistas uma da outra. Os comunistas chineses se voltaram contra a União Soviética e acusaram a liderança do Kremlin de “revisionista”. Somente a Albânia se manteve incondicionalmente ao lado da China. Na Europa Ocidental, principalmente na Itália e Espanha, os partidos comunistas começaram a se afastar, aos poucos, do modelo imposto pela URSS. Nascia, então, o “eurocomunismo”. Eram tão numerosas as variantes do comunismo quanto o número de países comunistas.

O mundo tinha necessidade urgente de conhecer o comunismo. Havia também um imperativo moral. Com exceção do governo de coalizão de Salvador Allende, no Chile, liderado por comunistas, em 1970/1973, a história de governos comunistas em todo o mundo era associada a ditaduras, terrorismo policialesco e grosseiras violações dos direitos humanos. Era fundamental divulgar e explicar o que estava acontecendo nos países comunistas. Porém, isso era mais fácil de planejar do que realizar. Stalin conseguiu acobertar eficientemente a dimensão da fome por ele causada na Ucrânia, no Cazaquistão e no Sul da Rússia em 1932/1933. Nesse particular, entre 1958 e 1960, Mao superou Stalin, impedindo que notícias do maior exemplo de políticas causadoras da fome da história humana vazassem por suas fronteiras.

Esse bloqueio à livre circulação de informações possibilitou que os comunistas continuassem a alegar que tinham uma forma superior de organização da sociedade. De Lenin a Pol Pot e destes a Fidel Castro, louvores a esse respeito eram sempre os mesmos. Faziam crer que o comunismo superava a capacidade do capitalismo de proporcionar liberdade política, oportunidades de desenvolvimento cultural e bem-estar social e material. A Rússia tratava o próprio povo como recursos utilizáveis na busca de seus objetivos. A política era rigorosamente centralizada. Campos de trabalho foram construídos para confinar dissidentes reais e potenciais, Adeptos de crenças religiosas, monarquistas, livres pensadores culturais, políticos e socialistas liberais, nacionalistas e outros detratores foram presos. 

Após o Século XIX apareceram no mundo movimentos políticos que subverteram a ordem tradicional de sociedades e a reconstruíram de acordo com seus ideais. Esses movimentos – os comunistas à esquerda e os fascistas à direita – destruíram, onde lhes foi possível, todo vestígio de associações autônomas, pois tinham uma visão totalitarista. Para eles, nada deveria ser considerado apolítico. Os governantes totalitários não tinham o mínimo de respeito pela vida privada. Escarneciam das culturas e religiões tradicionais e eliminavam toda e qualquer oposição. Enchiam prisões e empenhavam-se em campanhas de permanente terrorismo estatal.

Os comunistas no Poder tiveram problemas em toda a parte. Jamais conseguiram superar ressentimentos sociais ou o apático desinteresse popular por seus objetivos. Em nenhum lugar conseguiram erradicar a cultura pré-revolucionária. Perseguiram as religiões sem, entretanto, conseguir eliminá-las.

Há motivos pelos quais as grandes esperanças no marxismo têm sido tema de controvérsias constantes. Alguns culpam as doutrinas originais de Marx e Engels e há muita razão nisso. Os pais do comunismo viam a força como a parteira do progresso histórico e jamais hesitaram diante da perspectiva de instalação de ditaduras, terrorismo estatal e guerra civil. Mas essas questões tinham outro lado, e era justamente esse o lado que mais fascinava a maioria dos marxistas da Europa Central antes da I Guerra Mundial. 

Entre os marxistas que se recusaram a trilhar uma estrada pacífica em busca da sociedade do futuro, estavam Lenin e os bolcheviques, que herdaram os segmentos autoritários do DNA marxista. E foram eles, em vez dos marxistas mais moderados, que instauraram o primeiro regime revolucionário. Criaram a Internacional Comunista e ofereceram um modelo aos socialistas da extrema esquerda política de todo o mundo.

Mas quantos comunismos existiam? Os próprios comunistas jamais pararam de discutir essa questão. Alguns chegaram a dizer que os sistemas comunistas de Lenin e Stalin diferiam entre si como a água do vinho. A Hungria, em 1956, a Checoslováquia, em 1968, e a URSS, no fim da década de 1980, introduziram reformas de uma natureza tão radical que chegaram às raias da descomunização. A invasão soviética impediu que isso acontecesse na Hungria e Checoslováquia naquela época. Esses, como outros países da Europa Oriental, tiveram que esperar até 1989 para se libertarem do comunismo. Sob a liderança de Gorbachev, a URSS deu um pulo no escuro e, no final de 1991, deixou de existir. 

Ninguém defende que Cuba, com seus bares coloridos e barulhentos, tem um governo idêntico ao da Coréia do Norte. A China de Mao não era uma réplica da Polônia de Gromulka ou da Albânia de Hoxha. A vida na URSS de Stalin não era idêntica à do Chile de Allende. As características nacionais de cada Estado comunista nunca foram idênticas.

Porém, as características do comunismo foram basicamente as mesmas em qualquer lugar do mundo em que ele tenha existido por algum tempo. Regimes comunistas duradouros tiveram muita coisa em comum. Eles eliminaram ou enfraqueceram partidos políticos rivais; atacaram as religiões, a cultura e a sociedade civil; esmagaram qualquer expressão de nacionalidade, exceto a que fosse aprovada pelo governo comunista; aboliram a autonomia do Judiciário e a liberdade de imprensa; centralizaram o Poder e enviaram dissidentes para campos de trabalhos forçados; criaram redes de polícia secreta e de informantes; alegavam que sua doutrina ideológica era infalível e se apresentavam como perfeitos cientistas dos problemas e das necessidades humanas; isolavam sociedades inteiras para impedir que sofressem a influência estrangeira na política e na cultura; controlavam a travessia de suas fronteiras com um zelo feroz; tratavam todas as realidades da vida social como algo necessariamente devassável pelas autoridades; usavam as pessoas como se fossem recursos naturalmente empregáveis na consecução de seus objetivos; e demonstravam pouco respeito pela ecologia, pela caridade e pelos costumes.

São essas características em comum que nos permitem falar sensatamente em sistema comunista.

A importante mensagem transmitida pelo texto acima, tanto para os contemporâneos quanto para as gerações do
Século XXI, é que, embora o comunismo, em seu formato original, esteja morto ou em estado terminal, a pobreza e as injustiças que possibilitaram o seu surgimento, ainda persistem, em todo o mundo, perigosamente vulneráveis à exploração de extremistas.
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O artigo acima é o resumo de um dos textos do livro “Camaradas – Uma História do Comunismo Mundial”, com 656 páginas, de autoria de Robert Service, publicado pela Editora DIFEL, em 2015. Robert Service é um historiador, acadêmico e escritor britânico. Leciona História Russa na Oxford University.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

P.Chilitti disse...

Há algumas semanas, eu postei um comentário que era uma pergunta. Como não obtive resposta, quero formulá-la novamente: como eu consigo as postagens anteriores do Carlos I. S. Azembuja?