domingo, 1 de maio de 2016

PC do B - Guerra popular, o Caminho da Luta Armada


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Durante os anos 1968/1971, o Partido Comunista do Brasil negou-se a se comprometer com o processo de luta armada desencadeada pelas organizações castristas, que acusava de aventureirismo. Nos anos 70, o partido maoísta brasileiro lançou sua própria experiência de combate, sob a forma de uma guerrilha rural na região do Araguaia, que foi descoberta, por acaso, em 1972, e totalmente dizimada em 1974, pelas FF AA.

O texto abaixo foi escrito em 1969, quando diversos militantes já haviam sido deslocados para a região do Araguaia. Então, o partido buscava aplicar à realidade brasileira a estratégia militar maoísta de cerco das cidades pelo campo durante o transcurso de uma guerra popular. Se do ponto de vista da estratégia política o PC do B não estava muito distanciado do seu rival – PCB - pró-soviético, com relação à guerra popular diferenciava-se radicalmente dele.

Eis o texto, intitulado “O Caminho da Luta Armada”:

Os fatores favoráveis e desfavoráveis à revolução, inerentes à realidade brasileira, são elementos essenciais para definir o caminho da luta armada e deles decorrem os aspectos básicos do curso da guerra revolucionária no Brasil.

Quais são esses aspectos?

A luta armada em que se empenhará o povo brasileiro terá um profundo conteúdo popular, englobando as mais amplas massas da população. O fato de ser o Brasil um país dependente e o fato de a terra estar monopolizada por uma minoria de latifundiários, imprime à revolução um caráter nacional e democrático, o que permite a mobilização de imensas forças sociais para derrubar o atual regime reacionário. As classes dominantes não podem resolver a contradição entre o rápido aumento da população e a carência, sempre maior, de empregos, de meios de educação e de assistência. Tampouco podem evitar o contraste, cada vez mais chocante, entre o Brasil das grandes cidades e o Brasil do interior. Tudo isso provoca um descontentamento crescente de vastos setores populares, cujas aspirações só serão satisfeitas pela revolução.

(...)

As grandes cidades não podem ser o cenário principal da guerra de libertação do povo brasileiro. Nelas estão concentrados os contingentes mais numerosos e mais fortes das forças armadas do inimigo. Nos centros urbanos estão sediadas guarnições militares dispondo de amplos recursos e treinadas para esmagar as lutas do povo.

(...)

A correta e estreita coordenação das atividades revolucionárias, armadas e não-armadas, no campo e nas cidades, é o caminho para tornar vitoriosas as forças do povo. O movimento político de massas nas cidades ajuda a preparar e desencadear as ações armadas no campo e estas, por seu turno, darão impulso às lutas de massas nos grandes centros. 

O interior é o campo propício à guerra popular. Aí existe uma população que vive no abandono, na ignorância e na miséria. Nos mais diversos níveis, os camponeses empenham-se nas lutas pelos seus direitos. Devido à repressão brutal dos latifundiários e da polícia, as ações no campo assumem logo um caráter radical. Sobretudo nas regiões de posseiros são freqüentes os choques armados com os grileiros. Como foi acentuado na VI Conferência Nacional do partido, a massa camponesa é uma grande força a ser mobilizada para a conquista dos objetivos nacionais e democráticos.

Tem manifestado, inúmeras vezes, sua aspiração a posse da terra. Representa um grande potencial revolucionário que, embora no momento não esteja despertado, é sensível às lutas mais altas, e capaz de fornecer a massa principal de combatentes da guerra popular. O interior é o elo mais débil da dominação das forças reacionárias no país. Nem alguns milhões de soldados brasileiros ou norte-americanos poderão ocupar as regiões mais agrestes do país. Nessas regiões, as tropas reacionárias atuarão em ambiente adverso: situação geográfica que favorece os combatentes do povo e dificulta a ação das unidades repressoras, meios de transporte difíceis ou inexistentes, ausência de fontes de abastecimento para forças regulares numerosas, condições sociais desfavoráveis, etc.

