quarta-feira, 25 de maio de 2016

Eles ganharam, mas perderam


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Ênio Mainardi

Tem um ditado que já ouvi diversas vezes . É assim: o artista vai onde o povo está. Isso nunca mudou na história da humanidade. O artista ainda é a figura que arma seu palco nos lugares que tem mais afluência de público. E lá põe sua viola para tocar, canta, dança. E depois passa um chapéu para recolher moedas. São saltimbancos. Isso é verdade ou não?

Eu estava, horas atrás, numa barraca de plástico na Place de la Republique, aqui em Paris. Chovia, molhando as pessoas que se amontoavam para ouvir um grupo musical francês-árabe fantástico. Parei lá com a Tê e ficamos, os dois, emocionados. Ou transportados. Sei que todos, naquele lugar, naquela hora, ainda no poente, com aquela música meio rap, estavamos todos dançando e felizes. Fiquei com a garganta doendo na tentativa de evitar chorar, de tanto que aquela merda me pegou. Isso é o que faz o Caetano, Chico, Gil, Betânia, Gal, Fagner, Yamandu , Tulipa Ruiz, Fernanda Montenegro, Marcelo Jenessí...tantos e tantos.

Artista brasileiro bom é que não falta, eu podia passar horas lembrando nomes de agora e de antigamente. Mas agora esse clima de amor...rachou. Uma minoria se envolveu pesado com as manobras de grana da Lei Rounaet. As denúncias vazaram e ficou claro que esses artistas não pegavam só as receitas de suas apresentações. Mas se aproveitavam das vantagens da lei que era acertada politicamente com o estado petista, através do MinC, como é chamado o Ministério da Cultura. Tudo na mão grande. E quando o Temer quis acabar com a mamata, neste comecinho-do-comecinho do seu governo anti pt, a artistaiada protestou de tudo quanto é jeito.

Pressionaram os governadores, a mídia, os faxineiros, os limpadores de rua, os garçons - enfim, todas as autoridades. Então o Temer, esmagado e enfrentando um déficit de mais de 200 bilhões? trilhões? quintilhões de reais, teve que transigir. Os artistas, muito inclusivamente seus promotores e empresários, ganharam o braço de ferro: o MinC vai voltar. Tava todo mundo dando força para o Temer impor mudanças, acabando com os trambiques do MinC. Que poderia até ser ressuscitado mais tarde com um novo nome e sem a lei Rounaet. Reconhecendo que o Brasil não pode aguentar mais estelionatos.

Ao se voltar contra a opinião pública, os artistas quiseram inverter as coisas: o povo é que deveria ir atrás deles. Vamos ver. Na minha opinião os que gritaram Fora o Golpe! Volta Dilma! se danaram. Serão identificados como gente do mal. E a maré vai-se voltar contra eles. Dá-lhe, Temer. Eles venceram uma batalha, mas perderam a guerra.


Ênio Mainardi é publicitário, jornalista e escritor.

Um comentário:

Anônimo disse...

É verdade! Artista que é artista nasce artista, já vem no sangue. Pode até ser que alguns descubram ou desenvolvam suas artisticidades no decorrer da vida, mas não vai deixar nunca de ser uma dádiva biológica. Eu estou falando de artistas natos, não de impostores. Meu pai, por exemplo, foi um artista. Nasceu com esse dom, nato, autodidata. Esculpia, pintava, projetava e vivia dele. Mesmo envolto na arte, teve tempo para criar e dar do bom e do melhor, que pode, para a sua família de esposa e seis filhos. Passou também dificuldades, mas sempre deu a volta por cima! Fez suas exposições com muito sacrifício e quando a coisa não andava ia à luta. Passou muito tempo expondo seus trabalhos na Feira Hippie da General Osório (RJ) nos anos 70 e gostava de estar envolto nessa atmosfera de criação. Sua arte viajou para os quatro cantos do mundo! Quando partiu desse plano deixou aquela impressão de que se ficasse teria feito mais. Nunca pediu ajuda a ninguém para nada, pois essa era a sua personalidade; deixar a arte refletir a natureza das coisas. Eu acho que se hoje tivesse oportunidade, perguntaria: como alguém pode fazer arte recebendo “mesada”?