(...)

No interior, as forças populares terão à sua disposição amplo campo de manobra que lhes permitirá evitar o cerco, poupar e acumular forças. Nele é possível assegurar a sobrevivência dos grupos combatentes na difícil fase inicial da guerra popular. Assim, o terreno em que se desenvolverá a guerra popular será fundamentalmente o interior.
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O artigo acima resumido foi publicado no livro “O Marxismo na América Latina – Uma Antologia de 1909 aos Dias Atuais”, organizado por Michael Lowy, autor de inúmeros livros e artigos que o tornaram conhecido como um dos maiores estudiosos do marxismo em nossos dias. Foi editado no Brasil, em 1999, pela Editora Fundação Perseu Abramo.

Sobre a tal guerra popular prolongada transcrevo um excerto extraído e um artigo de minha autoria: “Araguaia - Ultrapassando a Guerrilha”:
               
Jamais, nenhum jogador de xadrez descobriu um meio seguro de ganhar a partida no primeiro lance, pois o jogo encerra um sem número de variáveis.
               
A guerra, que pode ser uma questão de vida ou morte para nações, um dos poucos fenômenos que já foram analisados  completa, ativa e consistentemente, embora não seja um jogo de xadrez e sim um fenômeno social, possui um número de variáveis infinitamente maior, algumas das quais fogem a quaisquer análises, como, por exemplo, a sorte.
               
Não obstante, o acúmulo de experiências e os estudos geraram livros e documentos que podem ser definidos como as Leis da Guerra, embora não possuam, como é natural, o mesmo valor das leis da Física.
               
Uma dessas leis diz que o contingente mais forte geralmente é vitorioso. Se os contendores têm forças semelhantes, ganha o mais resoluto. Se é igual a resolução dos dois lados em conflito, a vitória pertencerá àquele que assume e mantém a iniciativa. Todavia, o fator surpresa pode desempenhar um papel decisivo.
               
Essas são as chamadas Leis da Guerra. Elas podem variar de época em época, na medida em que evoluem a tecnologia, os armamentos e outros fatores, mas, de modo geral, conservam seu valor.
               
A Guerra Revolucionária, todavia, constitui uma exceção, pois tem normas especiais, diferentes daquelas relativas às guerras convencionais e também porque a maior parte das regras aplicáveis para um lado não é válida para o outro, pois numa luta entre uma mosca e um elefante, a mosca não pode aplicar um golpe fulminante e nem o elefante pode voar.
               
Na Guerra Revolucionária, onde um dos lados é o rebelde e o outro o contra-rebelde, não são válidas as Leis da Guerra. Nesse tipo de Guerra, a Inteligência e o Apoio da População são fundamentais.
               
A Guerra Revolucionária poderá ser definida, então, como um conflito interno, desafiando um poder local, embora quase sempre afetado por influências externas.
               
Enquanto numa guerra convencional qualquer dos lados pode iniciar o conflito, numa Guerra Revolucionária somente o rebelde o inicia, pois o seu combate nada mais é do que uma decorrência da rebelião. Mais: uma rebelião pode ter início muito antes do rebelde recorrer à força.
               
Foi assim na chamada Guerrilha do Araguaia (1972-1974), quando a rebelião começou a ser gestada nos idos de março de 1964, quando o primeiro grupo de militantes do PC do B foi mandado à China a fim de receber treinamento militar. Ou talvez, antes, quando foi constituído o Partido Comunista do Brasil, em fevereiro de 1962.
               
A Guerra Revolucionária é, didaticamente, uma luta prolongada, levada a efeito de forma paulatina e metódica. Desenvolve-se com lentidão, a fim de alcançar objetivos intermediários específicos que conduzam à derrubada da ordem vigente. Seu início é tão vago que buscar determinar exatamente quando ela teve início transforma-se em um problema legal, político e histórico. Foi isso que ocorreu na chamada Guerrilha do Araguaia.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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